Por entre luzes e sombras da escrita e da memória

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Travessia por imagem, de Manuel Rui

Escritor Manuel Rui, no acto do lançamento da obra, a 30 de Março em Luanda

Em Travessia por imagem, os jogos amorosos oscilam entre a tradição familiar e as experiências transitórias. Destas são exemplos os encontros apaixonados de Zito e Sueli, uma antropóloga brasileira que o escritor angolano conheceu em Cuba. A ligação entre os dois, analogamente, metaforiza a relação Angola-Brasil, plena de sexualidade plástica e musical, conforme assinala o narrador: "Sueli tinha um toque de samba e Zito, de semba" (RUI, 2012, p.30).

A dança é outra imagem que se faz recorrente no romance, por intermédio de alusões ao samba, ao semba, à salsa, ao tango, ao merengue. Apresenta-se como expressão artística de movimentos e ritmos sensuais característicos dos povos da América e da África, em geral.

Pela primeira parte do livro, perpassam muitas personagens, mas os relacionamentos entre estas se fazem passageiros e fugazes: Ortega, escritor uruguaio, revolucionário; Dacha, a catedrática húngara; Ivete e Ivan, profissionais do tango; Peres, membro da comitiva central que tutelava a estadia de Zito; Pablo, o empresário mexicano da Cidade dos Leões, Gualajara; Echeverria, o médico, e Alícia, a enfermeira, que atenderam Zito no hospital cubano.

Cuba marcou o imaginário de Zito, assim como a relação amorosa que manteve com Sueli. Porém, o escritor angolano não deixou de amar, profundamente, sua mulher, Rocelana, cujo nome carrega um ícone representativo da identidade angolana: a rosa de porcelana.

Ao regressar a Luanda, ainda no avião, escreveu para ela um poema. Fotografias, epístolas, poesias, ensaios se entrecruzam no romance, cuja modernidade literária se vale de diversas estratégias, entre as quais destacamos: a da mesclagem dos gêneros; a da estrutura polifônica; a da dispersão e fragmentação dos discursos das personagens e do narrador; a da meta ficção que teoriza acerca da fotografia, da imagem, da imago, da fantasia, da ficcionalidade, em suma, acerca da tecedura romanesca. "Zito conta o romance que se apresenta na maneira de ser feito" (RUI, 2012, p. 256).

Este é um dos aspetos da modernidade de sua escrita, embora esteja claro que tal artifício também é encontrado na oratura africana: "os ouvintes escutam o contador e seguem a feitura da estória" (RUI, 2012, p. 256). É permanente, ao longo da narrativa de Travessia por imagem, as alusões a esse jogo entre modernidade e tradição, entre fala e escrita. Zito é o que domina a letra, a escrita; Dona Vitória, a mãe de sua mulher Rocelana, representa o mundo da fala, da voz, da oralidade.
 
A segunda parte do romance transcorre em Luanda. A esposa, Rocelana, e a sogra, Vitória, são muito importantes para Zito que, no fundo, é bastante apegado à família e às tradições de sua terra. O escritor é também político, ocupando posições junto ao Estado angolano. Confina ironia ­ acentuada pelo refrão "Ah! Ah! Ah!" que permeia, de quando em vez, a narrativa ­, Travessia por imagem se constrói, fazendo críticas aos sistemas políticos, tanto ao capitalismo, como ao socialismo que, vem, muitas vezes, se esquecendo, em Angola, de seus princípios ideológicos de lutar pela igualdade social.

Tais questionamentos vão sendo efetuados, no decorrer da narrativa, pelo narrador, por Zito, por Dona Vitória e por outras personagens. A "Cidade dos Leões" do mexicano Pablo, fotografada por Óscar, pode ser lida como uma alegoria satírica da decadência do socialismo em um mundo que passa a priorizar, cada vez mais, o capital e o consumo: " (...) um final de realismo socialista com leões a desfilarem para um comício" (RUI, 2012, p.80).

Como pequenos flashes fotográficos, Zito vai trazendo à sua lembrança fragmentos do que vivera em Havana e Matanzas. Entremeadas a essas memórias, vão sendo colocados em questão alguns aspetos problemáticos da sociedade angolana pós-1980 e da história de Angola. Por exemplo: "a nossa vida Ficou na encruzilhada independência” (RUI, 2012, p.85); “a guerra não acaba ou temos que acabar coma guerra para ela não se intrometer nos nossos sonhos” (RUI, 2012,p.95).

Reflexões desse tipo são efetuadas pelo narrador e por várias personagens: Zito, Vitória, Katia, Edna, Rocelana; mas, quase sempre, são intercaladas por comentários satíricos, irônicos, que vão tecendo provocações e gozações, como se fossem estigas, tão ao gosto do modo de ser angolano:“(...) Rocelana começou abater palmas na risada, ‘amor não vês que a tua filha está-te a estigar porque lá na Bulgária sim é coma cabeça a abanar de um lado para outro e não de baixo para cima,
Ah!Ah!Ah!Ah!PontosparaKátia´” (RUI,2012, p.155).

Estiga é uma brincadeira, comum em Angola, em que um tenta gozar o outro e vice-versa, iniciando-se, geralmente, por uma afronta, um desafio. Pode vencer o estigado ou o estigador, dependendo da capacidade inventiva e a velocidade de argumentação de cada um. Nas estigas, tudo que é dito só existe na linguagem, na imaginação, no imaginário do que dizem e respondem o(s) estigador(es) e o(s) estigado(s). O riso, como elemento crítico, é fator preponderante nesse tipo de brincadeira.

Em Travessia por imagem, cruzam-se  diversas  estigas: entre Zito e Vitória, entre Zito e a mulher, entre Zito e a ilha Kátia, entre a avó e a neta; entre Vitória e Rocelana, entre Zito e Oscar, entre muitas outras personagens. Por meio desse jogo de linguagens, o romance de Manuel Rui, estruturando-se como se fosse uma grande, irônica e filosófica estiga, vai discutindo e questionando não só a literatura, a construção do romance, os prêmios literários, a existência humana, mas também os sistemas políticos, a economia, os contextos históricos tanto de Angola, como de Cuba e de outros países, antes e depois da Perestroika.



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