"O Último Segredo" revelado em Berlim

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Romance de Tazuary Nkeita

Romance deTazuaryNkeita

Para mim, é um grande prazer e uma honra poder apresentar nesta sala do Instituto das Ciências Asiáticas e Africanas da Universidade Humboldt, em Berlim, o livro O último segredo de Tazuary Nkeita.

Estive também presente quando Nkeita celebrava a sua aceitação como membro da União dos Escritores Angolanos, no dia 25 de Novembro de 2011, com este mesmo livro, um evento ao qual assistia um público muito numeroso, entre os quais alguns dos escritores mais ilustres de Angola.

A mesa de apresentação incluía ­ além de Nkeita ­ também Carmo Neto, o secretário geral da UEA, Virgílio Coelho, o conhecido antropólogo e diretor da editora Kilombelombe, e Álvaro Macieira, um autor e artista cujos quadros embelezam as paredes do auditório da UEA.

Em O último segredo, de acordo com José Luís Mendonça, relata-se a saga de uma família angolana. Já desde a primeira página ­ como é lógico pergunta-se pelo significado do "último segredo" porque o título e as duas crianças sussurrando na capa sobre coisas privadas incitam a esta curiosidade.

O autor afirma que as suas 40 crónicas, divididas em 12 capítulos, "transmitem a sensação de possuirmos uma chave para acesso a planos, armadilhas e intrigas secretas" (11). Desta forma, o leitor converte-se num detetive fazendo pesquisas para poder resolver seu caso criminal.

Mas crimes há poucos neste livro dum autor que, na sua vida civil, chama-se José Caetano, um jornalista que viajou pelo país inteiro, em Angola, e também já atravessou países de África. Estas experiências são notórias no livro porque uma das duas personagens principais, Tuluca Dibaia, quase nunca está em casa.

Deve representar a sua empresa, o Grupo Dibaia & Associados, em muitos lugares no interior e no estrangeiro, enquanto a sua mulher F. F. Yianda cuida dos seus filhos, em Luanda. Ela é uma pessoa inteligente e diplomata, em contraste com marido que tem um temperamento mais autoritário.

O casal constitui o fio condutor das crónicas originalmente escritas individual e isoladamente, para publicação em jornais de Angola. A personagem de Tuluca Dibaia caracteriza-se por ter tomado três decisões importantes na sua vida.

Em primeiro lugar figura a sua entrada para uma Academia Militar de elite, na qual fazia uma carreira extremamente exitosa como engenheiro de telecomunicações, até aos seus 37 anos. Por essa altura, decidiu mudar o rumo da sua vida ao casar-se com Yianda e fundar um império financeiro como presidente e diretor geral do Grupo Dibaia & Associados.

O casal tem quatro crianças: Luno Ochindume Dibaia "Bebé", o primogénito, as meninas Isselente e Júlia, e o mais pequeno Kaswekele, "Kaká".

A terceira e decisiva mudança no seu estilo da vida é quando o ilho maior, Bebé, foi suspenso da escola e, ademais, estava iminente uma ruína financeira devido às frequentes viagens e despesas do diretor-geral.

Observando os jovens na rua e conversando com eles, decide dedicar-se mais aos seus filhos e à sua mulher, assumindo a sua responsabilidade como chefe de família.

Com esta atitude, segue dirigindo a empresa, mas agora delegando tarefas a pessoas mais jovens. Na cidade, a família converte-se na presa local do jornal "Poderudos da S-12", personificados no Tío Jipata e na Tia Fefa. Um dia, Yianda recebe um convite dos Estados Unidos para assistir à boda do seu sobrinho, ator em Broadway com muitos amigos em Hollywood.

Agora é ela quem começa a viajar, a Nova Iorque, motivo pelo qual decide aprender inglês. Essa decisão coincide com um encontro feliz, mas meramente ocasional, com a professora Joanna Woods de Atlanta, no Supermercado mais chique de Luanda .

Este encontro estabelece o contacto com a outra margem do Oceano Atlântico. Joanna esta investigando as suas raízes ancestrais em Angola e descobre que a "famosa Rua S-12 e o Bairro dos Antigos Escravos", eram símbolos e referências da rota de escravos. O "S" indicava secretes and slaves, segredos e escravos, e o "12", o número secreto que estava a investigar.

A partir deste encontro começa outra narrativa em O último segredo. Nkeita apresenta as suas crónicas fazendo jogos com "segredos", tal como com as Palavras no Masculino e no Feminino em Português e noutras Línguas africanas, incluindo conversas com limpadores dos carros, a história da escravatura nos Estados Unidos e a história do bairro e da casa da família Dibaia.

Ao longo destas histórias fragmentadas percebe-se cada vez com mais clareza as raízes de Dibaia como habitante do Bairro dos Antigos Escravos, anteriormente parte de um getto e hoje batizado como o Grande Jango.

