“O REINO DAS CASUARINAS” LIDO POR TRÊS ANJOS SUECOS

Envie este artigo por email

O Gotemburgo, onde decorre, anualmente a Feira do Livro.

Entrada da Feira no edifício Gothia Towers

Nesta época de activas ameaças de guerra nuclear e de decadência de valores humanistas que perigam a permanência do Homem no planeta Terra, é um grande alivio e uma espécie de banho renascentista privar com seres humanos que entram no nosso caminho com carinho, amizade gratuita e extremo afecto.
Aconteceu em Setembro deste ano, na Suécia, propriamente na hospitaleira cidade de Gotemburgo, onde decorre, anualmente a Feira do Livro de Gotemburgo no Centro de Exposições e Congressos da Suécia no edifício das torres Gothia, o maior acontecimento cultural do livro e da biblioteca nos países nórdicos.
De 28 de Setembro a 1 de Outubro, enquanto me dividia entre as viagens diárias no eléctrico número 5, que fazia a ligação entre Bogatan e Korsvagen., local onde se erguem as imponentes torres que albergaram a feira, tive a inolvidável oportunidade de conhecer uma senhora chamada Anne Marie (ou Ami, para os mais chegados), Peter Norrton (assim mesmo com dois erres) e rever o afecto da incansável e metódica Gunilla Winberg, tradutora e editora de O Reino das Casuarinas em sueco.
A casa editorial chama-se Panta Rei, que tem origem na filosofia pré-socrática, nomeadamente na voz de Heraclito de Éfeso e significa “tudo flui”.
Nada permanece, é verdade. Nem mesmo a experiência de vida que vivi em Gotemburgo. Mas talvez nalgum lugar da Mente Universal, haja um ecrã de Memória Infinita onde ficam gravados os acontecimentos que reúnem os anjos descidos à Terra, factos extremados de amor ao próximo.
A casa de Ami fica situada em e, como toda a cidade, está rodeada de verdes árvores a tender para as cores outonais. Fica no primeiro andar de um edifício de residências familiares. A estação do eléctrico situa-se a cerca de 200 metros. Após o lançamento do livro, a Gunilla ofereceu um exemplar ao Peter, que me fora esperar ao aeroporto de Landvetter, vestido de camisola à mwangolê, com as cores da bandeira de Angola. Este, por sua vez, emprestou-o a Ami, em casa de quem fiquei hospedado. Já lido pela tradutora, antes do lançamento na Feira de Gotemburgo, os dois novos leitores iam-me actualizando diariamente sobre cada novo capítulo lido, e as nossas conversas à noite na sala de estar de Ami se tornaram autênticas tertúlias literárias e recordações de tempos da infância e da juventude de cada um de nós.
Um dia, quando Peter Norrton tinha ido pernoitar na sua casa, a sós com Ami, esta mostra-me uma foto antiga com as imagens de um casal sereníssimo. “Olhe, José, estes são os meus falecidos pais. Nunca os ouvi discutir em toda a nossa vida.”
Esta revelação foi para mim a confirmação da reprodução mental do comportamento paternal que molda, por mimese, os filhos dentro do lar. Uma senhora tão doce como a Ami só poderia ter sido criada por pais que nunca levantaram a voz diante dela. Uma senhora tão doce que me ofereceu, na minha despedida da Suécia, uma calçadeira comprida, com cerca de 60 centímetros, para não termos de nos abaixar na hora de meter os pés dentro dos sapatos.
De Peter Norrton conheci parte da sua odisseia pelos caminhos deste mundo. Esteve casado com uma angolana, que lhe deu um filho e com quem teve inolvidáveis experiências que o levariam a vir conhecer Angola.
Uma das minhas viagens para a Feira foi feita a pé, na companhia de Peter. Enquanto atravessávamos um imenso corredor coberto pelas copas de frondosas árvores, de chão atapetado de folhas e serpenteado por um riacho que rumorejava com as nossas passadas, Peter Norrton me contou tantas histórias verídicas que não cabem nesta página.
Todas as manhãs, nos reuníamos, a Ami, eu e o Peter à volta do matabicho. Era a ocasião saudável para falarmos das nossas vidas, dos personagens dementes que fundaram o Reino das Casuarinas na Ilha de Luanda, nos anos 80, conforme narra o livro e sentirmos os nossos corações pulsarem um só sangue: o sangue humano.
Como disse o artista plástico chinês, Ai Weiwei, “Nós somos todos uma única pessoa”.

O Reino das Casuarinas, o primeiro romance na história literária de José Luís Mendonça, foi traduzido para sueco e lançado dia 28 de Setembro na Feira Internacional do Livro de Gotemburgo, a segunda maior cidade do Reino da Suécia.
Trata-se de um romance histórico, com duas estórias paralelas, a do narrador auto-diegético, Nkuku, que conta a sua experiência traumática desde o início da luta de libertação em 1961 até ao ano de 1987, enquanto desvenda a razão da fundação na Floresta da Ilha de Luanda de um reino cuja população é composta por sete doentes mentais (vulgo malucos), e governados por uma mulher, a Rainha Eutanásia.
 
FORMAÇÃO E CULTIVO
"Formação e Cultivo" (Bildung and Cultivation) foi o tema principal da Feira do Livro de Gotemburgo de 2017, inspirado pela literatura. Seja em escolas, universidades ou bibliotecas, a literatura ajuda a disseminar o conhecimento do mundo e a interpretá-lo criticamente. No campo da cultura ajuda-nos a canalizar a experiência de ser humano e é uma ferramenta para entender e navegar num mundo complexo e conflituoso – e, talvez, uma ferramenta para mudá-lo também? Cerca de 100 mil visitantes passaram pelos stands de mais de 800 expositores de todo o mundo presentes na feira que se estendeu até ao dia 1 de Outubro.


Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos