O ruído dos pseudónimos nas literaturas africanas de língua portuguesa

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Teoricamente, a pseudonímia, no campo da produção literária e artística, pode considerar-se uma quebra de lisura do escritor para com ele mesmo e para com o seu público.

O ruído dos pseudónimos nas literaturas africanas de língua portuguesa

Todavia, a defesa desta tese implica condenar grosseiramente nomes paradigmáticos da literatura que se faz na África de língua portuguesa, nomeadamente Uanhenga Xitu, Pepetela, Ondjaki, Osvaldo Alcântara (pseudónimo de Baltasar Lopes), Ungulani Ba Ka Kosa (nome tsonga de Francisco Esaú Cossa), Mukua-Luanda (pseudónimo de Luandino Viera), Mangachane (pseudónimo de José Craveirina), MukuaKianga (pseudónimo de António Dias Cardoso), Sô Romeu (pseudónimo de Ernesto Lara Filho e Leão Kunga (pseudónimo de Tomás Jorge), Tazuary Nkeita (de José da Costa Soares Caetano).

A questão está, por conseguinte, para além dos limites da sinceridade e da probidade, porquanto a utilização de um pseudónimo coexiste com a seguinte contradição jurídica: a lei condena qualquer identidade falsa.

Esquecendo, no entanto, a questão jurídica, podemos analisar o que lhes está subjacente, porque, em termos da natureza dos pseudónimos dos escritores acima referenciados, não deixa de ser fortemente sugestivo que, tirando o caso especial de Osvaldo Alcântara, todos eles sejam, do ponto de vista da antroponímia Ocidental, opacos, no plano semântico-cultural, comportando ecos mais ou menos expressos ou indiretos capazes de estorvar a sua leitura ajuizada.

São pseudónimos que problematizam particularmente a antroponímia portuguesa na sua dimensão genealógica, sobretudo se encarados na perspetiva lexical.

Não se trata de escolher um mau pseudónimo, embora, na história da pseudonímia, exista registo de um pseudónimo tão bem escolhido a ponto de figurar na sepultura dos seus respetivo dono, como foi o caso de Elton John, que, com esta designação, publicara noveletas policiais, entre 1954 e 19591.

Trata-se, sim, de uma pseudonímia que remete para uma onomástica tradicional africana que transgride a codificação do regime e do Poder vigente. Encarada desta forma, a pseudonímia seria, de certa forma, a narração da história da sua escolha, sendo a sua experiência a exigência de que a escrita a ela se submeta, estruturando-se em função do que ela oculta.

Uanhenga Xitu, que surpreendentemente significa, em quimbundo «matar animal»2 ,é um nome desprovido de motivação referencial, no universo codicológico da antroponímia portuguesa.

Mas não avancemos mais nesta linha de raciocínio. Recordemos, por agora, duas justificações persistentes da história do uso dos pseudónimos: pseudónimo por obrigação e por prudência conjuntural.

Concebe-se a obrigação do pseudónimo, quando pensamos em nomes banais que nada terão a ver com a carreira artística, ou quando pensamos em nomes impronunciáveis. Que memória estará associada a nomes como Mendes de Carvalho, Francisco Esaú Coça? No que diz respeito a pseudónimos por prudência, ele configura-se como um caso especial de imposição, se o que interessa ao autor é manter uma certa sobriedade na sua vida privada. Para usar uma formulação de J. Finné diria mesmo que «la prudence est la mère des pseudonymes»3.

Um pseudónimo pode todavia germinar de um desejo de revolta social que não pode ser exteriorizado por via de um patronímico autêntico. É nesta ótica que se insere Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa Dudevant, escritora talentosa, que se disfarçava com roupa masculina, fumando cachimbo, confundindo-se com homens em clubes de varões hilariantes, carregando o nome falso de George Sand4.

O caso dos pseudónimos dos nossos autores, tirando o caso de Osvaldo Alcântara, escritor cabo-verdiano, se lidos em clave de sedição civil que subjaz as suas opções, é mais complexo no modo como se dão a ler. Sou de parecer que tais pseudónimos devem ser inscritos numa dinâmica identitária de mudança e reiteração de uma assinatura que se aloca e desloca.

Com efeito, a recomposição identitária subjacente a esses pseudónimos procede de enunciados discursivos cuja leitura permite dar conta de especificidades que se infirmam em relação à situação civil imposta por um Poder de matriz europeia ocidental face à tradição africana, configurando tais escolhas experiências de vida dos seus autores, logo travessias perigosas.

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