Perfil de Alda Lara (I)

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Alda Lara, Jornal de Benguela 01-02-1965, p. 1.

Antecedentes e contextos

Socorremo-nos do título de um pequeno artigo do jornal ABC, Diário de Angola, “Perfil Alda Lara” , que a rubrica “Artes e Letras” integra, em 1962, no grande destaque dado à sua morte. Para assinalar a dimensão desta figura, o jornal seleciona e ali insere textos de genologias diversas como o registo epistolar, o conto, o texto poético, o artigo de opinião e fragmentos de diário.

Pouco depois da sua partida, vivida com emoção por toda a Angola e registada em vários periódicos da época, esta publicação, entre tantas outras, presta-lhe assim uma homenagem, apresentando textos por ela redigidos ou a ela dirigidos.

O intento de lhe traçarmos o perfil, obrigou-nos a um recuo no tempo, uma vez que as suas ligações familiares a Angola apontam para raízes mais profundas naquela antiga colónia portuguesa.

Essa busca afigurou-se-nos pertinente para melhor compreendermos a mulher que Alda foi, na época em que viveu. Além disso, a sua obra, pelos valores ali defendidos, pela profunda humanidade e sensibilidade estética evidenciadas e pela qualidade literária de grande parte dos seus escritos, parece-nos ilustrativa da sua representatividade no contexto da Literatura Angolana.

Segundo Wheeler, apesar da diversidade cultural dos povos de Angola, havia, entre eles, alguns denominadores comuns. No início do século XVII, quase todos os estados estabelecidos naquele espaço “trabalhavam o ferro, teciam panos, tinham uma monarquia sagrada e um desejo de negociar entre si ou com estranhos”.

Ainda segundo este autor, talvez os mais bem sucedidos comerciantes, entre estes povos, tenham sido os ovimbundu (constituídos por variados reinos) que, entre os séculos XVI e XVIII, se deslocaram “do norte e do leste para o planalto de Benguela”

Por outro lado, os europeus, entre os quais os portugueses, fixaram-se nas zonas do litoral do território a que hoje chamamos Angola, nas regiões de Luanda, a partir de 1576, e de Benguela, depois de 1617.

A partir desses locais iniciaram trocas comerciais com os povos que se aproximavam da costa para transaccionar os seus produtos. Benguela tornou-se assim, com o tempo, um importante entreposto comercial.

Por via desses negócios e, mais tarde, por questões de ordem administrativa, a escrita foi sendo, pouco a pouco introduzida, provocando equilíbrios e desequilíbrios num sistema de culturas de tradição oral existentes naquela região, como em outras, aliás.

Paulatinamente, a escolarização introduziu um novo sistema, fazendo oscilar ou progressivamente alterando a identidade dos “donos do discurso”.

A partir do século XIX, a crescente dinâmica da imprensa deu o seu contributo para o desenvolvimento de uma escrita considerada fundadora da escrita literária angolana.

Neste enquadramento, assinalamos o nome de José da Silva Maia Ferreira, que viveu e trabalhou em Benguela e escreveu, em 1849, Espontaneidades da minha alma às Senhoras Africanas, considerado senão o primeiro, um dos primeiros livros de poesia publicados em toda a África Portuguesa.

A ecologia e a geografia da zona entre o mar e o planalto e a permeabilização por vizinhança entre várias etnias obrigou a que o comportamento do homem, do poeta, do escritor entrasse em linha de conta com as sociedades e natureza circundantes.

Essa moldura cultural facilitou o despertar de uma maior consciência de si, na continuidade de movimentos anteriores, e essa consciência foi sendo traduzida numa forte participação cívica. Segundo Alberto Carvalho, “pode-se assim explicar pelas demoradas vivências que dirimiram a agressividade inicial dos contactos de cultura o surgimento da mestiçagem, da vida citadina, da instrução escolar, das práticas intelectuais de escrita”. Salvato Trigo, por sua vez, intitula Benguela a “mais mestiça cidade angolana”.

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