Preconceito linguístico e tendências: NeocoloLinguísticas em Angola

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Resolvi começar este artigo com uma referência à nota de contra capa da obra Preconceito Lingüístico – o que é, como se faz, de Marcos Bagno (1999), segundo a qual se diz que os brasileiros não sabem português...

Preconceito linguístico e tendências: NeocoloLinguística em Angola
Livro de Óscar Ribas

Pois, ouço o mesmo a respeito dos angolanos, imensas vezes, e, incrivelmente, de compatriotas cololinguizados, na maior parte dos casos. Julgo, assim, haver entre brasileiros e angolanos, além das propaladas ligações histórico-culturais, um fardo comum que cobre e encobre a dignidade de ambas civilizações – o preconceito linguístico.
E, se pretendermos uma visão de paralelo das variáveis que constituem a base de tal preconceito, poderemos, eventualmente, concluir que tudo advém “da confusão que se faz entre língua e gramática normativa” (ibidem), lá e cá, suflada, ainda mais, pelo subjectivismo dos critérios adoptados, para a normatização de determinada lexia, seja ela simples, seja ela complexa.
Mas, lamentavelmente, não podemos tentar um paralelismo com o Brasil, no domínio da normatização da língua. Primeiro, porque esse país tem uma norma-padrão própria, ao passo que “nós” continuamos a depender da “Metrópole”. Segundo, porque o Brasil, em relação à Angola, funciona como que uma segunda “Metrópole”, graças a mais de 30 anos de cololinguização, através de telenovelas e séries, na televisão angolana, com uma dose mais elevada do que nunca, nos últimos dias, com a expansão das parabólicas.
Mas, não me parece que o Brasil tenha tanto interesse na cololinguização. Esse país, ao contrário do que se pensa, mais do que evoluir o seu português, fez, na minha opinião, uma viagem ao étimo latino – o que explicaria, por exemplo, a quase que inexistente distinção entre o tratamento formal e o informal, rigorosamente aplicada na Europa e na África. Veja-se que, no latim, havia apenas uma forma de tratamento – “tu”, o que explica o “tu heurístico”, nas traduções bíblicas mais antigas.
Entretanto, não há aqui nenhuma tentativa de reivindicação linguístico-cultural. Esta abordagem pretende ser apenas um breve diagnóstico à saúde do léxico angolano. Pois, repare-se, que é justamente neste domínio que as variedades rapidamente se
distinguem, além, claro, da componente fonético-fonológica inegável por força das variações geográficas e contextuais.
Entre nós, há exemplos da “assunção do léxico pátrio” dignos de realce, como os esforços empreendidos por certos músicos, que incorporam nas suas composições termos nacionais (a lista é imensa demais para citá-los), escritores, com particular realce para Óscar Ribas, Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, que transparecem na sua escrita mais do que um simples desejo de criação artística, uma preocupação etnolinguística e etnográfica. Há, ainda, muitos outros nomes, inclusive da geração actual, bem como exemplos de figuras públicas e actores (a telenovela “Jikulumessu” é um exemplo desse esforço empreendido no âmbito da promoção do nosso léxico – assista-se!).
No entanto, há, ainda, grande descontinuidade na prática documental, visto que, geralmente, os que fazem as pesquisas lexicológicas, que dão o tratamento lexicográfico e os que lematizam as palavras não convivem directamente com a cultura do nosso povo, não conhecem a fundo o ambiente espiritual que envolve o surgimento de muitas das novas palavras.
Daí o ter dito que os brasileiros resistem mais. Criam, investigam, produzem e publicam, habituando os ouvidos das outras civilizações com a musicalidade do seu léxico. Basta ler os seus escritores, ouvir as suas canções populares, assistir aos seus programas de televisão, em fim; são mais independentes no “pensar o português” e no se manifestar na cultura através deste capital simbólico. Ao passo que nós assistimos impávidos e serenos e, até, promovemos acções (consciente ou inconscientemente) que, gradativamente, vão consagrando o “linguisticamente correcto” como factor de estratificação social.
