Óscar Ribas mais uma vez injustiçado

Envie este artigo por email

A propósito dos "11 clássicos da literatura angolana"

Nesta vereda, alargando a nossa visão analítica para o resto do Continente, a literatura congolesa ficará menos pobre com os seus raros clássicos como Tchaya U'tamsi, o poeta "acocorado na sua consciência", o romancista Henri Lopes, ou a L. senegalesa, com o celebérrimo poeta da Negritude, Leopold Sedar Senghor, ou no caso a da Guiné Conackri, com Aliuone Fantouré, autor do Círculo dos Trópicos e agraciado com um prémio de literatura africana, em França, no caso dos países africanos francófonos; ou as literaturas anglófonas, como a nigeriana ficarão menos requintadas com apenas dois ou três clássicos, como Wole Soyinka, Cipryam Ekwensy ou o celebrado Chinua Chebe de "O mundo se despedaça"(?!) e já agora a queniana ficará menos famosa na matéria, com o seu mais pronunciado clássico e que escreveu um romance na sua língua materna, o kikuyo, de sua graça o professor que recusara cátedra em Londres, o famoso Ngugi Wa Thyongo?

Legitimidade discursiva

Enfim, não nos parece que seja relevante o critério numérico, mais sim a legitimidade discursiva em matéria de classicismo. Em homenagem à nossa historiografia literária há que fazer apelo à objectividade e à verdade histórica da nossa produção textual, sob pena de produzirmos uma boa súmula, mas não uma recolha honesta, não resistindo ao teste da verdadeira História da Literatura Angolana na hora da sua elaboração, sendo que os critérios para a atribuição de um tal estatuto a um ou outro autor com menos merecimento, não seja feito em detrimento de estoutro ou aqueloutro clássico digno de registo e que dispensa desde logo comentários.

Extrapolando, em relação à velha Europa, Portugal terá assim tantos clássicos ou se recortam apenas os nomes de Camões, Garret, Junqueira, Eça de Queirós, do disputado os "Maias", Fernando Pessoa, o discreto Miguel Torga, um Aquilino Ribeiro, e já agora citamos também o celebrado José Saramago ou mesmo o escritor e médico-psiquiatra, Lobo Antunes, que ombreava de jacto com o Nobel português.

Ainda no caso europeu, a literatura russa terá no seu bojo mais do que os dedos de uma mão em matéria de clássicos: Dostoievski, Leão Tolstoi, Maiakovski, Proust e pouco mais, incluindo o prémio Nobel naturalizado norte-americano, Brodski, em meados dos anos 80? E a literatura inglesa idem, não terá apenas um Skakespeare, um Eliot e pouco mais? Na Alemanha, um Gunther Grass seria negligenciado na hora de coleccionar os clássicos do séc. XX, como ocorreu entre nós com o invisual!?

Saltando para a América Latina, a terra do cultivado realismo mágico, onde os clássicos não abundam como cogumelos no tempo da chuva, teremos um argentino como Córtazar, um peruano como Vargas Lhosa, ou um Gabo, conforme também é conhecido o autor do célebre "Cem anos de solidão", Gabriel Garcia Marquez e suas respectivas "Putas tristes" da rua da amargura.

Particularizando, no caso da literatura brasileira que nos é próxima, influenciando os nossos poetas "mensageiros" e contistas da "Cultura", não termos apenas um Machado de Assis, Gregório de Matos, Castro Alves, Carlos Drummond de Andadre, Manuel Bandeira, Graça Aranha, um Graciliano Ramos, um nordestino José Lins do Rego ou mesmo um Jorge Amado ou João Ubaldo Ribeiro. Como se vê: precursores, modernistas e nordestinos não enchem os dedos de duas mãos cheias.

Um outro caso que nos é próximo é o de Cuba, onde um dos poetas influenciou a emergência das literaturas africanas de língua portuguesa, com o seu cântico à cubanidade, "songoro cosongo" ou a homenagem ao "negro bueno". Refiro-me à literatura cubana, onde se destacam Mariatégui, Alejo Carpentier, Guillén e pouco mais.

Critério extra-literário

O critério numérico do 11/11, como se vê, é extraliterário, pois por mais nobre que seja a data, não pode sobrepor-se ao qualificativo da qualidade imorredoira que, tendencialmente, se compagina no clássico e na sua representatividade simbólica e textual que marcam escolas estéticas e atravessam épocas literárias, sendo igualmente disputado por uma multidão de leitores local e globalmente, conforme, aliás, reconhecem os organizadores da colecção.

No fundo, no fundo, independentemente de critérios outros utilizados, incluindo políticos, pois não vemos como António Jacinto representará mais na Mensagem do que Mário António, Viriato da Cruz ou mesmo Mário Pinto de Andrade. Ademais: mesmo na geração de 80, não vemos como Maimona é o mais representativo! Das análises que vimos fazendo ao longo dos anos, verificámos que, dentro da nova vaga de autores angolanos emergida nos anos 80 ainda estará por decantar-se, em termos de representação simbólica, no tempo e no espaço, qual deles será o mais clássico entre os demais "novíssimos", - paternalismos à parte.

Então, qual é o critério objectivo que presidiu à presente recolha que pretendeu seleccionar 11 autores e acabou injustiçando autores dos mais representativos da literatura angolana? Convenhamos, não percebemos como os organizadores conseguiram introduzir um autor da nova vaga, em detrimento dos poetas "Mensageiros" já referenciados.

Ou a designação terá sido bastante forçada, e, por arrastamento, terá forçado o resultado final, que deixa a desejar, sendo uma recolha que não é suficientemente representativa do peso da literatura angolana no panorama cultural angolano e, quiçá, africano, sendo certo que o imaginário regional que buscam os poetas cantar e prosadores retratar é local, mas também universal ­ o conseguimento dessa dimensão humana é que torna este texto também um clássico da literatura, não sendo por isso negligenciável na hora de uma recolha como a que presidiu este breve e despretensioso discorrer. A (re)ler a gente se entende. Amén!

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos