"O reino do Kongo e a sua origem meridional"

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Após a publicação da obra « As origens do Reino do Kongo », Patrício Batsikama nos propõe, aqui, um estudo, na realidade, adicional ao primeiro que tive, igualmente, o prazer de apresentar, neste lugar, meses atrás. 

Estendendo-se por 328 páginas com um complemento de uma dezena de páginas de um corajoso índice remissivo e publicado sob a chancela da Universidade editora, o livro articula-se em sete capítulos, dois anexos e uma respeitável bibliografia.

A ilustração da capa é bastante significativa. Trata-se do busto realizado pelo escultor italiano, Francisco Caporale, sob instrução do Papa Paulo V, do Embaixador acreditado no Vaticano pelo Rei do Kongo, Álvaro II, Dom António Manuel Ne Nvunda, que faleceu, no dia 6 de Janeiro de 1680, em Roma.

Corpora

Interessado a agregar, o mais possível, elementos orais e antropológicos do provável aporte do eixo meridional, fundador do conjunto federal, o autor engaja-se num exercício, paciente, de reexame, à luz dessas tradições de carácter histórico, de princípios construtores das estruturas sociais e políticas do Reino e da constante conceção edificadora do tríptico. E não se priva de plantar novas propostas de leitura da geografia política da « União ».

Para não negligenciar nenhuma pista nas corpora, o neto de Raphael aprecia, prudentemente, - pântano homofónico e homográfico obrigue ! -, as « coincidências » linguísticas atestadas no falar da velha população ! kung ou Khoi ; arrastadas, provavelmente, desde mais de 2000 anos, numa evolução de interações civilizacionais francamente desequilibradas com os migrantes, dominadores ou engolidores bantu. A apresentação desses traços justifica-se pela recolha de lendas supondo a presença de um substrato humano pré-kongo de tipo pigmeu. 

A inevitável pista ovimbundu é examinada, bastante substancialmente, nas suas similitudes de natureza toponímica ou de conceção ligada às origens e à organização das linhagens de poder; boa direção de investigação, sendo as populações dos Planaltos centrais, notoriamente, o resultado das diferentes vagas migratórias, vindas de setentrião e do oriente.

O mesmo exercício de concordâncias bantu, confirmativo, entre os Kongo e os Herero, os Nyaneka-Humbe, e acessoriamente, os Kwanyama e os Cokwe, é proposto. O autor apresenta, em seguida, o essencial das provas arqueológicas que confirmam a cristalização da especificidade kongo à volta do fim do primeiro milénio da nossa era, estabelecendo laços de parentesco com a cultura material (cerâmica, vestígios metalúrgicas etc.) com os Bantu meridionais.

A fim de avaliar o aporte do "Sul", a fundação do Kongo dia Ntotela, o autor não exclui as voláteis reconstruções míticas, contemporâneas, de génese, de base cosmogónica ou espácio-temporal.

Ligações Austrinas

Examina, finalmente, sempre, nesta linha de investigação, as ligações austrinas da formação da arquitetura monárquica instalada nos Planaltos de Pembacassi, a partir das irrefragáveis fontes históricas das primeiras anotações de autores portugueses, italianos e holandeses mas igualmente, as correspondências dos próprios soberanos do Kongo.

Esta análise é, também, feita a partir das releituras de investigadores contemporâneos.
O mérito da presente obra, que representa um estudo de grande visão, é o de ter posto em filigrana, na base de fontes orais , arqueológicas e escritas, um povoamento antekongo, de estádio visivelmente neolítico, constituído de grupos pigmeus e strandlopers, comunidades bem negróides mas não locutores de línguas bantu, como tínhamos suposto.

Essas populações serão, gradualmente, absortas, antes do início da nossa era, pelos poderosos Bantu, metalurgistas, uma franja dos quais ocupará a região do Baixo Rio, a partir da floresta equatorial, mas cujo essencial, contornará, com razão, essa temível e densa barreira vegetal. Avançarão através das linhas de florestas tropófilas e savanas orientais e austrais.

Um dos reflexos históricos desta hipótese de esquema de expansão é o posicionamento estratégico, avuncular, do Ne Mbata, chefe do Estado oriental do conjunto federativo, facto atestado nas fontes escritas e récitas kongo.

Enfim, a outra evolução indicativa e o reconhecimento pelos próprios Kongo, da presença, no seu seio, de componentes mbundu, quer dizer de assimilados.
Em suma, a presente análise confirma a nossa asserção sobre o facto de que os intensos movimentos migratórios dos Bantu terem constituído « períodos de grande dinâmica histórica e antropológica » ; e, nas origens, o país de Nimi a Lukeni não escapou a isso.

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