Os caminhos por que anda o livro em Angola

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Intervenientes no mercado lamentam concorrência desleal.

O jovem, que aparentava ter 20 anos, a transpirar, apesar do clima frio que por estes dias se faz sentir em Luanda, entrou na Livraria Lello e rapidamente dirigiu-se ao caixa.

Perguntou por um livro e, ante a resposta negativa, sem sequer olhar para os lados, saiu com a mesma rapidez com que entrara.

"É quase sempre assim", disse à reportagem do Jornal Cultura José Magalhães, responsável da Livraria Lello, a mais antiga da cidade de Luanda. "Os estudantes vêm para aqui já direcionados para um determinado livro recomendado pelo professor.

Comprando ou não, vão-se embora imediatamente. Não se preocupam sequer em dar uma voltinha pelas estantes".
Bibliófilo, ou não seria livreiro, José Magalhães tem particular apreço pelos clientes que, cumprindo um velho ritual, param diante das estantes, tocam nos livros, folheiam-nos e percorrem o olhar vagarosamente sobre a capa, a contracapa, a página de rosto, as orelhas e o índice."Esses geralmente são pessoas adultas, dos 35 anos para cima", refere.

Mas claro que, exercendo uma atividade comercial, interessa ao livreiro que os livros, mais do que apreciados nas estantes, sejam comprados. Nesse capítulo, segundo José Magalhães, o panorama não é dos melhores. "Há muita concorrência. Surgiram mais livrarias e, o pior, muitos livros são vendidos no mercado informal. A concorrência é tão agressiva e desleal que os ambulantes fazem as vendas mesmo à porta da livraria".

Além dos manuais escolares os ambulantes vendem sobretudo livros técnicos e científicos, com maior predominância para os da área do Direito. Comparativamente, eles chegam a vender mais barato do que nas livrarias.
José Magalhães não consegue "digerir" tal situação. "Eu pago impostos, salários e outros encargos, logo, essa concorrência para além de desleal é injusta".

Quem fornece os livros aos vendedores ambulantes? O Jornal Cultura procurou saber diretamente dos jovens vendedores mas estes protegem ciosamente as suas fontes. Jacques dos Santos, da Editora Chá de Caxinde, acha que "há muito roubo".

"Também já fomos vítimas e os nossos livros chegaram a ser vendidos nas ruas. Tem de ser analisado, igualmente, o papel das gráficas. Elas têm as matrizes e ficam com os suportes informáticos durante muito tempo", sublinhou.

Pudemos apurar que alguns editores e autores/editores canalizam parte das suas edições para o mercado informal. A intenção é, livres da garantia de 30 por cento de margem de lucro para os livreiros, venderem os livros mais barato e rapidamente.
Elisabeth Prata, responsável da Livraria Chá de Caxinde, lança um apelo às autoridades: "tem de haver uma forma de se tirar a venda de livros das ruas".

José Magalhães partilha da mesma ideia: "em nenhuma parte do mundo o livro é vendido nas ruas como em Luanda. Estamos a vandalizar a literatura. Pedimos ao Governo Provincial que acabe com a venda informal do livro. Às pessoas em geral pedimos que venham às livrarias para tomar contacto direto com o livro".

Aqui há, entretanto, quem coloque reticências relacionadas com aspetos históricos, sociológicos e culturais. Parece haver uma perceção enraizada de que as livrarias são espaços demasiado fechados, elitistas, para gente de nível cultural muito elevado e/ou abastada.

O secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA), Carmo Neto, imputa à comunicação social e também aos editores e livreiros a persistência dessa perceção, que para muitos resulta mesmo em tabu. "A falta de diálogo e de uma apresentação regular por parte da comunicação social tem contribuído bastante para que muitos pensem que a livraria é lugar de rico e de gente fina. É preciso matar este preconceito".

Carmo Neto defende que a comunicação social tem de fazer com que as apresentações de livros sejam muito mais públicas. "E isto só será possível caso haja uma comunicação social muito mais engajada para com os eventos culturais".

Às editoras e livreiros o secretário-geral da UEA aconselha que se abram mais aos meios de comunicação social "para que estes sirvam de verdadeiras pontes entre o livro e o leitor e suscitem hábitos de leitura".

