Os Congolenses

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O passeio à zona dos Congolenses tinha o duplo objectivo de reviver o alvoroço daquele mercado e revisitar o Cine Ngola.

Os Congolenses
Antigo Ngola Cine, junto ao mercado dos Congolenses Fotografia: Paulino Damião

Natalício constata que o Mercado dos Congolenses, em meritório estado de conservação, se expandiu para um típico centro comercial africano, a céu aberto. No espaço anexo ao edifício, em bancas tradicionais ou improvisadas, é vendida uma variedade de produtos para o lar, desporto, construção civil, automóveis, áudio, lazer, vídeo, etc. Além dos costumeiros produtos de horticultura, peixaria, padaria, mercearia e de talho, a nave central disponibiliza uma castiça zona de restauração e bancas para a venda de componentes de informática. Na entrada principal, os artigos de ourivesaria sobressaem dos restantes.
A passeata prossegue, agora pelas ruas adjacentes ao mercado. Dum lado e doutro dos passeios, vendedores, sediados ou ambulantes, exibem mercadoria e alimentos diversificados: caixas de carne, denominadas “fresco”, acabadas de comprar nos armazéns: «Vem, paizinho, tem aqui carne de peito alto!» Uma senhora, com a criança às costas, agacha-se e amontoa o feijão “espera-cunhado” na bacia. Adiante, uma tísica mulher chama a atenção dos passantes para as sandes de isca, cujos nacos borrifa com ketchup. Ao reparar que Natalício espreita para o conteúdo do tacho, interpela-o: «Gosta?» Um jovem roboteiro transporta caixas donde cai um frango, para o chão. Mais à frente, uma cliente discute com a vendedeira, em kimbundu, o preço dos quiabos; outra mulher passa apregoando a água fresca que vende em sacos de plástico transparente, transportados numa bacia trazida à cabeça sobre uma rodilha.
À entrada dos armazéns de venda a grosso, dois moços interceptam-no: um deles impingindo as listas e preçários do peixe e da carne vendidos na correnteza de armazéns de frescos, na esperança de alugarem a sua força braçal. O mais audaz, disputando o passante, reclama energicamente: «Deixa primeiro o pai chegar ao armazém!» Colados aos muros dos armazéns de frescos, vendedoras utilizam parte da carne retalhada em pinchos que grelham mesmo ali, em toscos fogareiros.
O passeante observa, então, uma vendeira transportando à cabeça uma bacia com torresmos, uma caneca com molho, outra caneca-medida e palitos; outra apregoando: «Mata carraça, mata piolho, seca impinge!», referindo-se aos pequenos frascos de carracida que carrega numa pequena bacia esverdeada; uma senhora, com uma idade já avançada, transporta uma panelona de comida, num cangulo, que vai vendendo aos transeuntes.
À porta do WC, pergunta, ao ver o idoso funcionário com algumas notas na mão:
- Tio, paga-se alguma coisa para nos servirmos da casa de banho?
- Pra uriná, o pai paga 30 kwanzas; mas si fó pra fazé maiores é 50 kwanzas.
- Não entendi, tio. O que é isso de “fazer maiores?”
O ancião, não contando com a interrogação, mostra-se atrapalhado, escolhendo, mental e cuidadosamente, as palavras para a imprevista explicação. Natalício mantém-se, especado, observando-o a contorcer-se no, também, velho banco. Finalmente, o guarda levanta-se e faz o jeito de baixar as calças!
- Tio, vou entrar. – Diz Natalício, entregando uma nota de 100 kwanzas.
No entanto, as condições encontradas lá dentro fazem-no desistir do propósito por que entrara.
À saída:
- Mais-velho, só urinei.
- Toma os teus 70 kwanzas, pai. – Estica a nota, o velho responsável.
- Deixe estar, tio; não é preciso. – Responde o passante, observando o letreiro onde também está escrito: «Crianças, 20 kwanzas.»
Vindos dos lados de Viana, os candongueiros vão encostando à berma do passeio, largando e carregando passageiros, bradando os seus destinos: «Zamba 2!»; «Éroporto!»; «Calemba!»; «Rocha!»; «Padaria!», etc. Daí a instantes, chega um táxi mini-bus e, dentre outros passageiros, saem duas senhoras com outras tantas trouxas com leguminosas. Discutem com o cobrador:
- Você és um aldrabão! – Atira a moça, mal poisara o fardo de hortaliças no chão.
- Vocês é que num querem pagá e tão-ma chamá aldrabão a mim? – Defende-se, raivoso.
- Nós já te entregámo os 500 kwanzas que você pedistes no Mercado do Trinta! – Acrescenta a senhora, de meia-idade, com os olhos esbugalhados pela contrariedade.
Entretanto, vão-se aproximando transeuntes atraídos pela cena, enquanto o motorista e demais passageiros aguardam, no táxi, pelo desfecho da contenda, para prosseguir viagem.
- Mas o preço de cada bilhete é 800 e não 500! – Insiste o chamador, avançando energicamente para as senhoras.
- Porquê você não falastes isso lá no mercado? Iscolhíamo outro táxi! – Interpela-o a jovem zungueira, de ancas largas e faces magras.
Impaciente, o condutor buzina e o cobrador recolhe ao mini-bus, não sem antes avisar as vendedoras de legumes: «Da próxima vez vou cobrá o dinheiro adiantado!»
Deambulando pela zona periférica do mercado, Natalício passa por dois roboteiros, ainda adolescentes, estacionados num espaço ermo e afastado do reboliço do comércio. Vestidos e calçados andrajosamente, despenteados, mas descontraídos, partilham macarrão com feijão e pedaços de carne que tiram dum saco de plástico. Enquanto mastigam, acenam a um amigo que vai passando, empurrando um carrinho com produtos de desinfestação, apregoados por um altifalante colocado por cima dos mesmos: «Mata rato, mata barata, mata mosca, mata mosquito, comeu, morreu, secou!»
O caminhante segue em direcção ao cinema N'gola, uma das razões do seu passeio. Finalmente, encontra o cine procurado. A sua alma “cai-lhe aos pés” ao contemplar o desconhecido estado de degradação daquele que fora um dos ícones culturais que povoaram a sua infância.
Do outrora lindo edifício, pouco mais resta que a fachada na qual, milagrosa e verticalmente, permanece a palavra “N'gola.” Levado pela incontida curiosidade, Natalício transpõe o gradeamento enferrujado. Repara nos dois postigos da desactivada bilheteira, e essa visão traz-lhe à memória o ano de 1972 e o episódio em que, naquele mesmo local, lhe fora negada a compra do ingresso para o filme Trinitá, O Cowboy Insolente, com Terence Hill e Bud Spencer, porque, conforme argumentou o vendedor de bilhetes apontando para o enorme e apelativo cartaz: NÃO ACONSELHÁVEL A MENORES DE 16 ANOS.
Retomando o passeio de regresso a casa, vem-lhe à memória o projecto de o Governo restaurar os cinemas históricos, que se encontram deteriorados. Natalício sorve a medida governamental como catalisadora da restauração deste emblemático bairro da capital angolana.
MÁRIO ARAÚJO

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