E é, exactamente, nessas atitudes que, na minha opinião, desacreditam a nossa soberania cultural e desvalorizam o esforço de Angola, no que toca à sua “contribuição para o enriquecimento do universo simbólico e o imaginário da Língua Portuguesa”, citando o escritor António Fonseca ap. José Luís Mendonça (Cultura: 8 a 21 de Dezembro de 2014, p. 3), em que se assenta a minha abordagem.
Assim, que fique claro, à partida, que a esta abordagem não importa se um “clítico deva ficar antes ou depois do verbo”. Estou a tentar levar à mesa das reflexões académicas e até patrióticas uma temática que ultrapassa as touradas da morfossintaxe, tentando escapar, deste modo, às discussões comuns, que não passam muitas vezes de manobras de diversão, enquanto temáticas como esta – a afirmação do nosso léxico – passam despercebidas.
Tendências neocololinguísticas em Angola
Sempre que assisto a determinados programas da nossa televisão, ouço rádios e constato que muitos jornalistas e apresentadores fazem questão de dizer, “como se diz, por aqui”, sempre que incorporam nos seus discursos palavras como “maka”, “jajão”, “sengar”, “banguessar”, “curibota”, etc., fico com a impressão de que tais vocábulos constituem um atentado à pureza do Português.
E, mesmo que poucos o saibam, essa forma preconceituosa e natural com que “peneiramos” essas lexias, nos discursos que pretendemos eruditos e a ansiedade com que os angolanos almejam que os nossos vocábulos atraiam a atenção da metrópole, para daí vir, então, a sua apreciação lexicológica, lexicográfica e até a sua lematização, faz-me ponderar, mais uma vez, se não estamos diante de uma neocololinguização…
Veja-se que um vocábulo que nasce da alma do nosso povo, desgarra-se das línguas locais e da sua necessidade de sobreviverem à tirania do silêncio tem de emigrar para a “Metrópole”, para aí ser avaliado se de facto reúne condições de incorporar o corpus linguístico do português e, só depois disso, ganha aceitação até mesmo no nosso seio. Por consequência, e, como é de se esperar, da Metrópole vêm acepções impostas, em despachos dicionarísticos feitos a bel talante do freguês.
Há muito que se trava uma batalha pela soberania da Língua Portuguesa. Mas, há muito mais que o “Berço” mantém adormecidos os seus heróis, contando-lhes as aventuras dos deuses do além. Logo, não me surpreende que, aproveitando-se da distracção, alguns se queiram sobrelevar aos outros seres sociais, tendo a língua como a chave para a abertura dos seus “corredores” de influência – a noção do correcto como factor de estratificação social.
Mas, como eu prefiro, em primeira instância, acreditar na nobreza das intenções, acreditarei, então, que tudo não passa de um simples “resultado da ignorância, da intolerância ou da manipulação ideológica” (cf. Bagno, 1999: 12-13) de quem tem “a faca e o queijo”, visto que partindo dos nossos manuais escolares, tudo vem de “Fora”.
Evolução e variações da Língua Portuguesa: um esboço histórico necessário
A história da Língua Portuguesa é um assunto que não cabe neste discurso. Há demasiadas abordagens exaustivas a seu respeito. Contudo, farei um esboço histórico apenas com o objectivo de despertar uma visão diacrónica sobre a análise das
manifestações linguísticas. Assim, julgo oportuno apresentar alguns dados científicos que comprovam a mutabilidade da língua, contrapondo, portanto, à intransigência à aceitação da própria natureza linguística, que assevera o preconceito linguístico e a resistência a novas tendências linguísticas, sobretudo, no quadrante das variedades disseminadas pelo vasto espaço da lusofonia.
Apesar de a mudança linguística ser vista por muitos conservadores como uma deterioração da génese, um atentado à pureza, há estudiosos que entendem a língua como um sistema funcionante e, com efeito, passível de mudanças a nível do seu sistema orgânico, quer por factores internos – linguísticos – quer por factores condicionantes extralinguísticos.
