O processo de legitimação das literaturas africanas

Envie este artigo por email

Foi há cinquenta anos que os países africanos alcançaram as independências políticas, seguindo-se o lançamento das bases para a construção de Estados modernos.

Agostinho Neto, Mia Couto, Sembene Ousmane, Chinua Achebe

Nesse período o continente foi assolado por crises de diversa ordem cujos efeitos mais devastadores tiveram o seu impacto nos sistemas de ensino superior. Uma das repercussões mais graves dessas crises ocorreu ao nível da produção do conhecimento científico e da legitimação literária onde a hegemonia dos modelos teóricos e metodológicos ocidentais pareciam perpetuar a dependência da atividade científica e literária em África. Tal ideia é bem ilustrada por Inocência Mata, ao referir-se à dependência dos escritores países africanos de língua portuguesa relativamente às instâncias externas de legitimação europeias.

Partindo dessa experiência histórica, dos circunstancialismos e contingências que marcaram os Africanos de um modo geral, o meu olhar sobre o continente não dispensa as especificidades e a diversidade do todo.

Quando em 1982, o filósofo congolês V.Y. Mudimbe no seu livro L’Odeur du Père. Essai sur des limites de la science et de la vie en Afrique Noire, numa leitura inspirada pela lição inaugural proferida pelo filósofo francês Michel Foucault no Collège de France, levantava interrogações acerca do estatuto dos discursos africanos e sua ordem, bem como da soberania que os governa e sua orientação, vivia se já o apogeu dos processos de legitimação dos discursos e das disciplinas que conformam as Ciências Sociais e Humanas em África.

Para Mudimbe estava em causa a necessidade de escapar às malhas do Ocidente. O que implicava conhecer em profundidade o limite até ao qual o Ocidente se aproximara insidiosamente de África e pressupunha a descoberta naquilo que nos permite pensar contra o Ocidente o que é ainda ocidental.

Na verdade, a legitimação dos Estudos Africanos e as suas condições de possibilidade enquanto campo do saber constituem expressões que revelamos efeitos da modernidade africana, concretizando-se esta através da absorção dos princípios que modelam a ossatura da modernidade ocidental: o princípio da subjetividade, o princípio da tirania da razão e o princípio da redução do mundo à uniformidade. Neste sentido, de acordo com Abel Kouvouama modernidade, «deve ser despojada da sua carga evolucionista etnocêntrica e milenar de modo a dar lugar à relativização do seu conceito em função dos valores e das identidades culturais específicas de cada povo, cada civilização». É, pois, no contexto da modernidade africana que os Estudos Africanos, as Literaturas Africanas parecem adquirir o estatuto de campo disciplinar, sendo, por isso, indispensável o estudo da origem das instituições e das disciplinas que constituem os vários campos do saber em África, a reflexão sobre o processo de consolidação do sistema disciplinar moderno e suas influências na constituição de ramos específicos, especialmente o domínio da literatura.

Ao partir da institucionalização da literatura no contexto da modernidade ocidental, uma pergunta se impõe. Será que existem aspetos universais nas teorias europeias ou ocidentais suscetíveis de aplicação válida às Literaturas Africanas ou à Literatura Angolana?

A existência de universais que permitem a comunicação intercultural não pode reduzir-se ao reconhecimento do monismo ou do universalismo realista. É que a natureza insidiosa das pretensas teorias universais, fora denunciada já em1964 pelo escritor nigeriano Chinua Achebe, ao considerar que a universalidade é um dogma falso e perigoso embora a atração que suscita não pareça inspirar qualquer contestação. Em1972, a revista Diogène patrocinada pelo Conselho Internacional de Filosofia e de Ciências Humanas e pela UNESCO, consagrou um número à crítica africana sob o título La LittératureAfricaine a l’Age de la Critique. Na sua introdução, o filósofo francês Roger Caillois, o redator-chefe, sublinhava que as Literaturas Africanas entravam numa nova fase, a partir do momento em que se transformava em seu próprio objeto. Tratava-se então de compreender e explicar a criação literária, de lhe captar os motivos secretos, de descrever as suas dèmarches, de explicitar a sua significação.

Tomando os argumentos expendidos pelo filósofo ganense Kwasi Wiredu, numa reflexão sobre os universais e os particulares da cultura, pode-se admitir que as categorias de necessidade e de contingência, aplicadas no âmbito deste debate, permitem compreender que os princípios e os padrões de avaliação estética são contingentes, Não havendo, por conseguinte, princípios universais válidos. As posições de Wiredu abalam a crença na autoridade dos discursos, teorias e epistemologias de origem ocidental. Com efeito, as condições de possibilidade de uma teoria literária e da crítica literária africana são hoje reconhecidas por alguns sectores da comunidade científica especializada. Em The John Hopkins Guide to Literary Theory & Criticism publicado em1994, há uma entrada que lhes é dedicada. No respetivo verbete lê-se o seguinte: «A teoria e crítica literária Africana emerge de um discurso do nacionalismo /continentalismo constituído em ato de resistência política e cultural […] O desenvolvimento de uma prática e de uma teoria literária global (ou nacional) Africana é inseparável do projeto total de descolonização ».Referindo-se ao campo das Literaturas Africanas em que se inscreve a literatura oral, aos universais e particularismos, o crítico literário e ensaísta nigeriano Abiola Irele escreve:
O ponto que deve ser sublinhado é constituído por situações que distinguem as Literaturas Africanas enquanto campo abrangente, englobando convenções da expressão imaginativa e revela as diferentes tradições da análise literária e constitui o que deve ser uma posição estratégica para ganhar uma perspetiva geral sobre o fenómeno literário que seja mais inclusiva do que a estabelecida pelo cânone ocidental. Visto que o postulado de uma experiência universal e não diferenciada da literatura é indefensável, contudo há de ser útil, do ponto de vista teórico e metodológico, para examinar as linhas de convergência que aproximam as várias tradições literárias a outras apesar das diferenças de linguagem, convenções e desenvolvimento histórico.

