Pepetela galardoado na Galiza

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Pepetela é um autor consagrado pelos leitores galegos. Um dos grandes vultos da literatura de expressão portuguesa que desde Angola tem causado impacto na Espanha e, em concreto, na Galiza. O salto do leitor galego para a literatura africana de língua portuguesa se faz, muitas das vezes, através de Pepetela.

Pepetela  galardoado  na  Galiza
Pepetela ante a Catedral de Santiago de Compostela Fotografia: Paulino Damião

 Um autor querido e consolidado no nosso país. Por estas razões, no passado 28 de Maio se fez entrega do Prémio Rosalía de Castro, que outorga em cada dois anos o Centro-Pen da Galiza, a autores que representam as quatro línguas da península Ibérica. Os premiados na Xª Edição, correspondente a este ano, recaíram sobre Pepetela (Angola), pela língua portuguesa; Claudia Piñeiro (Argentina), pela língua castelhana; Kirmen Uribe (País Basco), pela língua euskera, e Antoni Serra (Malhorca), pela língua catalã.
Um acto que se celebrou no reitorado da Universidade de Santiago de Compostela, presidido pelo reitor da mesma, pelo Conselheiro de Cultura do governo da Junta da Galiza e pelo presidente do Centro-Pen da Galiza, o poeta e escritor Luís González Tosar. Autoridades e numeroso público acompanharam aos galardoados, no já habitual e concorrido evento ao qual todos os meios de comunicação galegos, escritores e não poucos intelectuais deram dimensão a um evento de qualidade e que leva o nome da poetisa Nacional da Galiza, Rosalía de Castro.
Estes prémios contam com uma enorme relevância por aquilo que representa Rosalía de Castro na literatura universal e, também, pela alta qualidade dos galardoados. Este prémio começou em 1996. Em língua portuguesa, os premiados foram os seguintes: José Saramago, António Lobo Antunes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Nélida Piñón, Agustina Bessa Luís, Mia Couto, Lêdo Ivo e Pepetela.
O escritor angolano começou o seu emotivo discurso, intitulado: “Para Rosalía de Castro”, esboçou uma crítica certa e contundente contra a cultura dominante, contra o cânone único que potencia o imperialismo dominante. Pepetela, diz: “Estamos, mesmo, esbracejando, num mundo de homogeneização extrema. A cultura dominante, nascida nos estertores hegemónicos do mundo anglo-saxónico, espalha-se cada vez mais e entra em nós sem mesmo nos apercebermos. No domínio da literatura ou no do cinema, basta ir a uma livraria comum ou ver a agenda num jornal. O objectivo da criação artística, deixa de ser a tentativa da obra que rejubile o artista, o preencha, mas que favoreça o público mais preguiçoso, o que só é estimulado pela publicidade e o mercado”.
O discurso de Pepetela foi muito gratificante na situação em que hoje verificamos as tentativas de anular expressões vivas de cultura e identidades nacionais que estão ameaçadas pela expressão única da globalização. A contundência de Pepetela, neste aspecto, a sua sentença sentiu-se na vibração do público.
A segunda parte do seu discurso aprofundou o olhar sobre a Galiza, sentida e reconhecida na obra de Rosalía de Castro, para dizer: “Rosalía, nos seus escritos, mas particularmente na sua poesia, gritou bem alto um sentimento de revolta pela pobreza com que conviveu, a exploração do trabalho de mulheres, homens e crianças, a miséria da terra agreste que era a sua Galiza natal, destinada apenas a desfazer-se dos filhos pela emigração. São os seus temas recorrentes, de quem muito sofreu, mas que, num esforço de descobrir no mais recôndito do ser, escreveu os cantares de séculos e séculos se transmitindo no calor das lareiras ou nos encontros de tabernas, por vezes refreados e até agrilhoados por poderes centralizadores, na tentativa de colocar a língua materna com o estatuto de idioma rural, eco apenas de passados desesperados. Com Rosalía de Castro, sabem vocês mil vezes mais do que eu, a língua galega manifestou-se em todo o seu esplendor, revelando as sonoridades e suavidades do seu lento desabrochar, se tornando de facto em língua literária que ninguém mais pôde abafar. Rosalía se tornou, apesar da sua modéstia e do temor de aparecer, o grande nome do ressurgimento galego. O que para nós deve contar como exemplo, essa capacidade de trazer ao mundo uma língua quase proscrita, atirada para as trevas pelo monopólio linguístico do poder. Não ter medo de procurar dentro de si o universal que o idioma materno sempre gera”.
A magnitude contemplada por Pepetela, sobre Rosalía, a Galiza e o seu idioma, vem a incidir numa análise pragmática que não deixou ninguém indiferente. O escritor angolano sabe muito bem dos processos políticos e culturais da Galiza e da nossa identidade. Mostrou, no seu discurso, estar muito versado e motivado perante os acontecimentos históricos do povo galego.
A sua intervenção, no reitorado da Universidade de Santiago de Compostela, vem a definir a acusada personalidade de um escritor irmão que tem na Galiza não poucos leitores e admiradores que, muitos deles, levaram obras de Pepetela para ser rubricadas. Não é frequente olhar este contacto tão directo entre povo e escritor. Um evento transcendente em que se manifestou a compreensão entre Angola e a Galiza.
Xosé Lois García

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