Por entre luzes e sombras da escrita e da memória

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Travessia por imagem, de Manuel Rui

Escritor Manuel Rui, no acto do lançamento da obra, a 30 de Março em Luanda

O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente. (BARTHES, Roland, 1984, p.13)

O Fluxo da memória, ao jorrar, vem todo margeado por pontos onde a significação da vida se concentrou... onde as experiências, os afetos imanizaram os lugares, onde irão gravitar as lembranças... (NOVAES, Adauto, 1988, p.112).

A palavra como princípio de se conhecer a existência. Como princípio de todos os princípios e descoberta da vida pelo conhecimento da morte. (RUI, Manuel, 2003, texto inédito)


Podemos dizer que narrar é uma luta constante contra o poder do tempo. Escrever um romance significa, entre outras coisas, levar o incomensurável aos seus últimos limites.

O romance Travessia por imagem, de Manuel Rui, configura-se como uma busca de desvendamento da existência humana, esta revelada como jogo de imagens, como representação, como teatralização dramática de memórias e esquecimentos, de lugares ­, entre os quais o espaço familiar da casa, o da cidade de Luanda ­ e de não-lugares, zonas de trânsito, como: o bar de Dom Escobar, em Havana; a sauna dos amores com Sueli; o hotel Adelita e o de Matanzas, em Cuba.

A metáfora do jogo se realiza de várias maneiras no romance. Há o jogo literário tecido entre o tempo de escolha do livro que ganharia o prêmio "Casa de las Américas" e o processo de construção do romance Geometria do silêncio, da autoria do escritor angolano Zito, protagonista de Travessia por imagem.

Há o jogo dos espaços de transumâncias, representados pelos hotéis Adelita e Matanzas, pelo bar de Dom Escobar, pela casa de show Tropicana, pela piscina, pela sauna ­ todos locais de passagem. Há, também, o jogo da relação entre memória e história, que se arma por intermédio de diversas fotografias, cuja ordenação, feita pelo protagonista e por outras personagens, vai construindo e devassando a própria narração do romance polifônico que está sendo redigido a várias mãos.

Há, ainda, o jogo político por meio do qual as críticas à sociedade angolana, ao capitalismo, ao socialismo vão sendo efetuadas, com ironia e sarcasmo: "Ah! Ah! Ah!" ­ risada que entrecorta toda a narrativa, como um contraponto de humor corrosivo e satírico.

Todos esses jogos são permeados por relações de intimidades, por intermédio das quais as personagens vão-se desvelando em meio a fugacidades, a imagens fugidias, dispersas, mas, também, rearrumadas como num álbum de fotografias de família. Uma personagem importante, na trama irracional, é o fotógrafo Óscar. Este teoriza sobre fotografia, mostrando que cada foto vai além das imagens fixadas, descortinando sentimentos e palpitações do passado, memórias e estórias esquecidas que pulsam sob a imagem, em meio às sombras da memória.

A arte da fotografia é capaz de lançar luzes em zonas sombrias do pensamento e das lembranças. Etimologicamente, a palavra fotografia vem do grego: "fós"= luz e "grafia"=escrita. Fotografar é, portanto, uma escrita luminosa, que expõe imagens sob a forma de flashes que apreendem instantâneos, como se congelassem, em pequenas eternidades, fragmentos do tempo.

Não só Óscar vai fazendo reflexões acerca do ato de fotografar. Outras personagens também o fazem. O protagonista Zito, escritor angolano, reflete o tempo todo, descobrindo, na fotografia, nas imagens, o cerne da ficcionalidade, ou seja, a imago, a fantasia romanesca: "(...) as fotografias a imaginar através dos textos, partindo de outras fotografias que funcionam como princípio da ficcionalidade real, achei!" (RUI, 2012, p. 254).

Tais considerações sobre os bastidores do próprio procedimento escritural permitem concluir que Geometria do silêncio e Travessia por imagem se entrecruzam e se espelham, constituindo-se como escritas labirínticas e abissais que podem ser denominadas de "meta-romances", isto é, romances metaficcionais, pois discutem suas engenharias internas. São romances tecidos não apenas a quatro, mas a muitas mãos. Ao narrarem e desvendarem o próprio processo como são elaborados, se instituem como "romance[s] do romance" (RUI, 2012, p. 302).

Travessia por imagem se passa no final dos anos 1980 e início da década de 1990, época de Gobarchev, isto é, da abertura política e econômica da então União Soviética para o capitalismo.

O romance divide-se em sete partes. A primeira transcorre em Cuba, onde vários jurados de diferentes países estão, em Cuba, hospedados no Hotel Adelita, em Havana, deslocando-se para outro hotel, em Matanzas, para a leitura e a análise dos livros concorrentes ao renomado prêmio literário.

Quando se encontram no Hotel Adelita, não deixam de comparecer ao bar em que trabalha o sedutor Dom Escobar, sempre a comandar os tragos e gestos dos hóspedes e frequentadores daquele espaço. O drinquista trabalha ali desde a época de Fulgêncio Batista, quando Cuba era satélite dos Estados Unidos. Viveu o período da americanização; mesmo depois da revolução cubana, não deixou o bar. Além dos serviços que prestava neste local, sabia jogar pôquer. Assim, encantava os clientes com lances e blefes.
 
A metáfora do pôquer expressa a relação existente entre jogo e ficção, apontando, ainda, para saberes e odores presentes no bar. O rum, por exemplo, preparado e servido por Dom Escobar, exalava um cheiro que despertava diferentes paladares e memórias.

Outras personagens que são focalizadas nesse primeiro cenário irão percorrer, também, outras partes do romance. Óscar, fotógrafo argentino, costumava sempre fazer a cobertura dos prêmios literários em Cuba.

Ele aparece constantemente a flashar, a captar instantes de paisagens e pessoas, tentando fixar momentos que nunca mais se repetiriam. Vai, dessa forma, delineando a importância da fotografia, chamando atenção para emoções e sentimentos que se encontravam no âmago das imagens flashadas: "trazer à fotografia toda a intimidade do que havia fotografado, mesmo casas com ruínas ou museus; as suas fotografias eram sempre para revelarem aos olhos a interioridade". (RUI, 2012, p. 38).

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