Quando fui a Benguela...

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Pela segunda vez meus pés estacionaram as terras de Ombaka. Benguela, fundada em 1617 era então a designada São Filipe das Acácias. Bem canta Quental "bela mulata/princesa do mar". Sobre as asas das gaivotas, num ambiente sereno e clima ameno, com povo alegre, amigo e acolhedor, rasguei culturalmente seus recantos. " ao ver praia morena/ fiquei a sonhar...".

Com o objectivo de cultivar a arte da declamação e expandi-lo às demais localidades e consequentemente o incentivo a leitura, foi agendado o dia 28 de Julho como data da inauguração do Núcleo Lev´Arte Benguela sob o slogan "Recital Flamingo das Acácias", no Centro Embala Típico na Restinga do Lobito.

Com esse propósito, em função das festividades do sexto aniversário do Lev´Arte, enfiei-me num bus e segui caminho com o meu amigo Zé Isolde Sangama, declamador do Movimento.

Na madrugada de Sábado instalamo-nos numa das várias unidades hoteleiras da Cidade Linda, não fosse constrangimentos com a gerência pelo mau serviço ao cliente, única excessão pois, fomos bem recebidos e tratados nos demais locais que visitamos, teriamos descansado na tarde do dia 28.

A rua da Sé recebeu-nos e instalamo-nos na Hospedaria Oil Center Service. O evento foi marcado para 18 horas, nessa hora decorria na Feira do Livro de Benguela no Largo D´Africa várias actividades, O Catador de Bufunfas de Roderick Nehone estava sendo apresentado por Arlindo Isabel ladeado pelo director da cultura Mário Kagibanga. Reparti-me, uma parte de mim estaria na Feira e a outra em Lobito.

Gociante Patissa, Paula Russa e Martinho Bangula faziam parte da plateia na apresentação do livro, este último transportou-nos rumo a Restinga do Lobito, conhecida como a "Sala de visitas de Angola" é na verdade uma extensa língua de areia, banhada de azulado mar pelos dois lados.

Depois do evento levarteano, decidi tirar um pé de dança na Discoteca Dom Q. bem próximo da Praia Morena, que estava apinhada de exímios bailarinos e bailarinas lindas. A noite mostrava-se mística e sedutora.

Durante o dia cuidei de repousar o corpo para retempero das energias e já no final do dia de Domingo, meus pés correram ao Monumental Cine Teatro, um edifício amplo com palco, camarins e plateia para 884 lugares, é um marco da cidade de Benguela que nasce no início dos anos 50. Assisti a peça "A Lei" do Colectivo de Artes Ombaka. Em conversa com Sincero Muntu, actor, percebi que o teatro está em franco desenvolvimento na província e tem visado o resgate de valores, apesar das dificuldades o grupo tem muita vontade.

Segunda-Feira, meio cansado pois durante a calmia da madrugada colocava a leitura em dia, viagem mística e adorável em Macondo, com os Buendias em "Cem Anos de Solidão" de Garcia Marquez, rumamos ao Museu Nacional de Arqueologia de Benguela, foi muita aprendizagem.

O edifício onde funciona o museu, MNAB, é uma obra do Século XVII/XVIII, onde os escravos eram armazenados temporariamente até serem exportados para América em navios negreiros.

O edifício ocupa um perímetro de 8.000 m2 e foi construído à base de blocos de pedra calcária, de telha Marselha para a cobertura de tecto, portões e gradeamentos de ferro maciço.

Depois do fim do tráfico de escravos, o edifício pertenceu a alfândega de Angola. Em 1976 cria-se o MNAB, para inicialmente conservar os objectos arqueológicos existentes. Pouco depois cria-se uma equipa para pesquisa arqueológica que sob direcção do seu fundador, o arqueólogo conservador Luís Pais Pinto, iniciou as investigações por todo território nacional.

O museu descobriu já cerca de 50 estações arqueológicas para além das 16 já anteriormente conhecidas. Aqui destaco a estação do Dungo (Baía Farta) que é um rio seco onde se encontram carcaças marinhas de vários portes dentre os quais o esqueleto de uma gigantesca baleia com mais de um milhão de anos.

O acervo do museu é composto por 9.147 peças inventariadas nomeadamente: seixos, bifaces, picos, raspadores, machadinhos, lascas, laminas, trinchantes, núcleos, levallois, precuatores, mós, ossos fossilizados e não fossilizados, cerâmica, missangas feitas de concha de ostra, moedas de macuta, etc.

A educação e instrução da juventude tem sido o foco central das sua actividades onde se procura transmitir a importância da actividade arqueológica.

Apreciei com curiosidade a exposição de escavações onde participaram estudantes da Katyava Buila, os vários artefactos líticos expostos são fonte indispensável para a obtenção de informações sobre o passado das civilizações mais longínquas do território que hoje é Angola.

Saudamos a escritora Paula Russa, funcionária do Museu que brindou-nos simpaticamente com o seu recente livro, "Poemas de Amor" e animadora conversa sobre a cultura em Benguela e dos seus trabalhos como arqueóloga.

A sala da Biblioteca foi a última que visitamos e pudemos notar vários estudantes desfrutando o jardim e abraçados pela brisa da morena praia. Seguimos caminho para o edifício ao lado, degradado diga-se, e nos foi informado ser a Escola de Artes.

É na verdade um atelier onde vários pintores expõem as suas obras. Jairo, Jair (com quem conversamos), Ducho e Abiás são alguns nomes de pintores que vimos assinados nos lindos quadros com temas de inspiração variados, e com estilos bem diferenciados.

O atelier fica em frente à Praia Morena, sedutora convidando a um passeio para descontrair, e sentir o embalo da melodia suave do mar. O resto do dia foi reservado para descansar e o encerramos com saboroso jantar no Restaurante Fininho.

Ah como foi gostosa a garoupa grelhada com a aprazível companhia do amigo Bruno, que nos deu o devido apoio com as voltas em Benguela, e esposa! O pequeno almoço foi no restaurante Cassanga e depois da digestão aventuramo-nos na EN 100 rumo a banda, Luanda. Devo dizer que já tenho saudades da "Ombaka dos Matrindindes" como escreve Paula Russa:
...
Sinto saudades
dos matrindindes da Fronteira
dos matrindindes do Cassoco
dos matrindindes do Benfica
dos matrindindes da Camunda...

Até mais um dia mulata linda e aceita os meus versos, "paz e melodia / linda a cidade e a morena envolta no manto do mar/ e a canção das gaivotas sossega o coqueiro em férias/ Benguela mística e artística/ um aceno do flamingo animado no domingo alegre e cultural/ seguro a calmia entre dedos/ e rasgo Ombaka com os londindis de paz/ aka tchafina tchalua e a lua é testemunha/ na calçada da morena praia.

Mulemba waxa Ngola, 01 de Agosto de 2012. 04h11´

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