Os jovens que levam a poesia às comunidades

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Movimento Lev’Arte

Os jovens que levam a poesia às comunidades
Alguns dos membros da liderança da associação juvenil

Desde Julho de 2006 o movimento associativo angolano conta com uma organização juvenil de escritores e amantes da literatura dotada de uma formidável, e até há poucos anos impensável, capacidade de promoção e mobilização em torno da poesia. E também do livro, em geral, e da leitura.
Trata-se do Movimento Lev’Arte, fundado, entre outros, por Kardo Bestilo, presidente, e Kiokamba Cassua, secretário-geral. Prova do reconhecimento da força dessa organização é o facto de um número crescente de autores e organizadores de eventos culturais recorrerem à sua vasta rede promocional, disseminada pela Internet, seja através de blogs, redes sociais ou emails.
Foi no bairro Vila Alice, em Luanda, no The Kings, onde se realizou a primeira actividade do Lev’Arte – a Quinta de Poesia ou ainda Poesia Eu Vivo, que atrai gente até hoje. Com a noite bem entrada, depois de vencer a escadaria estreita, o interessado depara-se com uma sala cheia de jovens, homens e mulheres, maioritariamente estudantes, de pé ou sentados diante de um pequeno palco aberto para qualquer um erguer a voz a mostrar os dotes declamatórios ou a entoar a canção que lhe vai na alma. São momentos descontraídos de muito improviso e voluntarismo cujo ponto mais alto é a chamada Mesa Bicuda, em que um convidado (escritor ou artista) é entrevistado ao vivo por um membro da organização e responde a perguntas da plateia.
Outras realizações já consagradas são Poesia à Volta da Fogueira (segundo sábado de cada mês), Poesia na Mulemba (terceiro sábado) e Tardes de Poeisa, (último sábado). Em Março deste ano foi realizada a primeira edição do Fespol (Festival de Poesia de Luanda).
Os locais predilectos para realização dos eventos de poesia e palestras são as universidades, colégios e escolas públicas. Com o grande contributo do Lev’Arte a Mediateca de Luanda transformou-se num dos principais pólos de actividades culturais da cidade. “Metodologia da escrita” e “Como falar em público” são alguns dos temas que mais interesse suscitam entre os estudantes.
“Somos um grupo dinamizador que faz as coisas acontecerem e, ao mesmo tempo, o que vocês chamam de ‘associação literária de massas’, se tivermos em conta o conjunto de acções que temos desenvolvido ao longo dos oito anos desde a nossa fundação, que não se limita ao perímetro urbano”, disse Kiokamba Cassua, quando questionado pelo jornal Cultura a respeito do perfil do Lev’Arte.
Quanto aos objectivos que norteiam a organização e o público que pretendem atingir, Cassua responde: “o nosso objectivo é sermos parceiros culturais do Estado no incentivo à leitura e a escrita, bem como a outras modalidades artísticas. Temos feito um trabalho árduo neste âmbito e contado com o apoio de várias sensibilidades. O nosso público alvo são todas as pessoas, sem discriminação de género e idade. O Movimento Lev’Arte é constituído por pessoas de várias idades e, naturalmente, cada um trás consigo o seu referencial, no que diz respeito à geração”.
O secretário-geral do Lev’Arte apresenta como exemplos de sucesso a fundação de núcleos fora de Luanda, “o que resultou na extensão das acções de incentivo à leitura e escrita, bem como na moralização e humanização das comunidades através das manifestações artísticas. A fundação dos núcleos de Benguela, Huambo, Kwanza-Norte, Huíla e Bengo faz parte deste puzzle que se impõe, hoje, como um desafio à escala nacional. A expansão vai continuar. A nossa previsão é estarmos nas 18 províncias até 2016”.
Muito atacado por, alegadamente, dar ênfase aos aspectos de teatralização da poesia e fazer vingar um estilo de declamação que faz lembrar os rituais de xinguilamento, do Lev’Arte, entretanto, já emergiu uma safra de autores com livro publicado. Desafiado a indicar pelo menos cinco nomes de escritores talentosos, ou promissores, surgidos da lavra do movimento Lev’Arte, Kiokamba Cassua disse: “podemos citar nomes como Nguimba Ngola (com a obra “Mátria”), Kardo Bestilo (“Controverso”), Mira Clock (“Desabrochar”), Kiocamba Cassua (“Outros Sorrisos nos Nossos Lábios”) e o promissor Ângelo Reis, que já vai na sua terceira obra discográfica de poesia declamada”.
Os levarteanos, segundo Cassua, assumem com reverência a herança literária dos que lhes antecederam. “Temos uma atitude de respeito com os mais velhos, uma vez que reside neles parte das raízes do nosso imaginário criativo. Nunca vamos negar isso”.
Voltado para o interior do país, o Lev’Arte também lança um olhar sobre o mundo, não fosse a Internet um dos seus principais meios de acção. “Temos acompanhado tudo sobre literatura que acontece no mundo. E o mundo também, parecendo que não, tem acompanhado o nosso trabalho. Nesse capítulo as redes sociais têm desempenhado um papel relevante”.
Cassua ilustra tal interesse com a homenagem recebida pelo Movimento Lev’Arte Angola na SAMPOESIA (Mostra Internacional de Poesia de São Paulo, Brasil), em Junho deste ano. “Premiaram-nos pela importância da nossa atuação na divulgação, produção e promoção da poesia contemporânea”, afirma, cheio de orgulho.
Vocês no Lev’Arte acreditam que a literatura pode ajudar a transformar a realidade envolvente?, perguntamos, por fim, ao jovem escritor e líder associativo. “Sim, porque denunciando ou propondo soluções para os problemas da realidade que nos circunda, a literatura sensibiliza e consciencializa as pessoas, preparando-as e estimulando-as para as mudanças sociais”.

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