Os insustentáveis patamares do Grande Prémio Sonangol de Literatura

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Publicou este jornal, na edição número 28, de 15 a 28 de Abril de 2013, à página 10, uma peça de opinião, assinada pelo seu director, com o título `Os insustentáveis patamares do prémio Sagrada Esperança' cujo teor se aplica, mutantis mutandis, ao prémio lançado pela petrolífera nacional. Daí o termos adaptado o título para o conotar com o patrocinador (a Sonangol).

Aberto a todos os escritores consagrados dos PALOP, o `Grande Prémio Sonangol de Literatura' realiza-se de cinco em cinco anos e foi concebido "para distinguir qualitativamente obras literárias ou de investigação de escritores consagrados dos países africanos de língua oficial portuguesa", diz o regulamento, no seu artigo 3.

O artigo 8º (do género literário), estipula que "as obras literárias a concurso compreenderão todos os géneros literários, sendo igualmente considerados todos os trabalhos científicos ou de ensaios." E é aqui que a porca torce o rabo.
Imagine o leitor que é membro do júri deste prémio e lhe chegam às mãos, para avaliação estas três obras de autores dos PALOP:

 1. "Angola-Portugal: representações de si e de outrem ou o jogo equívoco das identidades", ensaio, de Arlindo Barbeitos (Angola);
 2. "O país de Akendenguê", livro de poemas de Conceição Lima (São Tomé e Príncipe); e
 3. "Ualalapi", romance de Ungulani Ba Ka Khosa (Moçambique).

Em termos de análise critica, não existem neste planeta critérios de avaliação comparativa que permitam aferir qualitativamente a qual destas obras atribuir o prémio. Dar o prémio a uma delas, seria retirar mérito às outras duas. Porque cada uma destas obras é excelente dentro do seu género.

Por isso, tal como já havíamos dito em relação ao prémio Sagrada Esperança, existem, nos pilares do regulamento, patamares insustentáveis que resultam da incompatibilidade avaliativa dos géneros literários.

Ora vejamos: como é que um único grupo de jurados pode estar intelectualmente habilitado para analisar "todos os géneros literários", e ainda, "todos os trabalhos científicos ou de ensaios"? Santo Tirso nos acuda!

No mínimo, teríamos de ter um grupo de jurados diferenciado, em função de cada género literário e mais dois, um para o ensaio e outro para os trabalhos científicos, que exigem, estes, uma especialização na área em apreço. É que, não nos parece que um ser humano qualquer, perante um bom romance e uma obra poética, possa ser capaz de encontrar um termo de distinção que lhe permita dar a uma das obras o galardão. Não é possível, mesmo pelas leis que regem o pensamento lógico, tão pouco pelo resultado de uma análise da estrutura formal e conteudística da obra concorrente. Em suma, não é possível a um único jurado entrar mentalmente em trabalhos de selecção de obras pertinentes aos cinco géneros da literatura mais os trabalhos científicos e os ensaios, sem incorrer em critérios subjectivistas de eleição e isso é contrário ao espírito de qualquer jurado.

Incongruência

Mas a grande incongruência deste prémio Sonangol (dito de Literatura) é a inclusão do trabalho científico na lista de géneros literários. O tratado científico não é um género literário.
Mesmo o ensaio só é literário se ressalvar duas características inerentes a qualquer texto literário: a) a primeira diz respeito ao conteúdo que se deve pautar pela exposição de ideias e reflexões com uma certa profundidade e originalidade, sem aquele carácter de cientificidade; a segunda característica refere-se à linguagem que deve rondar entre a poesia e a didáctica, isto é, o texto tem de ser escrito com arte.

Solução proposta

Como somos apologistas da crítica frutífera, aqui deixamos a nossa modesta proposta à SONANGOL, que aponta, para duas soluções.
A primeira solução seria a redução do escopo do prémio a um único género literário, neste caso, a ficção, que é o género de eleição mundialmente considerado. A segunda solução seria a sub-divisão do prémio em tantos escalões quantos os géneros em disputa e o consequente alargamento dos grupos de jurados, cada um deles integrando especialistas na análise de obras: a) em prosa; b) em verso; c) teatro; d) ensaio;. Esta solução implica um maior investimento.

Neste caso, teria de haver um maior rigor na escolha dos membros do(s) júri(s). Em última análise, e para terminar, que a missa já vai longa, insistimos na nossa tese de que não é tecnicamente conclusivo um único grupo de jurados analisar todos os géneros literários, sem cair em exorcismos mentais subjectivos para afeitos de selecção da melhor obra. Sabemos que foi com a melhor das intenções que o regulamento foi assim concebido, porém, um olhar mais atento sobre os preceitos do regulamento permite-nos tecer estas críticas e fazer as respectivas propostas. A bem das Letras e da Cultura Angolanas.

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