É o caso de Esperança Cardeira, que na sua obra História do Português (2006, p.13), diz que “a língua se organiza como um sistema dinâmico em permanente busca de equilíbrio, as suas estruturas poderão ser, elas próprias, causadoras de mudança: oposições que não se revelam funcionais podem desaparecer, […], ou novas oposições podem ser criadas no sentido de preencher lacunas que um princípio de clareza necessária à comunicação tenderá a colmatar. A autora acrescenta, ainda, que “sendo a variação inerente à fala, uma ou mais variantes podem coexistir sem que haja mudança…” (pp.13-14).
Como se sabe, a Língua Portuguesa passou por inúmeras mudanças, até alcançar a estrutura actual e está provado que são os falantes, em última instância, os juízes dessa evolução contínua. (vide Gramática Moderna da Língua Portuguesa: 2010, p.26).
Assim, para uma análise retrospectiva, o Português inicia-se “no proto-indo europeu, passando pelo latim, pelo galego-português, pelo português arcaico médio e, finalmente, pelo português clássico que, após algumas evoluções até ao século XVIII, resultará no idioma hoje utilizado em todos os aspectos comunicativos da vida diária”. (idem, p. 25).
Ora, de que nos servem estes dados históricos? Servem-nos para considerar o seguinte: o Português evoluiu do latim graças ao seu convívio com línguas primitivas, que resultou na absorção de marcas autóctones que influenciaram decisivamente a sua evolução.
Logo, não vejo razão de, por exemplo, na lematização de palavras angolanas nos dicionários portugueses, os nossos vocábulos serem apresentados como ocorrências apendiculares do português, quando podiam ser consideradas como calorias capazes de evoluir num corpus comum. E, quando são lematizadas, é visível o distanciamento que se cria entre a imagem mental que se pretende transmitir com o uso de determinado vocábulo, cá entre nós, e as acepções que são apresentadas.
Ora, vejamos, se o Português conta com substratos e superestratos de outras línguas, por força da histórica evolução do Império Romano, por que não acolher, assim como muitos substratos germânicos, celtas, em fim, substratos das línguas africanas, lematizando-os, sem, no entanto, degenerar as suas acepções originais?
Não creio que o firmamento de uma variedade seja um processo premeditado; é psicológico e está intrinsecamente ligado ao nível social, económico, cultural e, até, a acções políticas, além, naturalmente, da irrefutável componente diatópica.
Assim, os falantes, sobretudo os que têm de usar a língua como um factor de sobrevivência (como é o caso da nossa maioria) vão, inconscientemente, incorporando nos seus discursos agentes transformadores das bases primitivas, moldando-as, gradativamente, até consagrarem novos dizeres na comunidade linguística considerada – a sua norma. (Leia-se o conceito de “norma”, de Cunha e Cintra: 2004, p. 4).
Não pretendo, com isso, dizer que qualquer selecção deliberada de elementos linguísticos, para a transmissão do pensamento ou expressão de emoções deva ser vista como linguisticamente correcta – isto é linguoanarquismo. Da mesma forma que seria um caos conceber uma religião sem escrituras, um estado sem leis, não consigo imaginar uma língua sem um padrão.
Todavia e, para concluir, a necessidade de resistir à neocololinguização, no domínio do léxico, em particular, é um ponto assente, continuando a promover novos factos linguísticos.
É preciso que os nossos lexicólogos, lexicógrafos e linguistas, de modo geral, saiam um pouco da comodidade das academias e contactem mais com a realidade e cultura linguística dos “campos”, e que façam disso objecto de estudo.
Para o efeito, é necessário também que as universidades, as instituições do Estado competentes criem condições de trabalho, para depois podermos cobrar todos os frutos de tais investigações.
Que se façam contra-publicações, com contra-acepções, repondo o valor cultural, social, político e até espiritual das nossas palavras, caso contrário, estaremos todos a ceder suavemente à neocololinguização portuguesa.

Araújo dos Anjos

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