O ruído dos pseudónimos nas literaturas africanas de língua portuguesa

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Teoricamente, a pseudonímia, no campo da produção literária e artística, pode considerar-se uma quebra de lisura do escritor para com ele mesmo e para com o seu público.

O ruído dos pseudónimos nas literaturas africanas de língua portuguesa
Na verdade, a inscrição dessas obras no universo de leitura tem a ver com a forma como assinam a autoria dos seus textos que produzem.

A assinatura autoral é apenas uma forma de inscrição nos textos que são dados a ler. A pseudonímia emerge então como forma de encontrar uma razão necessária para aquilo que o autor faz, i.e., a literatura, num determinado contexto, num mundo em que se está, mas também no mundo que se herdou, que se perdeu ou que se quer antecipar, construindo mundos-de-sentido.

Portanto, existe historicidade na pseudonímia, e, no caso específico que nos interessa, pode-se mesmo a firmar que existem nas designações como Uanhenga Xitu, Pepetela, Ondjaki, Ungulani Ba Ka Kosa um movimento de estranhamento, de distanciação, de ironia, de sarcasmo, de incerteza e de insegurança em relação ao mundo extraliterário.

Trata-se de uma questão de Poder, de um mover fronteiras, pois são pseudónimos que exprimem tudo o que é idiomático, tudo o que é costumeiro, tudo o que é quotidiano, tudo o que é prosaico5, em relação ao que é normativo na língua da escrita, isto é o português.

Tais pseudonímias podem ser encaradas, de alguma forma, como se fossem tentativas de libertação face à clausura de nomes que codificam certa civilização, e face à fixidez das pessoalidades do registo civil de matriz cultural europeia ocidental.

Mas esta formulação assertiva de âmbito geral exige que se procure explicitar as suas implicações práticas. É o que procurarei fazer na primeira parte deste trabalho; na segunda parte, examinarei com necessária concisão, o lugar hipotético do leitor, perante tais pseudónimos e os dispositivos de "ler mal" que eles poderão ocultar.

Um ponto de partida conveniente para clarificar a formulação assertiva acima aludida, relativamente aos pseudónimos usados nas literaturas africanas de língua portuguesa, pode muito bem achar-se nos argumentos estruturalistas do semioticista Roland Barthes, acerca da mensagem fotográfica. Como é sabido, Barthes engendra o ensaio La Chambre Claire, a partir da fotografia do irmão mais novo de Napoleão, que lhe calhou observar.

Do deparo com essa fotografia nasce, em Barthes, a seguinte anotação de que estava a mirar os olhos que teriam visto o Imperador. Terá sido desta ocorrência que advém o interesse de Barthes pelo «carácter cultural» da fotografia, instalando-se nele o desejo de, «a todo o custo, saber o que [a fotografia] era "em si", por que característica essencial se distinguia do conjunto de imagens» 6.

Sabe-se que o ensaio de Barthes acabaria por assumir o jogo ficcional como condutor da imagem fotográfica. Mas o que nos interessa nos argumentos que o enforma é a relação que se estabelece entre a foto e a perceção, ou seja, entre as duas conspeções que convergem necessariamente no olhar do fotógrafo, designadamente a da imagem-representação e a do mundo que essa imagem-representação transforma por vezes de tal modo que se torna irreconhecível, impondo-se, por isso mesmo, a sua restauração.

Ora esta tensão entre a firmeza de um objeto representado e a incapacidade potencial de o assegurar enforma aquela perturbação típica do olhar que é dirigida à fotografia. Note-se ainda que Barthes designara o referente da fotografia pelo deíctico «ça», que, na sua formulação, assinalaria "a visibilidade sem nome" do referente fotográfico.

A fotografia define assim o lugar de um ver mal potencial, que consiste em olhar sem estar em condições de designar o referente. Se trago a questão da não-referencialidade para aqui é porque os pseudónimos aludidos estão intimamente relacionados com ela. Com efeito, o leitor (europeu ocidental, mas também africano urbano), perante a opacidade de tais pseudónimos, vê-se confrontado com uma situação que frustra o seu desejo de os referenciar exteriormente.

Num certo sentido, o gesto de privar o leitor (ou alguns leitores) de um conteúdo representacional na preferência de pseudónimos conduz necessariamente a uma espécie de parança da parte do leitor, num jogo tautológico que oscila por questões tais como o que leio é o que se dá a ler ou o que leio estará para além do que se dá a ler?7.

É claro que estas duas questões negoceiam a posição do leitor face à obra, sendo a resposta encontrada resultado da sua experiência percetiva diante de tais pseudónimos.

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