"Papéis da prisão" de Luandino Vieira

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“Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim.”
Jean-Paul Sartre

Luandino Vieira Fotografia: Paulino Damião

O mais recente livro de José Luandino Vieira, Papéis da Prisão., como o próprio título indica, agrupa, num único e pesado volume de mais de mil páginas, os apontamentos, pensamentos e desabafos que, ao longo de quase 10 anos de cárcere – primeiramente em Angola(Luanda) e depois em Cabo Verde (Campo de concentração do Tarrafal) – Luandino foi passando para o papel. Publicado pela editora“Caminho” de Zeferino Coelho, organizado pelo Centro de Estudos Sociais de Coimbra (Margarida Calafate Ribeiro, Roberto Vecchi e Mónica V. Silva) e com a participaçãodo escritor, o Papéis da prisão chega-nos agora como um exemplo valioso e concreto da importância da escrita no mundo de cada um e no colectivo.As notas diarísticas e outras, as cartas e desenhos realizados por Luandino nas prisões, entre os anos de 1961 e 1972, vêm hoje falar ao leitor, afinal, de Liberdade.

Num livro difícil de classificar devido à diversidade da natureza dos textos compilados, a Personagem, o Narrador, e o Portador de outras vozes é sempre um e ele mesmo: o autor (o “Zé”, o “Luandino”, o “ZéLuandino”). Através de uma escrita que não abusa do sentimentalismoe que, sobretudo nos anos do Tarrafal, tenta afastaro intimismo, o leitor acompanha a vida, o pensamento e o trabalho mental de um homem que, em contexto de opressões e limitações várias, logrou manter intacta a sua liberdade intelectual e integridade: “5-2-63 (...) Pelo menos enquanto for possível, viver de maneira a não perder o que já tinha adquirido de bom” (VIEIRA; 2015: 138).
O papel, a caneta, os livros, o estudo e a capacidade de pensar e re-pensar todas as questões, inquietações e curiosidades que assaltavam Luandino foram os seus companheiros constantes em cada dia desses anos e que lhe permitiram defender-se, responder e contra-atacar não só as diversas agressões por ele mesmo sofridas como, também, as mesmas que actuavam sobre os seus pares e o seu povo: “24-6[1967] (...) E eu fico a pensar como a alienação dum povo lhe dá assim uma imagem tão alienada do que têm” (idem; ibidem: 806).
Inserido num lugar isolado, como o é sempre uma prisão, mas que era, ao mesmo tempo, um microespaço que reflectia a realidade exterior, Luandino utilizou das suas possibilidades e habilitações para cumprir a sua parte de um objectivo maior e de muitos: a afirmação de uma identidade angolana, de uma cultura e língua que correspondiam a uma nação e um povo que se desejavam independentes e livres.
A prisão foi, por várias características, um elemento impulsionador da produção literária de Luandino, não apenas pelo tempo do qual se dispõe e que em clausura é sentido como uma multiplicação do tempo real, mas, sobretudo, porque a prisão se converteu numa espécie de laboratório onde vários componentes se encontravam e sobre os quais Luandino reflectia, retinha e apontava nos seus papéis com planos de os inserir, mais tarde, nos seus contos e novelas como, por exemplo, para o João Vêncio: os seus amores: “24-8[1967] (...) Um tal Juvêncio que se dizia João Vêncio e cuja frase preferida para se dirigir é: «camarada companheiro»” (idem; ibidem: 812). Através dos escritos do autor, entendemos a prisão como um mostruário da precariedade e decadência da sociedade colonialista: “28-2-63 (...) Ex-funcionário reformado...é mais um símbolo do «assimilado», daquilo que o colonialismo faz de um homem” (idem; ibidem: 155).
A prisão compreendia entre os seus muros a heterogeneidade identitária que o colonialismo não queria aceitar e que o nacionalismo cantava como homogénea por detrás de termos tão vastos, mas que pretendiam apontara singularidade, como “Negro” ou “África”. Ao longo dos seus papéis, Luandino reflecte sobre os conflitos e as harmonias do grupo em relação a temas como a nacionalidade, a língua, a raça e, sobretudo, a classe social: “30-VII-64 (...) Foi uma grande lição para mim este quase um ano aqui na cadeia, com presos de delito comum. Sobretudo por ter adquirido a certeza que, mesmo nesta identidade de situação, as classes e suas consciências se mantêm: não há solidariedade senão entre as mesmas camadas que havia; a clivagem por classes é + visível que lá fora, onde a sobreposição e identidade com as raças, dá uma visão falseada pelo racismo”. (idem; ibidem: 536).
Este microsistema de vida humana da prisão foi altamente inspirador para Luandino. Contudo, a prisão não foi para o autor apenas o ponto de encontro de realidades e identidades diferentes, mas também o lugar onde se uniram, aglomeraram e desligaram, várias e repetidas vezes, os tempos: o passado com as memórias da infância e da adolescência;o início feliz da vida adulta e as várias e inúmeras fabricações imaginadas de um futuro. Todos esses tempos estavam estagnados num presente em que Luandino escrevia: “29-9[1967] (...) tudo se dissolve e fico só, como se tudo o que sucede de há 6 anos fosse um sonho. Quando terminará? Vejo a vida como uma estrada que foi interrompida em 20/11/61 – e meti por uma picada. E quando não penso a sério, creio, sinto que, ao sair irei encontrar aonde a deixei. O que não é mais possível!” (idem; ibidem: 816).
