O Relógio do Velho Trinta de Soberano Canhanga

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Num olhar de soslaio ao “Relógio do Velho Trinta”, meus olhos de ler depararam-se com a frase “álcool só na ferida”.


O Relógio do Velho Trinta de Soberano Canhanga
Sessão de venda e assinaturas de autógrafos Fotografia: Paulino Damião

Esta frase chamou-me a atenção e convidou-me a folhear cautelosamente o texto, pois, diz Fernando Pessoa,que é:

Um prazer
Não cumprir um dever
Ter um livro para ler
E não fazer!

Sim! Este mundo é dotado de uma pseudomania, que faz do homem actual um ser aparente, para quem o ter releva o ser, o agir antecipa o pensar.
Nesta mundividência globalizante, vivemos que nem um rio que corre bem ou mal.
Portanto, “Livros são papéis pintados com tinta. A distinção entre nada e coisa nenhuma”1 . Não ler um livro sob pretexto de não ter tempo ou mesmo esta ser a actividade dos loucos literatos é pedir de Cristo desistência da vida.
Porque sem leitura não há vida.
A leitura é um instrumento de capital importância para a vida humana. A partir do momento em que a pessoa nasce, ela permite-lhe dar sentido a
todos aspectos da realidade objectiva.
No decorrer da existência humana, a leitura continua sendo essencial para que não só se possa conhecer, mas também interpretar o mundo, fazendo
leitura dos objectos, das pessoas, do ambiente, das situações e de tudo aquilo que lhe rodeia.
A partir desses factos se pode caracterizar a leitura como uma competência necessária e de extrema importância na vida de um sujeito, dentro e fora da sala de aulas, pois ela proporciona descobertas do meio circundante o qual, antes da leitura, era desconhecido pelo leitor.
Os soberanos olhos de Soberano Canhanga fizeram uma leitura pontual da realidade objectiva. Captaram do sentimento popular cenários relevantes para produzir esta obra literária, com que nos mimoseia hoje.
Se, por um lado, rende homenagem ao Jornalista da LAC Pedro de Menezes, seu colega que desistiu da vida, no vigor da sua juventude, por outro, a obra traz a desnuda Angola de olho no assunto, “visto claramente vendo”2 .
O que assistimos nos dias de hoje nos óbitos, os ricos choram pelo nariz, pois é nele que mais se limpa e não nos olhos. Pagam pessoas, as ditas carpideiras, para chorar de mil, cinco mil ou dez mil Kwanzas. Como quem diz:
chorar um ente querido é coisa de pobres.
Afinal, já temos em Angola velório chique.
Este é um exemplo claro de estarmos a viver uma conturbada fase de desordens morais, em que cada um ousa querer tudo fazer em nome da liberdade. Terá isso algum legado?
No entanto, impõe-se-me obviar que nascer pobre nunca foi, e nem será, apanágio dos males a quinhoados, nem mesmo escape para heresias dos bem-posicionados da sociedade.
O que vemos nos nossos dias: bufet para um óbito, yapa ofeka yapua akepa olombwa vyafetika okutakila omanu3…
por isso, álcool só na ferida.
Mas… “vongongo ya yehova levi vyatungamo, omanu lava va tungamo ”4, alguns vivem como querem e outros como podem.
É imperioso fazer-se ecoar os males da vida, em torta de acepipes a baçonegro feita de necessidades perenes, senão vejamos:
O homem vive sempre insatisfeito e isso é um facto permanente, procurar algo novo e mais perfeito.
O amor no qual homens e mulheres colocam a sua esperança de felicidade, por fim, se revela decepcionante para muitos. Logo, o amor se torna a indústria fornecedora de ilusões, fracassos, lágrimas, ansiedades, queixumes e desgostos.
O homem vive na procura do poder.
E quando se lhe é dado um pouco de poder, homem ou mulher revelam depressa a sua incapacidade de olhar para o ser humano subordinado como um lixo. Enfim é uma espécie de cegueira no ajustamento do desejo de viver cada vez melhor e a forma de o conquistar.
E para salgar o pão que o diabo amassou: o mal do mundo circunscrito nas inundações, vulcões, doenças incuráveis, estiagens, acidentes e até a própria morte.
Estes aspectos animaram a consciência atenta do Sujeito literário, que, numa leitura discreta da Mwangope, captou das algazarras do musseque da alma popular, traçou um roteiro, com Satula, na vida recta e curvilínea, bravo combatente, conquistador de vitórias, e hoje consumindo migalhas que nem “Lázaro em casa do rico ”5.
Igual a Satula, quantos antigos combatentes da Ngola Yetu choram as malambas da vida no walende? Quantos dele se riem e zombam? Estes são mambos da nossa banda.
O relógio do velho trinta é semelhante ao Ovolu vateka teka … vatekela ko kuyaka lomwe ondete vali6 ou mesmo olha catuta, puxa catuta… arranca catuta… são problemas…
É a luta pela sobrevivência e a contradição natural: ser proprietário de uma agência funerária e augurar que mais gente morra para as panelas em casa não baixarem de divisão… é caso para se dizer:
A glória desta vida é uma miséria ínfima.
A tristeza, nossa pena íntima;
O sorriso, uma alegria do acaso. Morre um no bairro: aleluia! O caixão vai ser comprado. Hoje há pitéu em casa. Mas sem compatriotas mortos, temos walende connosco, para relaxar as malambas da vida.
É assim na banda. E esses elementos servem de base para o escritor rabiscar com o próprio punho os cantos nos encantos e os cantos nos desencantos, tudo porque na história da nossa vida aparecem muitos profetas: uns com soluções e outros com distorções.
Mas, o tempo no demérito das circunstâncias mistura os feitos e os efeitos.
As vitórias nos campos de batalha e a fome em casa, um esforço sem recompensa pinta o quadro sombrio de Satula, que viu as iniciativas tentadoras do diabo visitar seu coração.
“Elevo os meus olhos para os montes De onde me vem o socorro?
O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra ”7.
Deixemos as vaidades Perante este cenário, denota-se no Relógio do Velho Trinta, obra que não deixa seus créditos em mãos alheias, responsabilidade, solidariedade, sinceridade, compreensão, respeito e AMOR, acima de tudo. Sim! É isso que frui no Guerrilheiro, o orgulho de ter lutado por Angola. Demonstrar solidariedade, dar o mínimo a quem precisa é um acto de nobreza. Deixemos as vaidades para o mundo. Com os nossos compatriotas repartamos o que temos. Lembremo-nos que a fartura individual é sorriso de gargalhada de boca fechada, e se isso é possível, então, seja o primeiro a tentar.
Assim se confirma a preocupação do autor atento às manifestações da alma popular no dia-a-dia da sua gente, através da arte clássica em tempos modernos, fazendo convite aos cristãos, políticos, civis e todas as forças viva da Nação Angolana, para participar do processo de preservação, resgate, promoção e transmissão da nossa identidade cultural às gerações jovens e, quiçá, às vindouras, tendo sempre presente a necessidade de se fazer alguma coisa que nos dignifique.
É o compromisso do homem consigo próprio e com o seu Deus-criador.
Caro leitor! Ciente de que há-de fazer uma boa leitura, convido-o, outrossim, à aquisição deste livro, e seja você também um partícipe activo na construção da glória e felicidade do povo Angolano, na certeza de que havemos de “ler cada vez mais para erradicar a pobreza intelectual”.
Termino como comecei com Fernando
Pessoa:
“Mais que isto
É Jesus Cristo
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca8 ”…
Boa leitura.
Graça e Paz!
Álvaro Alves

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