Para uma leitura de “Estorietas do meu beco”

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No seu novo livro Garcia Bires lembra que as pessoas estão acima de tudo

Felizmente para nós, o autor de “Estorietas do meu beco” despiu-se da nostalgia com que muitos dos mais velhos, conservadores, se esforçam por nos “impingir” o passado como o nosso ideal de futuro.

Não descortinamos neste livro qualquer tentação do autor de colorir o “seu tempo” como o melhor e nem sequer a humana vaidade das comparações. Não há o “meu tempo, melhor” nem o “vosso tempo, pior”, nem o contrário. O autor, como é seu timbre na vida pessoal, é elegante, cortez, abre, até de modo surpreendente, as portas da prateleira da sua memória.

São pequenas “estórias” sobre um passado de machimbombos e tempo para viver, feitas para serem lidas hoje com os nossos tempos controlados pela economia de mercado, entre um engarrafamento e outro ou entre uma reunião e outra.

Perpassa por todo o livro um traço de simplicidade e clareza de raciocínio que emana do texto e se impregna nas personagens. As diferentes personagens de “Estorietas do meu beco” são humildes, gente bem-intencionada e sem as vaidades dos nossos tempos. Segundo o próprio autor, “no beco que veio do nada vivia gente trabalhadora e bastante humilde”.

Mais do que isso, são-nos próximos, como se, ao lermos, nos guiássemos pela vida de um dos nossos familiares. Claro que não são da minha geração que se pavoneia em futilidades, sobranceria e arrogância. As personagens de Garcia Bires são do seu tempo. São normais, têm princípios, preocupações com a vida humana e são de uma sociedade com moral.

No seu texto literário, o autor de “Estorietas do meu beco, não se conseguiu livrar do peso de também ser o poeta Garcia Bires, razão porque encontramos uma prosa que evolui, se enrosca e apimenta como um poema expandido.

Quando não está versificado, o sentimento poético do “duplo” autor está na escolha das palavras, na utilização das figuras de estilo e no ritmo do texto. Realmente, ler “Estorietas do meu beco” é uma conversa a três, entre o leitor e o autor prosador, tendo a seu lado, sentado e observador, o autor poeta.

O apresentador não deveria ter preferências mas, para ser justo, não é possível contornar Arnaldo. Segundo o autor, Arnaldo era um fotógrafo natural pela sua capacidade de fotografar mentalmente tudo o que lhe aparecesse pela frente. Para além da Bíblia que lia com regularidade, tinha decorado todo o compêndio de Aritmética.

Arnaldo, diz o autor, tinha na leitura e no falar uma certa dificuldade em diferenciar a pronúncia das letras D e T: “Quarda Feira, tia quadro na sala te aula ta professora Maria Petroso eu esdava compledamende tesenquatrato do dema.”

Vicente, Joca e outros tantos povoam o livro, mas Arnaldo distingue-se pela originalidade e pela caricatura, numa altura em que nós, sobretudo em Luanda, vamos sobrevivendo, sabe Deus como, ao “comê, bebê ou voâ”, ou ao “Arguma coisa, Argo argum” e até, espantemo-nos, “voces és linda demais, como umjk inspirado resolveu cantar”. Arnaldo como outras vidas deste livro, é comedido.

Apesar de toda a sua erudição, troca os D pelos T ou vice-versa. Mas Arnaldo não se fica por aí e, por entre leituras, ganhou o vício de dizer “portanto”. Não está sozinho. Era ou é um vício tão comum que os da minha geração se habituaram a apelidar os “portantosos” de Tio Portanto, Compadre Portanto ou simplesmente “Portantoso”.

E tambem vos recomendo o senhor “Discursante” ou melhor Falloussó ou também conhecido por Bongololo ou na parte final do texto identificado finalmente como Phalloussó com PH António Diamante Kizua Jr. Leiam.

O livro “Estorietas do meu beco”, de Garcia Bires, lançado a 25 de Maio, Dia de África, é um apelo à reflexão. O autor quer que o seu beco seja reconhecido internacionalmente como património da paz e nacionalmente como um exemplo de cidadania.

Ele, o beco, personifica as raízes, os hábitos e costumes. Ora, assim se entende que o livro esteja centrado nas relações familiares, porque estruturam a sociedade e a tal de angolanidade.

Este é um livro que fala das pessoas, do seu modo de estar, do que gostam e do que fazem. Das relações que estabelecem umas com as outras e como isso multiplicado e consensualizado perfaz o que é comum chamarmos de sociedade.

É um livro que nos diz claramente que as pessoas, as vidas, as suas relações e inter-relações são o centro de tudo. As pessoas estão acima de tudo. Boa leitura.

“Perpassa por todo o livro um traço de simplicidade e clareza de raciocínio que emana do texto e se impregna nas personagens.
As diferentes personagens são humildes, gente bem-intencionada e sem as vaidades dos nossos tempos”.

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