O Profissionalismo da Mulher no Sul de Angola

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Falando de «Profissionalismo da Mulher no Sul de Angola», quero referir-me nesta frase, primeiro, a toda e qualquer mulher nascida ou residente no Sul de Angola (portanto sem distinção de raças) que exerce uma «profissão», isto é, que tem outro modo de vida além da tradicional profissão doméstica; e segundo àqueles pontos do Sul da Colónia onde já chegou uma civilização suficiente, para que neles se possa falar com justiça, de profissionalismo feminino.

Com efeito, nos últimos dez anos, o profissionalismo da mulher do Sul, desenvolveu-se de uma maneira espantosa. Tão espantosa, que quem abandonou a Colónia por esse tempo, achará que os casos e os números que vou citar, não passam de utopia. E no entanto eles são uma realidade. Isto é devido principalmente aos contingentes de raparigas que os colégios e os liceus têm lançado nos últimos anos por toda a Colónia, com um número de conhecimentos suficiente para que possam ombrear em todos os sectores da vida pública com os homens, sem desprestígio para o seu sexo. Uma vez adquiridos esses conhecimentos, elas próprias sentiram necessidade de, em face das suas novas possibilidades, não sobrecarregarem por mais tempo os pais, e darem uma ajuda no orçamento da casa, auxiliando assim (quantas vezes!) os irmãos que, na Metrópole, lutam pela garantia de um curso.

Tudo o que vai dito a seguir foi escrito, principalmente, para aquelas mulheres metropolitanas que pensam, ainda hoje, que a mulher angolana limita a sua actividade ao arrastar de seus luxos e lazeres pelos ambientes mais ou menos requintados das festas coloniais… Mesmo as que se limitam à vida doméstica trabalham, e muito. Mas aqui venho referir-me principalmente ao trabalho da profissional do Sul de Angola – a mulher que cultiva a terra, enlata o peixe, ensina s crianças e serve nos hospitais.

Para começar, poderei então dizer que, hoje, no Sul de Angola, o profissionalismo da Mulher está condicionado pelo factor «instrução», e se exerce em três sentidos, a saber: - profissionalismo correspondente, •A uma instrução inferior 2) a uma instrução média 3) a uma instrução superior.
No trabalho correspondente a uma instrução inferior (neste caso poderia dizer nula) empregam-se aquelas mulheres quase exclusivamente mulheres negras, que não sabem ler nem escrever, na maior parte dos casos mal falam o português. Esse trabalho consiste principalmente na colheita de produtos agrícolas do Sul, tais como, o algodão o feijão, a massambala, e outros. Igualmente se empregam na preparação da fibra. E aqui as mulheres negras cortam as folhas ao sisal, conduzem-no, estendem-no e secam-no. Só na «Fazenda Aurora» (extensa fazenda de sisal, a 30 km da Vila Teixeira da Silva), as mulheres representam 10% do pessoal. E nas várias culturas do algodão, 50% dos cultivadores indígenas são mulheres.

Por outro lado, à medida que o nível de instrução passa de nulo a positivo, encontramos mulheres que, sabendo já ler e escrever, se empregam nas fábricas. Neste caso deixa de haver predomínio exclusivo das mulheres negras, para se encontrarem já trabalhando,
lado a lado com elas, mestiças e brancas. É principalmente na região de Moçâmedes e Sá da Bandeira que isto se dá. Aí as mulheres empregam-se, nas fábricas de couros, como «ajuntadeiras» e, nas fábricas de conservas, como «enlatadeiras». Para exemplificar, posso citar as mulheres que se empregam na fábrica de «Seabra Seabra de Azevedo», trabalhando como ajuntadeiras, e que representam, em tempo normal de trabalho, cerca de 20% do pessoal. Isto passa-se em Sá da Bandeira, enquanto em Moçâmedes encontramos mulheres trabalhando como enlatadeiras nas fábricas de conservas, principalmente na fábrica de J. Patrício Correia, onde representam cerca de 30% do pessoal.

Em face destes números, quer referindo-nos apenas ao trabalho agrícola, quer ao trabalho nas fábricas, poderemos já por aqui calcular a importância que, num futuro próximo, terá a mão de obra feminina nos trabalhos da colónia que a forem solicitando.

Seguidamente temos a considerar o profissionalismo correspondente a um nível de instrução média. Neste sector encontramos raros elementos negros e predominantemente de mestiças e brancas. São principalmente aquelas raparigas que, uma vez adquirido o curso dos liceus, ou conhecimentos que o substituam, invadem o Sul da Colónia, mas principalmente a Província de Benguela, para serem dactilógrafas, professoras primárias, enfermeiras, analistas, empregadas dos estabelecimentos públicos (Zona escolar, Administração, Fazenda, etc.), «caixas» e modistas.
Para citar números, poderei dizer que, na cidade de Benguela, as raparigas empregadas nos Correios e Telégrafos, representam, já hoje, cerca de 10% do pessoal. E isto para não falar no caso do professorado, onde o número de elementos femininos empregados quer nas escolas das cidades, quer nos postos escolares, é superior ao dos elementos masculinos. Posso mesmo afirmar que, nos próximos anos, o ensino da criança em Angola, deve estar quase exclusivamente dependente da Mulher.

Finalmente, falando de profissionalismo correspondente a um nível de instrução superior, quero referir-me aqui, àquelas professoras liceais que têm ensinado, quer no Liceu Nacional Diogo Cão – único do Sul de Angola –quer nos Colégios particulares, e muitas
vezes até em sua própria casa, todas proporcionando à juventude feminina do Sul de Angola uma instrução e uma educação que durante anos e anos faltou por completo. Quero referir-me também às poucas médicas que têm aparecido por essas paragens, e às poucas farmacêuticas que por aí se têm fixado. Todas essas mulheres, todas essas doutoras, têm representado o profissionalismo da mulher no Sul de Angola, no seu mais alto nível, aquele que corresponde a uma instrução superior. Mas referindo-me a elas, não quero ficar por aqui, pois são ainda elementos importados da Metrópole por factores estranhos à Colónia, sejam eles de ordem económica ou social. Por isso, vou além delas não tendo, por outro lado, nada mais a que me referir, materialmente, senão a essas mulheres. Mas tenho-o espiritualmente. Aqui fica portanto essa minha outra referência a um profissionalismo que ainda não existe hoje, mas há-de vir a existir nos próximos dez anos (creio sinceramente!) e que diz respeito àquelas raparigas, sejam brancas, negras ou mestiças que, nascidas em Angola, hoje a representam em todas as Faculdades da Metrópole, e virão um dia a pôr a sua vida ao serviço da Colónia, como pintoras, escritoras, jornalistas, médicas, Doutoras em Direito, Ciências ou Agronomia, numa luta desinteressada e sincera por uma Angola maior.

Lisboa, Novembro de 1950

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