O ruído dos pseudónimos nas literaturas africanas de língua portuguesa

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Teoricamente, a pseudonímia, no campo da produção literária e artística, pode considerar-se uma quebra de lisura do escritor para com ele mesmo e para com o seu público.

O ruído dos pseudónimos nas literaturas africanas de língua portuguesa
Trata-se todavia de uma perceção problemática, porquanto convoca o que se encontra por detrás do visível/legível. Barthes o terá a firmado a propósito de fotos facilmente legíveis: «La photographie est toujours invisible, ce n'est pas ele que l'on voit». A eficácia destes argumentos de Barthes, se aplicados ao caso dos nossos pseudónimos, ver-se-á, no entanto, aumentada à medida que nos aproximamos de Georges Didi Huberman e Maurice Marleau Ponty, que distinguem dois tempos no olhar: o visório e o visível.

Para Huberman e Ponty o observador confronta-se com esses dois regimes, quando está diante de uma imagem. O mesmo se pode dizer relação aos nossos pseudónimos: não é possível ler o pseudónimo e o nome ao mesmo tempo.

Há que distinguir neles o visório e o visível. O primeiro regime seria o visível tal como ele se dá a ler, tal como se deixa apreender pelo nosso olhar; o segundo seria o mundo objetivo, em si. A definição do visório está próxima das formulações de Maurice Marleau Ponty sobre campo percetivo elaboradas na sua Phenomémonlogie de la perception: «[...] Il y a une signification du perçu qui est sans équivalent dans l'univers de l'entendement, un milieu perceptif qui n'est pas encore le monde objectif, un être perceptif qui n'est pas encore l'être déterminé.»8. Georges Didi Huberman encontraria assim, num segunda fração temporal da perceção, uma via percetiva que já não é o mundo objetivo, uma existência percetiva que já não é um ente determinado: com efeito, entre o primeiro olhar deitado sobre a obra de arte e o «desillement» de uma observação demorada, é possível ver tecer uma equação na ordem do visual, pois duas saliências ressaltam do visível.

Mas a coordenação dos dois campos neste contexto também se dá a ler no próprio nome que está oculto: o percetível (o meu nome civil é...) e o preceptivo (não é esse o nome que convém à minha escrita) não podem ocorrer em simultâneo.

Os pseudónimos desencadeiam portanto processos de construção poética no interior dos quais a descoberta da voz autoral é sempre a consciência de outras vozes transgressoras. O pseudónimo é a confissão da historicidade do discurso. O contexto de um pseudónimo é a obra em si mesma.

Claro que antes do pseudónimo existe o nome. Mas tanto antes como depois, os dois campos paralelos e irredutíveis um ao outro entram em concurso na mente e no olhar do leitor. Sabe-se que, na fenomenologia da perceção, o percetivo (ou o visório) não é o mesmo que o percetível (o visível); este necessita sempre de uma confirmação existencial objetiva.

O visório, uma vez que emana do visível, torna-se incerto. Não se trata de escolher entre um e outro, pois ambos se apresentam com a mesma valência. No campo percetível «what you see is what you see», o objeto "pseudónimo"  é autónomo”, isolado, longe de qualquer abordagem que vise transformá-lo em objeto significante.

No campo percetivo «what you see Is where you want to be». Trata-se, por uma espécie de ductilidade do olhar que se ampara de objetos que lhes é dado ver num determinado espaço de representação, um todo movediço e incerto, instável na sua essência.

Mas se os dois campos competem, interessa que  em emirjam contemporaneamente, cabendo ao leitor a responsabilidade de relevar um em detrimento do outro. Ou seja, compete ao leitor negociar o lugar de leitura, lugar precário, perante o objeto que se dá a ler.

Perante a dicotomia “pseudónimo“/“ nome civil”, o olhar que lê hesita Ema como dar o objeto que apreende, perplexidade que oscila entre a realidade objetiva do objeto “pseudónimo “e o que este será sem a sua realidade objetiva.

No que diz respeito ao leitor potencial de obras com essa assinatura (seja ele quem for), é forçoso admitir, pela abrangência dos pseudónimos, que jamais possuirá conhecimento enciclopédico que permita a sua descodificação descontraída.

A ser assim, então a sua estética só pode estar ligada a uma certa ética que é típica do ler mal. Na verdade, os argumentos já defendidos denotam a incompetência do leitor face ao visível (o pseudónimo), sendo esta incompetência a que funda a sua relação com o que representa. Na verdade, o pseudónimo tem o pendor de alocar quem lê, minando-o de dúvidas quanto ao que lê e quanto a questão de situar o que lê. O fenómeno que começara por ser de índoleóptico, passa depois para o cognitivo.

O alusivo é submetido a uma hesitação que, no caso particular do pseudónimo, não encontra resposta definitiva. Donde a demanda estética própria do leitor observador, que consiste em apreender as hesitações como se de uma vertigem se tratasse, a correr o risco da incerteza, da contradição como aventura.

1. Cf.Finné,DesMystiRicationsLittéraires, p.280.
2. “Wanyanha Nchito», de acordo com a pronúnciaemquimbundo.
3. Cf. Des MystiRications Littéraires, op. cit., p. 275
4. Lucile Dupin não estava isolada. Na época vitoriana, coma suamoral étriquée, sexista, a sociedade estratiRicada ne convait pás les intellectuelles d’un regard complacente. Por conseguinte, os que se arriscama uma carreira literária dissimulamse por trás de iniciais anónimos ou efabulamnomes ou se efabulamde nomes claramentemasculinos. Assim, Charlote Riddel publicariaMaison inhabitée (1875) como nome de J.H.Riddell,Violet Paget tramutase emVernon Lee,Marianne Evans,George Eliot. Cf. Ibidem, p. 276.
5. Socorro-me das formulações dePaul de Man, embora numquadro intelectual diferente, comoutro vocabulário e outras consequências, o deEstudos deTradução.Vejase Resistance to Theory,Minneapolis,University of Minnesota Press, 1986, p. 97.
6. Cf.RolandBarthes,ACâmaraClara,Lisboa, ed. 70, 1981, pp. 15-16. Tradução de Manuela Torres. Título original La Chambre Claire (Note sur la photographie), Le Seuil,1980.
7. Faço aqui paráfrase da tautologia de Judd, acerca da obra arte plástica, «what you see is what you see». Cf. Donald. Judd, CompleteWritings, 1975-1986, Van Abbemuseum, Eindhoven, 1986
8. MauriceMerleau-Ponty,Phenomenologiedelaperception, Gallimard,Paris,1945.

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