O cenário das vendas

Um dos principais indícios para se averiguar da alta ou não dos hábitos de leitura é a venda dos livros. Nesse aspeto, os sinais que vêm das livrarias não são nada positivos. Tudo leva a crer que o negócio do livro ainda é bastante precário, do ponto de vista da sustentabilidade.

O responsável da Lello afirmou à nossa reportagem que "há três anos que a venda de livros de autores angolanos baixou muito, os de estrangeiros também, apesar de não ser na mesma proporção".

As causas desse abaixamento seriam, segundo o nosso interlocutor, os preços altos, o fraco poder financeiro dos potenciais leitores e a escassa publicidade feita aos livros e autores.

Na livraria Chá de Caxinde a responsável, Elisabeth Prata, referiu que nos primeiros meses deste ano chegavam a vender 100 livros/dia. "Nos últimos tempos as vendas baixaram para 3 a 4 livros/dia", disse.

Numa curiosa evolução, o mercado livreiro, para além da proliferação do segmento informal, vai ao encontro dos potenciais clientes fora dos espaços tradicionais das livrarias. Isto porque, aparentemente, o potencial leitor, maioritariamente jovem, seja por razões conjunturais ou falta de hábito, tem dificuldade em ir à livraria. Assim, nos últimos tempos, as feiras do livro, cada vez mais frequentes, e as grandes superfícies comerciais, têm vindo a transformar-se nos locais privilegiados de "escoamento" dos livros.

"A nossa estratégia é valorizar o livro (...) com preços mais baixos, contribuindo desta forma para o aumento do conhecimento da população", garantiu a este jornal Isabel Capacho, diretora de marketing e comunicação da rede de hipermercados Kero. Na loja da cidade do Kilamba existe um espaço considerável inteiramente dedicado ao livro. "As vendas de livros representam um valor crescente dentro do conjunto das vendas do Kero, porque cada vez mais existe um crescimento dos hábitos de leitura", disse Isabel Capacho, numa revelação surpreendente. Acrescentou que a instituição comercial inscreveu na sua programação anual a realização de uma feira do livro e sessões de autógrafo como "um meio de aproximação dos autores aos clientes".

A odisseia das editoras

Do ponto de vista dos editores o mercado livreiro ainda não oferece garantias de plena sustentação. "Tal como para os autores, ainda não há condições, no país, para os editores viverem do negócio do livro", assegura Arlindo Isabel, da Mayamba Editora.

"O mercado é pequeno e a rotação dos stocks é muito baixa. Se colocarmos numa balança os encargos fixos, a saber, as rendas do imóvel, os consumíveis, os salários dos funcionários, e outros, veremos que não há condições para se viver do negócio da edição do livro", reforça.

O mercado livreiro é pequeno porque está quase inteiramente confinado a Luanda e aos centros urbanos de Benguela, Lubango e Huambo. A expansão das vendas à totalidade das províncias representaria, certamente, um aumento significativo nas vendas.

Jacques dos Santos rebate esse ponto de vista. "É um falso problema. Já fiz a experiência de me introduzir no interior do país mas as vendas foram irrisórias. É um drama que estamos a viver. O angolano lê pouco, não tem apetência pelo livro. Há um núcleo muito pequeno de leitores em Angola".

Arlindo Isabel explica o baixo nível de literacia no país pelo facto de muitas pessoas não terem no português a sua língua materna. A esta razão de ordem cultural acrescenta as de natureza económica: "a parte da população que está interessada em ler, seja por preocupações académicas ou lúdicas, nomeadamente os adolescentes e jovens, é dependente dos pais. E sabemos como são numerosas as nossas famílias. Um chefe de família, mesmo com um salário razoável, se tiver um agregado de seis a oito pessoas, tem de fazer contas à vida para comprar um livro por mês, incluindo os manuais escolares".

António Fonseca, director do Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INIC), afeto ao Ministério da Cultura, reconhece que "temos um défice de livros e leitores e, de algum modo, também de criadores. A sociedade deve lançar um olhar sobre aquilo que é o livro e a necessidade da leitura".

