Outras Humanidades e outros Cânones - I : As literaturas em línguas africanas e línguas europeias nos estudos literários contemporâneos

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A consagração definitiva dos estudos literários, enquanto área disciplinar que integra as humanidades modernas ou humanidades académicas, dá-se em finais do século XIX como resultado da modificação do objecto da filologia de que resultaram disciplinas que dialogam entre si sob a cobertura da interdisciplinaridade.

OUTRAS HUMANIDADES E OUTROS CÂNONES - I As literaturas em línguas africanas e línguas europeias nos estudos literários contemporâneos
As literaturas em línguas africanas e línguas europeias

Como se sabe, tal elenco é constituído pelas seguintes disciplinas: línguas e literaturas clássicas; línguas e literaturas modernas; filologia; linguística; hermenêutica literária; retórica; poética; teoria da literatura; crítica literária; literatura comparada; teologia; filosofia; história; história de arte; história da cultura; história das ideias.
As humanidades modernas adquirem um estatuto reforçado, quando nesse período é introduzido o ensino das línguas e literaturas nacionais nas escolas e universidades do Ocidente. Mas o sentido do humanismo aí incorporado está vinculado a uma visão eurocêntrica. A exclusão de outras tradições, outras «humanidades», outras «grandes obras» é denunciada por Edward Said quando, em 2000, nas conferências proferidas na Universidade de Columbia, se debruçava sobre a «esfera do humanismo». Said defendia o reconhecimento da existência de «outras tradições» e «outras humanidades», pois, ao serem tidas em conta ela contribuem de igual modo para a definir o centro «não aprofundado» do que o pronome possessivo «nosso» representa. Por essa razão, Edward Said fazia apelo a uma crítica humanista radical perante essa atitude amnésica relativamente a outras tradições e línguas «aparentemente situadas fora do que é respeitável e conveniente observar». Ao coro junta-se Pascale Casanova que, em La Republique Mondiale des Lettres, denuncia o «universal» como uma das mais diabólicas invenções do centro dominante dessa República onde «os detentores do monopólio universal convocam a humanidade inteira a vergar-se a seus pés. O universal é o que eles declaram como adquirido e acessível a todos, desde que se assemelhem a eles».Para o crítico literário do Congo Democrático Pius Ngandu Nkashama, «os pretextos do acesso ao público ocidental são ilusórios, tal como os respeitantes à qualidade das obras propostas ou à personalidade dos seus produtores». Quando os ocidentais conferem «qualidade» a uma obra africana, acrescenta Ngandu Nkashama, fazem-no como se o seu autor aspirasse a ocupação de um lugar numa estrutura hierárquica superior.
Os três diferentes pontos de vista convergem no sentido de legitimar aquilo a que Edward Said designou por «crítica humanista radical». A minha argumentação pretende corroborar a perspetiva do crítico palestino-americano. Para o efeito associo-me àqueles que desvendam nestas cortinas dominadas pela «fábrica do universal» o valor que deve ser atribuído aos domínios em que se desenvolvem as literaturas africanas, nomeadamente, as literaturas orais e as literaturas em línguas africanas.
As humanidades a que faço apelo são disciplinas cujos objetos de estudo tematizam os problemas africanos que relevam das ciências da cultura e que mobilizam investigadores e docentes nas instituições do ensino superior contemporâneo em África e fora de África. A sua singularidade reside na emergência de disciplinas qualificadas por um traço distintivo sem equivalentes nas humanidades ocidentais (línguas e literaturas modernas africanas; filologia africana; linguística africana; hermenêutica literária africana; retórica africana; poética africana; teoria das literaturas africanas; crítica literária africana ou crítica das literaturas africanas; literatura comparada africana; teologia; filosofia africana; história de África; história de arte africana; história das culturas africanas; história das ideias africanas). Assim, neste universo é possível identificar as disciplinas que requerem novos aparatos teóricos e metodológicos. Podemos enunciar alguma delas: línguas africanas; literaturas orais africanas; literaturas em línguas africanas; filosofias africanas.
Colocado o problema nestes termos parece justificar-se o recurso ao relativismo epistémico para explicar o conhecimento disciplinar que as humanidades académicas africanas consubstanciam. Falamos destas do mesmo modo que é possível falar das humanidades europeias ou americanas. Para os mais atentos às dinâmicas do nosso mundo, trata-se das chamadas «novas humanidades» caracterizadas pela introdução de novas formas de pensamento e formas alternativas de ensino e investigação. É sobre as formas alternativas de ensino e investigação que me sinto chamado a reflectir e a convidar os leitores à reflexão, elegendo para o efeito as oralidades orais africanas e as literaturas em línguas africanas.
Ao falar do cânone nas literaturas africanas, estou a manifestar o meu interesse pelos problemas que decorrem do «controle institucional da interpretação», tal como diz o americano Frank Kermode, através do qual se confere legitimidade a uma «comunidade profissional dotada de autoridade (não indiscutível) para definir (ou indicar os limites de) um tema, impor valorações e validar interpretações». Por isso, as mudanças que ocorrerem no cânone devem obedecer às determinações da instituição e da comunidade profissional que autorizam o exercício hermenêutico. Para tal a mudança deve produzir efeitos na própria instituição e nos procedimentos hermenêuticos.
Ora, nos debates que agitam as comunidades académicas americanas e europeias são escassas as referências à problemática do cânone literário nas literaturas africanas. A razão é muito simples: os referidos debates a respeito da formação do cânone literário não se ocupam de África. A ilustração encontra-se na pretensão totalitária de Harold Boom em incluir na sua profecia de canonização autores africanos, integrando o que ele denomina por chaotic age (era do caos), anula as especificidades das literaturas africanas. Ou ainda nas palavras de Kwame Anthony Appiah, a leitura de textos literários africanos nos meios académicos americanos visa entre outros fins: a ânsia de repudiar o racismo; necessidade de alargar a imaginação americana, uma imaginação que regula boa parte do sistema mundial, económica e politicamente; e o desejo de desenvolver visões de outras partes do mundo que representam mais profundamente a autonomia do outro. Ao trazermos à colação estes dois autores, pretendo indicar o caminho para compreendermos melhor o poder definição subjacente às agendas de pesquisa que, sendo alheias, adquirem a forma de universais pela mão dos paladinos de uma teoria literária que, não tendo nada de universal, se afasta das realidades da cultura dos diferentes povos do planeta. Por isso, atendendo aos acontecimentos que nos últimos tempos vêm ocorrendo em Angola neste capítulo, sem perder de vista a necessidade e o sentido da liberdade intelectual, importa manter alguma vigilância para se evitarem protagonismos aventureiros na prática de actos epistemológicos soberanos que consistem em seleccionar, classificar e legitimar obras literárias fundamentais, capazes de traduzir a existência de uma tradição literária soberana.

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