Dibaia revela que a origem da sua família encontra-se precisamente nesta linha da descendência.As associações deste romance são baseadas numa história anticolonialista, como as obras importantes do autor Óscar Ribas, e pessoas como António de Assis Júnior ou Agostinho Neto. Nkeita argumenta que Os miseráveis de Victor Hugo também se encontram em Luanda.

Ao esclarecer esta relação com a história familiar, Tuluca mostra à Yianda os seus arquivos secretos guardados numa caixa velha. Contêm diários, papéis, documentos, fotos e jornais que resultam constituir o fundo inspirador das crónicas apresentadas neste livro.

Documentam o encontro inolvidável e, depois, a morte de Alda Espírito Santo, a poeta nacional de São Tomé e Príncipe, uma pessoa que tem muita importância na «vida» de Tuluca e Yianda.

Estas crónicas também se concentram nos eventos do quotidiano urbano nas ruas desta Cidade da Kianda, o outro nome de Luanda. É importante deter-se no papel do nome Kianda. Um dia F. F. Yianda "despertou com a sensação de ouvir histórias de sereias com o seu nome" (159).

Estas histórias de sereias com o seu nome - Yianda é Kianda - desempenham um papel particular. Kianda é um espírito da água e do oceano, um símbolo em imagem de sereia, e igualmente uma marca de identificação com Luanda, onde há sopas, um «kindergarten» ou uma rádio emissora com o nome de Kianda. Como a crítica brasileira Tania Macêdo formula no seu estudo Luanda, cidade e literatura (2008), Kianda é "a moradora mais ilustre" da Grande Cidade.

Virgílio Coelho, o conhecido antropólogo e editor, fez pesquisas sobre a sua presença na tradição oral em Kimbundu da região descobrindo as dissemelhanças entra a Kyanda e a sereia e mostrando que a primeira, na mitologia grega, é sempre representada com metade do corpo sob a forma de peixe ou de ave, e é um ser maléfico, pois usa a sedução de seu canto para naufragar embarcações.

A kyanda na mitologia Kimbundu, em contraste, apresenta características bem diversas; é um ser benéfico que alerta as pessoas para os perigos vindouros. Além disso, kyanda manifesta-se sob a forma de ondulações nas águas do mar, as chamadas calemas, ou ainda sob a forma de forte luminosidade. Ela não canta como a sereia, só fala, podendo entrar em contacto com as pessoas.

Yianda, Kianda, em O ultimo segredo, com certeza parece ser a Kianda Kimbundu, uma mulher que sabe dominar as estratégias da aparência pública e privada, simbolizadas pelos diversos espelhos na sua casa, nos quais ela se observa permanentemente a si mesma. Mas Kianda não constitui somente a fortuna verdadeira de Tuluca: a sua pessoa possui um significado mais profundo. Kianda é uma pessoa, alusão e metáfora omnipresente na literatura publicada pelos membros da União dos Escritores Angolanos, nas últimas décadas.

Não somente Pepetela, mas outros autores também como José Luís Mendonça, para somente mencionar alguns, usam a sua presença. Kianda é a personificação individual com Luanda, a capital de Angola, no "sotaque" angolense o eco clima da língua portuguesa do pais.

Se nos orientarmos pelos quadros do pintor Álvaro Meceia que se encontram junto à sala de conferências da UEA, Kianda colga ao lado de muxima, coração em Kimbundu. Ela constitui também o conteúdo do último segredo, no qual se descreve o primeiro encontro de Tuluca com Yianda.

Mais, como Tazuary Nkeita repete muitas vezes no seu romance, os segredos são relativos, assim como a relação profunda deste casal se manifesta ser a base das suas crónicas. É uma relação de solidariedade, de apoio mútuo, de espírito de preocupação para a comunidade, da construção dum caminho sólido na vida, de dar oportunidade aos jovens.

Possivelmente este elemento inspira igualmente outros autores a expressar o esforço de construir uma cultura urbana típica no atual momento da sua história. Na língua científica do Colégio de Humanidades re:work da Universidade Humboldt, este esforço significaria uma experimentação permanente com seus ciclos de vida e suas oportunidades de trabalho numa perspetiva global, da qual os luandenses fazem parte.

Dentro desta mesma perspetiva, percebe-se que a história da África também se encontra fora do continente africano ­ Joanna Woods tem o apelido de Dibaia, madeira, em Kimbundu. É este aspeto que caracteriza a obra de Nkeita como participante desta nova tendência literária, para a qual encontro a caracterização do conceito da "modernidade a longo prazo".

Este conceito supõe que os africanos foram parte da globalização na moderna história inicial a partir dos seus inícios e que a consciência e a autoestima deste facto de participar neste processo se demostra de maneira crescente na sua literatura. Desta forma, a obra de Tazuary Nkeita testemunha a sua força e o seu posicionamento na cultura angolana e termino desejando que este espírito também seja reconhecido pelos editores de livros na Alemanha.

(*) Universidade de Humboldt, Berlim, Alemanha, 30 de Junho de 2012

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