O processo de legitimação das literaturas africanas

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Foi há cinquenta anos que os países africanos alcançaram as independências políticas, seguindo-se o lançamento das bases para a construção de Estados modernos.

Agostinho Neto, Mia Couto, Sembene Ousmane, Chinua Achebe
Referindo-se ao campo das Literaturas Africanas em que se inscreve a literatura oral, aos universais e particularismos, o crítico literário e ensaísta nigeriano Abiola Irele escreve:
O ponto que deve ser sublinhado é constituído por situações que distinguem as Literaturas Africanas enquanto campo abrangente, englobando convenções da expressão imaginativa e revela as diferentes tradições da análise literária e constitui o que deve ser uma posição estratégica para ganhar uma perspetiva geral sobre o fenómeno literário que seja mais inclusiva do que a estabelecida pelo cânone ocidental. Visto que o postulado de uma experiência universal e não diferenciada da literatura é indefensável, contudo há de ser útil, do ponto de vista teórico e metodológico, para examinar as linhas de convergência que aproximam as várias tradições literárias a outras apesar das diferenças de linguagem, convenções e desenvolvimento histórico.

Abiola Irele sintetiza aí os aspetos mais relevantes que têm vindo a merecer a apreciação de outros críticos e teóricos Africanos. O elenco comporta igualmente obras. Mas não deixa de ser relevante apontar os contextos em que parte considerável dos debates teóricos se desenvolveu, ao longo dos últimos cinquenta anos. Estou a referir-me aos colóquios realizados em África: Makerere (1962), Dakar (1963), Freetown (1963), Abidjan
(1969, 1970), Yaoundé (1973), Lumbumbashi (1975), Lagos (1977); Brazzaville (1981).

Entre as obras de referência destaco as seguintes: Actas do Colóquio de Yaoundé. La Critique africain et son Peuple comme producteur de civilization (1973) MohamadouKane (senegalês), Roman Africain et Tradition (1982); J.P.MakoutaMboukou(congolês); Introduction a l’étude duRoman Négro-Africaine de Langue Française (1980); IsidoreOkpewho (nigeriano), AfricanOral Literature.Backgrounds, Character and Continuity (1992); Tejumola Olanyan e Ato Quayson (ed.), African Literature. An Anthology of Criticsm and Theory (2007), Mamoussé Diagne (senagalês), Critique de la Raison Orale. Les PratiquesDiscursives en Afrique Noire (2005). Ao proceder à leitura destas obras, podemos concluir que tem razão Georges Ngal, quando concorda com Chinua Achebe, afirmando que uma teoria das Literaturas Africanas tornar-se-á possível apenas «se evitarmos a armadilha do recurso ao universal».Na mesma senda está Pius Ngandu Nkashama, quando defende a possibilidade de uma teoria das Literaturas Africanas ou ainda J.P. Makouta Mboukou.

Analisando as consequências da constituição das Literaturas Africanas como disciplina académica e a disputa sobre a produção do discurso legítimo entre investigadores Africanos e não - Africanos, o cerne da questão situa-se na desigual relação de poder existente entre os dois campos do ponto de vista dos recursos, em matéria de investigação.
Os países africanos de língua portuguesa e as respetivas literaturas ausentes do campo em que se registavam tais disputas integram as forças que nele interagem já em meados das décadas de 70 e 80, quando a investigação e o ensino das Literaturas Africanas se consolidava no continente.

Por outro lado, nessa mesma década as comunidades disciplinares dos estudos literários, na Europa e nos Estados e nos Estados Unidos da América, desencadeavam controvérsias no domínio da teoria da literatura, pondo em causa a sua utilidade. Se passarmos em revista os textos publicados nesse período, especialmente aqueles que resultam dos debates gerados pelo texto Against Theory, assinado por Steven Knapp e Walter Benn Michaels, verificamos que o ataque à teoria representava a formulação de dúvidas sobre a pretensa validade universal da teoria da literatura, após a falência dos modelos propostos pelo estruturalismo francês e pelo New Criticism norte americano.

Este modo de levantar o problema era já um sintoma nas obras publicadas por Paul Feyerabend, nomeadamente, em Farewell to Reason (Adeus à Razão) e Against Method (Contra o Médtodo), relevando da epistemologia e da filosofia das ciências e que se fundava na necessidade de introduzir as contingências e os acasos na racionalidade científica.

A abordagem que proponho inscreve-se no domínio da metateoria e faz apelo a uma articulação interdisciplinar de temas e problemas que apontem para a necessidade de um comparativismo literário africano. As controvérsias que se registam no domínio da teorização e da crítica das Literaturas Africanas serão analisadas à luz dos debates que desencadeiam igualmente no campo da Filosofias Africanas.

O conceito-chave com que opero aqui é o de disciplinarização, devido ao potencial que oferece para explicar a natureza da incompletude do processo que nos irá conduzir à integração dos Estudos Literários Africanos ou das Literaturas Africanas no sistema disciplinar atual. Por disciplinarizacão entendo o processo de delimitação de uma determinada disciplina, por força de dinâmicas endógenas e exógenas, durante o qual se transita de uma fase pré-disciplinar para a fase disciplinar, admitindo-se nesta última fase a existência, por um lado, de uma compatibilidade entre os fundamentos epistemológicos e metodológicos da produção e transmissão de conhecimentos e, por outro lado, a especificidade do objeto de estudo. A profissionalização disciplinar há-de ser uma consequência desse processo e, especialmente, da formação de uma comunidade científica integrada por agentes que, conhecendo profundamente a história e os universos de referência da disciplina, sejam capazes de aplicar as metodologias mais adequadas no domínio da investigação e do ensino.

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