O que é Literatura?

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A literatura, como manifestação artística, tem por finalidade recriar a realidade a partir da visão de determinado autor (o artista), com base nos seus sentimentos, seus pontos de vista e suas técnicas narrativas.

O que é Literatura?
O que é Literatura?

O que difere a literatura das outras manifestações é a matéria-prima: a palavra que transforma a linguagem utilizada e os seus meios de expressão. Porém, não se pode pensar ingenuamente que literatura é um "texto" publicado num "livro", porque sabemos que nem todo o texto e nem todo o livro publicado são de carácter literário.
Logo, o que definiria um texto "literário" de outro que não possui essa característica? Essa é uma questão que ainda gera discussão em diversos meios, pois não há um critério formal para definir a literatura a não ser quando contrastada com as demais manifestações artísticas (evidenciando a sua matéria-prima e o meio de divulgação) e textuais (evidenciando um texto literário de outro não literário). Segundo José de Nicola (1998), o que torna um texto literário é a função poética da linguagem que “ocorre quando a intenção do emissor está voltada para a própria mensagem, com as palavras carregadas de significado." Além disso, Nicola enfatiza que não apenas o aspecto formal é significativo na composição de uma obra literária, como também o seu conteúdo.
"O que é literatura?" É antes de tudo uma pergunta histórica. O que conhecemos por literatura não era o mesmo que se imaginava há, por exemplo, duzentos anos quando, na Europa, o género literário “romance” começou a desenvolver-se graças ao desenvolvimento dos jornais, que possibilitou uma maior divulgação do género, mudando o que se entendia a respeito do assunto. Se antes as “belas letras” eram compostas por composições em verso que seguiam uma estrutura formal de acordo com critérios estabelecidos desde a antiguidade, agora, com o advento e a popularização do romance, a forma de se entender a literatura foi modificada e novos géneros textuais foram ganhando espaço. Exemplo disso, é que, no século XX houve a atribuição de alguns géneros considerados “menores” como cartas, biografias e diários à categoria “literária”.
Um dos registos mais antigos que se tem acerca do tema deve-se a Aristóteles, que elaborou um conjunto de anotações em que busca analisar as formas da arte e da literatura do seu tempo. Para isso, o pensador elaborou a teoria de que a poesia (género literário por excelência na época) era “técnica” aliada à “mimese”, diferenciando os géneros trágico e épico do cómico e satírico e, por fim, do lírico. Segundo o filósofo, o que difere a arte literária, representada pela poesia, dos textos investigativos em prosa é a qualidade universal que a imitação permite. Ao imitar o que é diferente (épico e tragédia), o que é inferior (comédia e sátira) e o que está próximo (lírico), o artista cria a “fictio”, isto é, “ficção”, inventando histórias genéricas, porém verossímeis.
Os escritos de Aristóteles são questionados nos dias de hoje, uma vez que a literatura sofreu uma evolução sem precedentes nos últimos séculos, aceitando novos géneros e presenciando a criação de novos meios de veiculação, como a internet. Todos esses factores acabam na definição clássica de literatura e gerando novas atribuições ao longo de seu desenvolvimento e recepção.

O que é Literatura?
Não há uma definição estabelecida acerca do conceito de literatura. Ela varia de acordo com o momento histórico e com as condições de recepção do seu material (porque embora a literatura seja basicamente composta por textos literários, ainda há inúmeras discussões acerca do que seria esse “texto” e de quais seriam os seus meios de difusão). Além disso, pode-se acrescentar que a literatura é, na realidade, uma reunião de diversos aspectos estruturais, sociais e culturais dentro de uma manifestação textual. Há artistas, como o poeta norte-americano Ezra Pound, que afirmam que o poeta tem uma função social porque a sua obra e as suas palavras estão carregadas de significado. O poeta também diz que os escritores possuem uma função social definida em razão de se encontrarem na posição de escritores, de trabalhadores das palavras e, portanto, possuem responsabilidade social. Sabemos que a literatura além de reflectir a realidade vista pelos olhos dos artistas, é um veículo de disseminação de ideias e, independente de seu teor, causa determinados impactos e sensações no imaginário de seus leitores.
Segundo o teórico Jonathan Culler, a literatura é um acto de fala que contrasta com outros tipos de actos de fala. O que acontece, geralmente, é que os leitores acabam por identificar o acto de fala literário por este se encontrar num meio associado à literatura (como por exemplo: livro de poemas, secção indicada numa revista literária, biblioteca etc.), além disso, o texto literário diferencia-se dos textos não literários em razão da atenção dispensada nesse tipo de texto, isto é, não é esperado que se leia um romance ou um poema como se fosse uma manchete de jornal ou um anúncio nos classificados, ou ainda como se estivéssemos a ouvir uma notícia veiculada na rádio ou na televisão.
Podemos ir ainda mais além e pensar que o que diferencia um texto literário de um não literário é a maneira como a narrativa é construída. No romance, predomina a narrativa ficcional em forma de prosa (geralmente uma história inventada, com personagens inventados e um conflito específico que norteia as atitudes dos personagens), na poesia, versos seguindo estruturas formais ou livres (sem rima) sobre diferentes assuntos. Essas especificações com relação às formas são o que caracterizam os géneros textuais.
O que diferencia a literatura dos demais textos do “dia-a-dia” é o seu carácter ficcional. Porém, esse conceito também é questionável, uma vez que temos diversas manifestações textuais que podem ser consideradas literatura, como por exemplo, livros escritos baseados em acontecimentos reais, como é o caso do livro A sangue frio, do escritor e jornalista norte-americano Truman Capote. Esse livro ficou conhecido como pertencente a um género intitulado “jornalismo literário”, pois Capote acompanhou pessoalmente o desenrolar do caso registrou os fatos presenciados e os depoimentos das testemunhas em forma de romance. Nele, o autor se baseia em um evento não ficcional para produzir um romance no estilo jornalístico, porém, permeado de subjectividade e de literariedade.
O mesmo acontece com o livro Os Sertões, do brasileiro Euclides da Cunha. Considerado um clássico da literatura brasileira, seu relato acerca do conflito em Canudos é preciso, porém, o texto literário deve-se ao estilo narrativo de Euclides, recheado de elementos do género, e segue sendo estudado nas escolas e nas faculdades de Letras.
Outro exemplo são os documentos dos viajantes que foram ao Brasil na época do seu descobrimento. Seriam eles considerados textos literários? É pouco provável, pois, formalmente, tratam-se de textos descritivos responsáveis pelo levantamento da vida e dos costumes no território brasileiro caracterizando o que se convencionou chamar de “literatura informativa”, que não possuiria o mesmo status da literatura ficcional. Porém, é inegável que a Carta a el-Rei Dom Manuel sobre a descoberta do Brasil, da autoria de Pero Vaz de Caminha e outros documentos relativos ao descobrimento, tenham valor literário, pois trata-se de belíssimos textos, ricos não apenas em descrições, mas também na narrativa de alguns episódios ocorridos durante a expedição liderada por Pedro Álvares Cabral, no caso da narrativa de Caminha.
Há também uma forte discussão em torno das Histórias em Quadrinhos. Embora inseridas numa linguagem diferente da literária (isto é, a linguagem gráfica), a parte narrativa das histórias assemelha-se muito ao material literário em prosa e verso. Não é à toa que a adaptação de romances e contos para histórias em quadrinhos se mostrou uma actividade popular e que se tem desenvolvido bastante no final do século XX e início do XXI.

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