O silêncio e a eclosão da literatura em Angola

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Por altura da Conferência Literária "Itália Encontra Pepetela" Mariagrazia Russo fala da literatura angolana em Itália.

Mariagrazia Russo Fotografia: Fotos de Federica Polselli

Qual é o contexto da literatura angolana em Itália?

Mariagrazia Russo - Em todas as universidades italianas nós temos cátedras de disciplinas de português, subdivididas em Língua e Literatura Portuguesa e Língua e Tradução Portuguesa. E dentro destas disciplinas nós dedicamos um espaço à literatura africana de expressão portuguesa. Claro que dentro destas literaturas a angolana tem espaço de destaque, porque é uma literatura extremamente rica e que teve como percursor um poeta. E Itália, em particular, está muito ligada a Agostinho Neto. Porque uma nossa patriota, Joyce Lussu, tinha entrado em contacto com Agostinho Neto. Joyce Lussu foi a primeira a traduzir as obras das quais começamos a ter contacto com a literatura angolana. Traduziu uma antologia de escritores angolanos que tinha os textos de Agostinho Neto, embora ela ainda não o tivesse conhecido, isso a partir de 1961.

Depois acompanhámos a literatura angolana em toda a fase colonial. E os italianos, como devem saber, estiveram sempre ao lado das independências, quando Portugal era o único país europeu que ainda tinha ficado no anacronismo europeu, uma coisa que chocava com o conceito de independência que imperava na europa.

O silêncio e a eclosão

Mariagrazia Russo - Depois das independências acontece uma coisa estranha: Itália quase esqueceu-se do fenómeno literário angolano, como se os angolanos não tivessem mais nada por dizer do que aquele grito de liberdade. Sente-se um grande silêncio da literatura, que só veio novamente a fazer-se viva com a eclosão do fenómeno Pepetela, aí por volta dos finais dos anos oitenta. Embora já antes se tenha traduzido Castro Soromenho, Pepetela foi de facto o fenómeno literário de grande vulto.

Traduções:
Em 89 "Mayombe"
Em 96 "A Parábola do Cágado Velho"
Em 99 uma antologia de contos onde incluía "As Cinco vidas de Teresa", conto da autoria de Pepetela.
Em 2006 "Jaime Bunda, Agente Secreto".
Em 2009 "A Geração da Utopia"
Em 2010 "O Desejo de Kianda"
Em 2011 "A Montanha da Água lilás"

Cerca de trinta autores angolanos são conhecidos em Itália.
Mariagrazia Russo - Só depois de Pepetela é que começaram a surgir as outras traduções, em que destacaram-se nomes como de José Luandino Vieira e Agualusa.

Entretanto, Itália nos dias de hoje conhece cerca de trinta e três autores angolanos, isso quer dizer que foram traduzidos. Os autores são Fernando Costa Andrade (Ndunduma), Mário de Andrade, Arlindo Barbeitos, António Cardoso, Boaventura Cardoso, Ruy Duarte de Carvalho, Tomás Vieira Cruz, Viriato da Cruz, Maria Dedaskálos, Carlos Everdosa, Maurício Gomes, António Jacinto, Inácio Gonçalves, Tomas George, Alda Lara, Agostinho Neto, Manuel Lima, João Melo, Mário António Fernandes de Oliveira, Ondjaki, Pacavira, Manuel Rui, Arnaldo Santos, Aires de Almeida Santos, Casto Soromenho, Ana Paula Tavares, Geraldo Bessa Victor.
De alguns temos apenas fragmentos de obras, em muitos casos um poema apenas. Mas há outros que não, como o caso de Agualusa com dez romances traduzidos. Temos níveis variados de aproximação à cultura angolana.

Os novos rebentos...

Mariagrazia Russo - Temos alguma produção dos novos ventos que este país vai tomando e das estéticas mais preocupadas com o fenómeno literário intrínseco. São as universidades, ou seja, são os estudantes e professores universitários que estão a acompanhar e interessados em traduzir obras, isso também para que o público perceba que existe uma áfrica que produz.

A saturação da inspiração na Europa

Mariagrazia Russo - As veias de inspiração europeias estão quase a esgotar. Portanto, há uma grande crise da capacidade criativa. Há uma saturação. E para tal efeito vão buscando outros países, como aconteceu com o caso da América do Sul, nomeadamente Brasil, Argentina, Uruguai e etc. Pelo contrário, o fenómeno da literatura africana contemporânea agora também vai saltando à vista aos países europeus. Embora haja já uma dose de arte pela arte, comungam também outros conflitos sociais trazidos em ironia e que interessam à investigação europeia.

Convénios com universidades angolanas

Mariagrazia Russo - Nós, Universidade de Vitergo, temos um convénio com a Universidade Católica de Angola há muitos anos. Outros professores dizem que têm com a Universidade Agostinho Neto, feito que nós já tentámos. Para nós, fica a impressão de que são as universidades aqui que não querem manter relações com a Europa.

Claro que a alternativa que sobra são as universidades privadas, embora tenhamos traçado iniciar com as universidades públicas. Porque o grande problema é que os investigadores só podem vir cá em representação da universidade se tiverem convénios com universidades de cá.

Eu acho que cada um deveria ficar com a sua própria riqueza cultural, porque a diversidade é a única coisa que realmente une. A meu ver, a diversidade é a verdadeira união. Agora, é preciso haver estímulos de reflexão e interesses comuns, porque também o homem tem os mesmos sentimentos e quer denunciar violências.

O pós-modernismo

Mariagrazia Russo - Talvez. O fenómeno das sociedades contemporâneas que procura fragmentar o eu para encontrar a unidade do eu. Quando uma pessoa se dá conta que tem uma fragmentação interior e exterior então se dá conta que é preciso uma unicidade.



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