Do lado da criação literária, segundo Arlindo Isabel, está tudo bem. "Há muita gente a escrever, de tal modo que as poucas editoras existentes não estão em condições de atender à demanda dos autores".

A criação literária é tanta que as editoras vêem-se obrigadas a rejeitar muitos originais, dando preferência aos autores que se fazem acompanhar de um patrocínio. "Hoje só muito raramente é que eu produzo um livro sem que esteja pago por uma empresa interessada em ter nele a sua marca ou por um mecenas que o autor consiga atrair. Isso é o que nos dá alguma sustentabilidade", diz Jacques dos Santos.

Ainda a questão dos leitores

O argumento de que os altos preços são impeditivos de um acesso mais amplo ao livro, segundo Jacques dos Santos, não faz sentido. "Já não colhe a ideia de que os jovens não têm dinheiro para comprar livros.

Como não têm dinheiro se são os jovens que esgotam as edições de milhares de discos, sobretudo de kuduro? Se eles têm dinheiro para comprar cerveja e ir a discotecas... Não é por aí, a questão está mesmo na falta de hábitos de leitura".
O que fazer então para elevar os níveis de literacia e, consequentemente, a venda de livros?

António Fonseca lembra, com evidente nostalgia, o tempo em que o cenário era completamente diferente. "Perdemos um público leitor que já tivemos na década de 1980.

Chegámos a fazer edições de 10 mil exemplares de livros de poesia que se esgotavam rapidamente. Havia uma prática de compra de livros nas escolas, unidades militares e igrejas. Era uma divisa que se reproduziu e esteve presente durante muito tempo".

Tudo isso mudou no dealbar dos anos 1990, quando, continuando a citar António Fonseca, "mudou o sistema económico e alteraram-se as condições do mercado.

Isso refletiu-se na ausência de redes de distribuição e, em algum momento, até de livrarias, quando em todo país chegámos a ter apenas uma ou duas livrarias".

Jacques dos Santos é da mesma opinião e sublinha: "é preciso voltar ao tempo em que as tiragens eram de 10 mil exemplares e os livros `voavam' das livrarias".

Por que os livros são caros?

Existe o consenso de que os livros, atualmente, são caros, face ao rendimento da generalidade das pessoas. Mas um bom leitor, daqueles que se movem com paciência pelas livrarias, centros comerciais, alfarrabistas e feiras, sabe que há livros para quase todos os bolsos.

A Chá de Caxinde edita a coleção Abelha, composta por livrinhos de contos, ao preço, cada um, de 200 kwanzas. Na última edição do Jardim do Livro Infantil o Instituto Nacional das Indústrias Culturais pôs a venda mais de uma dezena de livros da coleção Pió Pió, que reúne contos dos autores mais consagrados da literatura infantil angolana.

Cada livro custa 100 kwanzas. No catálogo de edições da União dos Escritores Angolanos é possível encontrar títulos a pouco mais de 500 kwanzas. São livros que podem muito bem ser enquadrados no segmento de publicações para criação do hábito de leitura.

Os preços sobem exponencialmente e de modo insustentável para a maioria dos leitores quando se trata de livros técnicos e científicos. António Fonseca, diretor do INIC, economista de formação, explica a alta dos preços pelos efeitos decorrentes da "ausência de economia de escala".

"Cada editor edita em pequenas quantidades porque não tem capacidade de distribuição, logo, os custos fixos são suportados por uma quantidade pequena. Os livreiros importam igualmente em pequenas quantidades, apenas para si", elucida. Acrescenta que "mais do que os encargos aduaneiros pesam sobremaneira os custos do desembaraço aduaneiro, que são os que se prendem com os despachantes oficiais e despesas colaterais.

Isso tem a ver não só com o livro importado mas também com a matéria-prima importada para fabricação do livro".
António Fonseca reconhece que se trata de uma situação difícil e dá a conhecer que, fruto de muita negociação com as Alfândegas, "a nova pauta aduaneira, em princípio, quase não terá encargos em relação à importação de livros".

É uma boa notícia. Mas há que ter em conta que em Angola os preços de grande parte dos produtos, incluindo o livro, fogem muitas vezes dos pressupostos da racionalidade económica e ficam à deriva da especulação e da ganância pelo lucro rápido e fácil.

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