Abiola Irele sintetiza aí os aspetos mais relevantes que têm vindo a merecer a apreciação de outros críticos e teóricos Africanos. O elenco comporta igualmente obras. Mas não deixa de ser relevante apontar os contextos em que parte considerável dos debates teóricos se desenvolveu, ao longo dos últimos cinquenta anos. Estou a referir-me aos colóquios realizados em África: Makerere (1962), Dakar (1963), Freetown (1963), Abidjan
(1969, 1970), Yaoundé (1973), Lumbumbashi (1975), Lagos (1977); Brazzaville (1981).

Entre as obras de referência destaco as seguintes: Actas do Colóquio de Yaoundé. La Critique africain et son Peuple comme producteur de civilization (1973) MohamadouKane (senegalês), Roman Africain et Tradition (1982); J.P.MakoutaMboukou(congolês); Introduction a l’étude duRoman Négro-Africaine de Langue Française (1980); IsidoreOkpewho (nigeriano), AfricanOral Literature.Backgrounds, Character and Continuity (1992); Tejumola Olanyan e Ato Quayson (ed.), African Literature. An Anthology of Criticsm and Theory (2007), Mamoussé Diagne (senagalês), Critique de la Raison Orale. Les PratiquesDiscursives en Afrique Noire (2005). Ao proceder à leitura destas obras, podemos concluir que tem razão Georges Ngal, quando concorda com Chinua Achebe, afirmando que uma teoria das Literaturas Africanas tornar-se-á possível apenas «se evitarmos a armadilha do recurso ao universal».Na mesma senda está Pius Ngandu Nkashama, quando defende a possibilidade de uma teoria das Literaturas Africanas ou ainda J.P. Makouta Mboukou.

Analisando as consequências da constituição das Literaturas Africanas como disciplina académica e a disputa sobre a produção do discurso legítimo entre investigadores Africanos e não - Africanos, o cerne da questão situa-se na desigual relação de poder existente entre os dois campos do ponto de vista dos recursos, em matéria de investigação.
Os países africanos de língua portuguesa e as respetivas literaturas ausentes do campo em que se registavam tais disputas integram as forças que nele interagem já em meados das décadas de 70 e 80, quando a investigação e o ensino das Literaturas Africanas se consolidava no continente.

Por outro lado, nessa mesma década as comunidades disciplinares dos estudos literários, na Europa e nos Estados e nos Estados Unidos da América, desencadeavam controvérsias no domínio da teoria da literatura, pondo em causa a sua utilidade. Se passarmos em revista os textos publicados nesse período, especialmente aqueles que resultam dos debates gerados pelo texto Against Theory, assinado por Steven Knapp e Walter Benn Michaels, verificamos que o ataque à teoria representava a formulação de dúvidas sobre a pretensa validade universal da teoria da literatura, após a falência dos modelos propostos pelo estruturalismo francês e pelo New Criticism norte americano.

Este modo de levantar o problema era já um sintoma nas obras publicadas por Paul Feyerabend, nomeadamente, em Farewell to Reason (Adeus à Razão) e Against Method (Contra o Médtodo), relevando da epistemologia e da filosofia das ciências e que se fundava na necessidade de introduzir as contingências e os acasos na racionalidade científica.

A abordagem que proponho inscreve-se no domínio da metateoria e faz apelo a uma articulação interdisciplinar de temas e problemas que apontem para a necessidade de um comparativismo literário africano. As controvérsias que se registam no domínio da teorização e da crítica das Literaturas Africanas serão analisadas à luz dos debates que desencadeiam igualmente no campo da Filosofias Africanas.

O conceito-chave com que opero aqui é o de disciplinarização, devido ao potencial que oferece para explicar a natureza da incompletude do processo que nos irá conduzir à integração dos Estudos Literários Africanos ou das Literaturas Africanas no sistema disciplinar atual. Por disciplinarizacão entendo o processo de delimitação de uma determinada disciplina, por força de dinâmicas endógenas e exógenas, durante o qual se transita de uma fase pré-disciplinar para a fase disciplinar, admitindo-se nesta última fase a existência, por um lado, de uma compatibilidade entre os fundamentos epistemológicos e metodológicos da produção e transmissão de conhecimentos e, por outro lado, a especificidade do objeto de estudo. A profissionalização disciplinar há-de ser uma consequência desse processo e, especialmente, da formação de uma comunidade científica integrada por agentes que, conhecendo profundamente a história e os universos de referência da disciplina, sejam capazes de aplicar as metodologias mais adequadas no domínio da investigação e do ensino.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos