Preocupações culturais de Agostinho Neto: Literatura, ensino, línguas maternas e o sonho do desenvolvimento de Angola

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Agostinho Neto nasceu em 1922 em Caxicane, antigo conselho do Icolo e Bengo,sendo oriundo da pequena burguesia rural.

Preocupações culturais de Agostinho Neto: Literatura, ensino, línguas maternas e o sonho do  desenvolvimento de Angola
Preocupações culturais de Agostinho Neto

Um estudo elaborado em 1971, pelo seu pupilo e lúcido ensaísta Gilberto Teixeira(Gika) dá-nos conta, com propriedade, do esquema de estratificação da sociedade colonial da época, em Angola, deixando escapar o grau de diferenciação entre os distintos grupos e classes sociais em presença e até em conflito.
O pai era pastor e professor, tal como a mãe professora, pois o pai pregara o evangelho e ambos praticaram o magistério nas margens do Bengo e nos Dembos, além de que, em virtude desse estatuto social privilegiado, situando-se na faixa intermédia da sociedade colonial, sendo profissionais liberais “não eram importunados para irem ao trabalho contratado”, -conforme testemunha o nosso protagonista, em 1976, em entrevista à jornalista italiana, Augusta Conchiglia, uma amiga da causa nacionalista angolana.
O ambiente da ruralidade vai marcar a sua fase inicial de crescimento físico e espiritual. Os referentes do poema “As palmeiras da minha mocidade, “Caminho do mato” e “Havemos de voltar” são poemas que têm a ver com esses ambiente bucólico das paisagens da sua mocidade; ambiente físico, social e cultural autenticamente africano, marcantes do seu grau de endoculturação, ou seja o processo de socialização inicial do filho mais ilustre do casal, fascinado com as paisagens exuberantes do mato ou evocando as raízes africanas da cultura angolana em o “Havemos de voltar.”
O pai queria vê-lo médico( expectativa que se confirmou alguns anos depois).
Mais tarde em Luanda viriam a residir no famoso Bairro Operário, dividindo entre o areal dos musseques e a zona baixa, a cidade de cimento armado, conforme atesta o seu conto “A naúsea” .
A formação religiosa vai marcar decisivamente a sua adolescência e juventude, inserindo-se nas actividades grupais da missão protestante, uma das raras associações permitidas pelos colonos, não havendo sindicatos irreverentes, muito menos partidos, nas colónias sob domínio de Salazar.
Assumindo-se já como líder juvenil foi o principal responsável do CEJA (Centro da Juventude Evangélica de Angola) entre os finais dos anos 30 e princípios de 40, dando explicações aos seus irmãos de raça e infortúnio, retirando-os das trevas da ignorância. Concomitantemente, por essa altura elabora os seus primeiros poemas, que os considera maus e rasga-os com a sua fúria auto-crítica, e publica artigos e ensaios onde defende a paz para a mundo e a necessidade da instrução dos naturais de Angola, nos jornais como “O Estandarte” e “O farolim”, onde defende a união entre os nativos angolanos e necessidade da educação formal da criança negra, revindicando a mesma oportunidade social de acesso ao ensino, como ocorre com a menor de ascendência europeia, postulando assim o progresso futuro da nação angolana que lhe ardia no peito, ainda que em termos incipientes, com artigos de pendor reformista, não abalando no essencial a estrutura política colonial, mais pondo em causa um dos seus principais aparelhos ideológicos- a escola, que não é reservada ao grosso dos nativos, velhos, homens, mulheres e crianças negros.
À medida que vai atingndo a maturidade psíquica e literária, o nosso protagonista vai radicalizar as suas posições em relação ao satus quo colonial.
Em 1943, concluído o 7º dos liceus, teve que deixar de estudar para prover a si e ajudar nos proventos familiares, que contava com uma agregado numeroso, o que acrescia/acresce às carências do africano, no quadro de estrutura económica da sociedade da época, ainda que dedicando-se ao magistério primário, ao evangelho ou ao funcionalismo público, como era já o seu caso.
Concorre para o seu emprego aos 21 anos, o facto de contribuir para o aumento da renda familiar, como já ficou visto, desagravando o peso das despesas na economia doméstica e juntando dinheiro para prossecução, pois só conseguira a bolsa dois anos depois de se encontrar a estudar medicina em Coimbra.
Antes disso, colocado como funcionário da saúde em Malange e mais tarde no Bié entre 1944/47 tomou cada vez mais consciência das condições desumanas em que eram submetidas o seu povo, nomeadamente do contrato, tema privilegiado da sua geração literária, inscrevendo-se nas correntes protestárias do nativsmo angolano, bebendo dos mais velhos protanacionalistas da velha que questionavam o sistema colonial, quer verbalmente em tertúlias, quer na imprensa africana, bem como em focos resistentes da repressaão colonial ,onde se achavam antigos presidários do status Colonial, como velho lameira em Malange, que viria a falecer em 1961, coincidentemente no ano do brandir das catanas
Nesta vereda, convive em Malange com focos do protanacionalismo numa passagem de testemunho ao do nacionalismo moderno- momento de releitura crítica do discurso reformista da velha geração que actuava sob o signo do legalismo; a ruptura cultural e quiçá política do nacionalismo africano moderno nos “CINCO” moderno, de que é um dos principais dinamizadores na diáspora, nomeadamente, na Casa dos Estudantes do Império, na Casa de África, no Centro de Estudos Africanos, a partir de outubro de 1951, em torno do mais vasto “movimento de reafricanização dos espíritos e de “reabilitação dos valores nativos destruídos”, no MUD-Juvenil, e que desemboca no Club Marítimo, em 1954;traduzindo-se no discurso de ruptura definitiva pela libertação nacional, a posterior, formulado pelos manifestos de Viriato da Cruz do MPLA, em 1956, e do MAC, em 1958. Depois viria o anúncio da passagem à “acção directa”, pela voz de Mário Pinto de Andrade, na Cãmara dos Comuns em Londres, em dezembro de 1960, dois meses antes da luz libertadora que brilhou naquela madrugada de catanas acesas nas mãos dos intrépidos heróis do 4 de Fevereiro de 1961, dirigidos por Cónego Manuel das Neves, o pai espiritual da decisiva rebelião.
Entretanto, com a morte do pai em 1944, que confirma “era um grande apoio” trabalha até 1947, altura em vai retomar os estudos 4 anos depois da sua interrupção, desta feita já na universidade portuguesa, não existindo ensino superior na então colónia de Angola.
A medicina é uma primeiras opções de escolha do estudante africano que vai estudar para Portugal, a par do direito e da agronomia, valendo-se da circunstancia de garantir maiores possibilidades de emprego, numa sociedade marcada pelo estigma da discriminação racial e social. Por isso passaram Agostinho Neto, Américo Boavia, Diógenes Boavida, Humberto Machado e até o guineo-caboverdeano Amilcar Cabral, seus velhos companheiro de rota, buscando formação superior na capital do império colonial-Lisboa-, ou mesmo Coimbra ou Porto.
Agostinho Neto tratou dos problemas migratórios e trabalhos forçados, vulgo contrato, em parceria com Humberto Machado, colega de Amilcar Cabral.
É mister salientar que, a actividade cultural e politica, ainda que embrionária do Centro termina em Abril(?) 1954 (outras fontes por nós compulsadas falam em finais de 1954, quando do surgimento do Club Marítimo Africano), tendo sido coroada com a publicação em 1953, da primeira antologia colectiva dos PALOP: “ O caderno de Poesia Negra de expressão Portuguesa”, dedicado a Nicollas Guillen, considerada pelos organizadores da colectãnea como “ a voz mais alta da negritude de expressão hispano-americana”.
Entre os antologiados constavam os angolanos Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz, por Segundo recordava Agostinho Neto, um dos antologiados, num “Colóquio sobre a poesia angolana”, por si animado em Lisboa em 1958, em Lisboa (e que contou com uma brilhante intervenção de improviso de Amílcar Cabral, no período de debate):
“Em 1953, publicamos em Lisboa um “Caderno Poesia Negra de Expressão Portuguesa – a sua designação era elucidativa – sob o signo da negritude. Numa atitude de adesão ao homem negro, a sua condição, e tendo por base os traços comuns das culturas africanas, construiu-se um mundo.” Ele reconhece que “ entre nós (intelectuais africanos evoluindo na diáspora em Portugal) combateu-se e defendeu-se este conceito (negritude)”, avançando que “ esta é a poesia do desenraizamento. Os seus mais altos representantes são os poetas negros que se exprimem em francês. Esta poesia não chegava aos povos africanos que são o repositório das nossas culturas. Poesia pensada nos gabinetes de estudo, apenas tinha longínquas ligações com os verdadeiros problemas da realidade social.”
De resto, o intervencionismo desta geração de ruptura rompe com o lirismo da negritude, apelando à passagem a “acção directa” por via das armas libertadoras acesas nas mãos dos poetas, assumidos pelo “lidersheap” do movimento de libertação nacional. “Stritu sensu”, tal circunstância frustra essa tendência contemplativa, quiçá conformista, a julgar pelo grau do seu “engajament”, expressos em textos poéticos como “Carta de um contratado, “Monangambé” (António Jacinto), “Adeus a hora da largada”, “Não me peças sorrisos”(Agostinho Neto), “Namoro” e “Só Santo”. Os lexemas lirismo e libertação coabitam paredes meias, traduzindo a tomada de visão ante a degradação de um homem humilde. Como é o do “Velho Joao”, tributário da rica tradição do ilhéu, ou “Só Santo”, antes abastado na Luanda antiga, vítima do camartelo e remetido para o subúrbio periférico, dada a invasão traduzida pelo povoamento do litoral pelos colonos, desembarcados no porto após cruzarem o Oceano nas caravelas.

A conscientização das realidades culturais e sociológicas africanas vai marcar o processo de afirmação dessa geração literária de Agostinho Neto, que rompe decididamente contra o reformismo da velha geracao protanacionalista e com o “statu quo” do discurso cultural colonial, impondo as vozes poéticas da angolanidade, cujas razizes mais fundas se encontram mergulhadas no húmus cultural da africanidade, em contraposição à portugalidade, formulada a milhas de distância para recusar a matriz originaria de uma identidade africana e duma integridade humana própria do homem (objecto de exploração que quer afirmar-se como igualmente homem-sujeito da história), apesar de tratado como estranho na sua própria terra, por forasteiros a cata desenfreada das suas riquezas e que não respeitam a sua identidade individual e dignidade colectiva, base da sua resistência secular- numa palavra a (re)afirmação do processo diacrónico de identidade nacional, através de uma linha literária discursiva diferenciada da que o ocupante agressor postula, por via da há muito recusada literatura lusotropicalista, cultivada pelos caçadores do exótico.
Em Outubro de 1953 participa no Congresso dos Estudantes em Bucareste,Roménia, debruçando-se mais uma vez sobre as carências educacionais dos seus compatriotas, assumindo tal “dossier” o centro de gravidade das preocupações sociais e culturais do jovem poeta e estudante africano, em representação não já de Portugal, mas de Angola, tais como outros representantes de Moçambique e São Tomé e Princípe, hastearam pela primeira vez as “bandeiras” dos seus países de origem, falando em nome dos seus povos. De resto, assunto assunto que já vinha atravessando constituindo o aparelho conceptual dos seus textos anteriores, quando a maturidade nos finais dos anos 30. Portanto, em finais dos anos 40 e princípios dos anos 50 são decisivos na sua vivencia académica e não, forjando a sua postura intelectual “engagée”, ou homem animal político e demiúrgo da cultura, preocupado com o espaço e o tempo que o cerca enquanto poeta.
Preso pela primeira vez por razões políticas, em 1951, por estar a recolher assinaturas a favor da Conferência de Paz de Estocolmo, sendo então fichado como opositor político do regime colonial-fascita português. Mário Pinto de Andrade que se encontrava em sua companhia a uns escassos metros escapou-se a tempo e horas. À noite no seu leito chorava o seu amigo e correligionário íntimo detidos nas masmoras fascistas, em Lisboa, declamando o poema emblemático, com marcada influencia da negritude, “Adeus à hora da largada”: dedicado à minha mãe, todas mães negras todas mães negras cujos filhos partiram”, reivindicando em surdina o direito à liberdade do seu companheiro de rota.
Em 1954, Neto funda o Club Marítimo Africano, numa osmose cultural entre inlectuais e operários embarcadiços, que sob capa da receacção, organiza e dinamiza a actividade clandestina em torno do projecto libertador em fase embrionária, assumindo-se como um dos líderes do grupo mais interventivo que actuava em Lisboa- conforme testemunho que nos foi confiado pelo seu correligionário íntimo Marcelino dos Santos, em Julho de 1993, em Maputo, aludindo à mobilização política desencadeada no âmbito deste club no Cais do Sodré.
Concluído o curso de Medicina em 1958, efectua uma especialização em medicina tropical, para um melhor conhecimento das doenças que apoquenta as populações angolanas, e regressa à Luanda para dedicar-se à profissão, estabelecendo consultório no São Paulo e no seu BO, onde morava a família alargada, para dedicando assistência médico e medicamentosa à carente população nativa de forma grátis, marcando mais uma vez o seu engajamento a favor da causa nacionalista, consolidada com a participação na fundação do MINA, em 1960, convertendo-se , com Joaqiuim Pinto de Andrade, Pedro Pacavira e o ora finado Domingos Coelho da Cruz, na ala da liderança interna do MPLA, cuja direcção provisória se implantara em Conacry em 1960.
Preso em Maio deste ano foi desterrado para Cabo Verde e depois transferido para a cadeia de Aljube em Portugal, onde viria a evadir-se algum tempo depois em 1962, com o concurso do PCP.
Chegado a Kinshasa toma a liderança do movimento em finais de 1962/63 em Leopoldoville, passando pelo primeiro teste de fogo, enfrentando a dissensão de Viriato da Cruz, por divergências político-ideológicas.
Contudo, o político não eclipsou o homem de cultura durante os 14 anos de luta armada. Bem pelo contrário assume-se como um pensador de cultura, sustentando-a como um acto civilizacional do povo em armas através da luta de libertação, glosando um dos seus “mais inteligentes amigo”( Amilcar Cabral), como deixava entender na conferencia proferida no Universidade da Tanzânia, em 4 de Fevereiro de 1974, ao inserir a estratégia da luta de libertação no âmbito de uma maior valorização dos valores culturais nacionais e o progresso social da nação em gestação; forjada no crisol da luta travada contra o inimigo colonial, demarcando-se de uma solução de compromisso, certo de que os princípios políticos pela liberdade da pátria não se negoceiam, postulando uma verdadeira soberania em que nós somos nós mesmos e donos do nosso destino- a independência viria uma ano e 10 meses depois- a 11 de Novembro de 1975.
Quando em Dezembro de 1975 é proclamada a União dos Escritores Angolanos, Agostinho assume a sua postura mais uma vez de homem de cultura, recordando que a “ Cultura sempre acompanhou o processo da luta de libertação nacional e sempre reflectiu a alma do povo angolano, que quer afirmar-se no concerto internacional das nações africanas bem como à internacional, com uma identidade própria una e invisível apesar da riqueza da sua diversidade cultura, alimentada pelo seu engenho e vigor criativo.
Mais uma vez, a problemática do ensino, incluindo da alfabetização dos adultos, assume um lugar de destaque no seu discurso cultural como sempre, sublinhando que “o analfabetismo é o ‘calcanhar de Aquiles’ para o nosso desenvolvimento, explicando subdesenvolvimento em que então nos encontramos, fazendo-nos lembrar um recorrente posicionamento de pendor nativista., tanto em 1946, no Farolim, como no colóquio de 1958.
A inserção das línguas nacionais no sistema de ensino, bem como na actividade literária no pós independência também está no centro da suas preocupações culturais como cidadão convertido em estadista, afastando para tanto qualquer “preconceito de carácter artístico, línguístico”, inscrevendo na na categoria de escritor não só aqueles que se expressam em português, mas os que valorizem o exercício literário também em línguas nacionais, falada pela maior parte dos falantes que não têm na língua veicular e oficial a sua língua materna, num manifesto rasgo de dinamização das artes bem como da necessidade da democratização da cultura. A profissionalização dos artistas e dos escritores, para que se dedicassem à pesquisa cultural e à criação artística a tempo inteiro, ou pelo menos “em fins de semana activos” foi uma das traves mestras do seu discurso cultural, No fundo, no fundo fundo, um alerta para quem é chamado a aplicar o vasto projecto cultural de regeneração da dilacerada sociedade angolana. A sua narrativa discursava instaurava os termos de um debate necessário e o mais alargado possível, a favor da defesa da identidade cultural local e a dignidade colectiva nacional, por si postulada desde os seus tempos da juventude, em busca de reconversão cultural às raízes dos ancestrais, no âmbito do Movimento de Reafricanização dos Espíritos e não só, bem como da reafirmação da angolanidade embebida na nossa africanidade: “a cultura angolana é africana, mais sobretudo angolana”- repisava o poeta da “Sagrada Esperança” e da “Renúncia impossível” e “… Ainda o meu sonho”, recolha pertinente da UEA dos seus discursos sobre os rumos que a Cultura deveria seguir no âmbito da estratégia do desenvolvimento da Angola independente, abrindo-se cada vez mais oportunidades para as novas gerações se afirmarem, dando mostras das suas faculdades criativas, engenho e talento, nas diversas manifestações estéticas que preenchem e sustentam rico o nosso tão uno quanto diverso imaginário nacional; assente nas nossas tradições mais dinâmicas e voltadas para o progresso espiritual e material de Angola, que tão soube cantar na sua poétca de intervenção social e de indissociável lirismo.
Finalmente, em 1975 cumpria-se o sonho do poeta do regresso à Angola independente e à Angola libertada, não sem antes observar “havemos de voltar/às nossas tradições”, ou seja à valorização da cultura nacional, incluindo a sua literatura, uma das facetas através da qual o país era mais conhecido no mundo, a par da música popular urbana, com o grito do kissange e da dicanza ou a percussão da “pele do batuque”, rasgando definitivamente as grilhetas da opressão colonial.

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