Os anos passam e é sensível ao longo do livro o endurecimento emocional que a clausura produz no sujeito. Há um permanente conflito entre o que se sente e o que se deseja fazer. O excesso de tempo para pensar produz angústia, tristeza e a consequente inércia. A produção de histórias e a criação de personagens apoiavam o autor no fazer face a esse contexto, ajudando-o a concentrar-se num objectivo que era, ao mesmo tempo, individual e comum: produzir uma nova literatura com/ para/ de Angola.
Nos apontamentos de Luandino repetem-se exaustivamente as preocupações quanto à forma e à linguagem ideal para servir as suas estórias: “25-X[-1964] (...) Reflexão sobre a presença de «exotismo» nos meus últimos contos. Parece que sim! Por que hei de falar com ênfase especial de «quitande» etc? O mesmo que gabar «alheiras» e «bacalhau»...” (idem; ibidem: 584). Havia uma consciência nítida por parte do autor de que as estéticas utilizadas até então na literatura de língua portuguesa não se adequavam ao que agora se pretendia fazer. A urgência de criar uma nova linguagem literária repercutiu-se em imensas recolhas orais e pesquisas em dicionários de vocábulos, canções, estórias e expressões em várias línguas (kimbundo, umbundo, crioulo cabo-verdiano,etc...) que eram estudadas e apreciadas minuciosamente pelo autor: “10-11[1967] (...) «Para fazer boa muxima» - para cativar, lisonjear. «Muxima» = coração. De onde o verbo muximar...” (idem; ibidem: 824). Todo este trabalho de linguísta foi acompanhado pelo fascínio e interesse pelo estudo das línguas por parte de Luandino, que desde o inicio da prisão estudou kimbundo, italiano, alemão e russo. É notório nos papéis o gosto e curiosidade do autor pelas línguas e pelo nascimento e desenvolvimento destas no acompanhar da evolução das sociedades que as usam e as vão construindo também com as suas próprias características, culturas e necessidades comunicativas. Porém, agora, o pretendido era elevar a língua dessa sua funçao primeira de comunicação para o plano estético e literário. Para esta transladação muito ajudou a originalidade dos povos que as criam. As ruas de Luanda mantinham-se, na memória do autor, como um suporte onde essa criatividade linguística vivia e se manifestava constantemente:“2-5[1967] (...) Bonita expressão luandense: diz-se que uma mulher deu à luz uma criança e que tudo correu bem – usa-se a expressão «teve felizparto» numa só palavra, pronunciada como uma só palavra” (idem; ibidem: 796).
Com estes meios e enquanto a revolução acontecia fora, Luandino fê-la acontecer na História da Literatura a partir da prisão: “25-2-63(...) Estive a pensar que preciso de melhorar a m/ linguagem, elevando-a de modo a poder descrever situações, ambientes e personagens mais ricos e complexos, mas sem a tornar ininteligível ou menos concreta e sem perder a base popular...” (idem; ibidem: 151).Falar de José Luandino Vieira, é falar do homem que teve o gesto humano e o génio literário de romper com os cânones, abrindo-os e canonizando uma língua que não era sequer, na altura, reconhecida enquanto tal pelo colonizador.Luandino pegou no Português de Luanda e transportou-o para a literatura, conferindo-lhe dignidade e valor estético, num tempo e sociedade onde isso constituía afronta.Seguindo a linha de Viriato da Cruz e António Jacinto,Luandino e a sua geração abriram as portas aos que depois deles escreveram, fazendo nascer, assim, uma nova literatura de língua portuguesa.
Ao contrário, talvez, do aguardado, oPapéis da prisão não nos traz longas e repetidas descrições do sofrimento humano individual daquele que, de repente, se vê injustamente privado da sua vida e dos seus. Nele chega-nos, sobretudo, um exemplo da preserverança de um escritor que antevê as consequências das suas obras e que conscientemente as produz e revela com a preocupação de que nunca o objectivo inicial se perca ou frustre. Além disso - e mais importante até, por ser este um livro disponível para todos os leitores - o Papéis da Prisão traz-nos, igualmente, a prova humana de que a liberdade é inerente ao Ser e de que o ser humano é tão mais livre quanto maior for a sua capacidade independente de pensar. Com esta leitura solidificamos a ideia de que nem o contexto mais hostil consegue retirar ao homem ou à mulher aquilo que ele ou ela sabem, nem a liberdade de decidir como o podem utilizar.Altruista e generosamente, Luandino escolheu utilizar esse seu espaço de conhecimento e, por conseguinte, de liberdade,para semear espaços livres outros e para os outros, na prisão com os companheiros, na literatura com Angola e com a língua portuguesa.
Ana T. Rocha

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