Romance "Surrealismo do Quotidiano", de Djina: Dos encontros e desencontros do multiculturalismo

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A obra "Surrealismo do Quotidiano", da autoria de Djina, pseudónimo literário de Dina Sebastiana de Sousa e Santos, é para todo e qualquer leitor um estimulante desafio de sobrevivência a um quotidiano como o é o surrealismo.

Romance
António Quino e Djina Fotografia: Paulino Damião

No primeiro contacto com o livro, perguntei-me: que estratégia de leitura devo adoptar para responder a uma inquietação minha, e que espero seja também vossa:
Por que razão julgo que devem ler "Surrealismo do Quotidiano"?
Ao ter sido privilegiado com a possibilidade de ler o presente livro ainda quente, pude tirar algumas ilações que pretendo partilhar convosco como convite à sua leitura.
Inicialmente, notei um conjunto de provocantes contradições: entre o surrealismo e o quotidiano; entre a autora, o narrador e a personagem principal da obra e, finalmente, entre as culturas do país de origem e as do país de destino de boa parte das personagens que dão vida à narrativa.
Permitam-me que inicie a minha apreciação sobre o surrealismo, que dá capa ao livro e emerge sobre os cinco elementos da narrativa, deliciando o narrador, preenchendo a vida das personagens, condicionando o tempo e a acção e ocupando quase todo o espaço da casa onde decorre parte considerável da vida narrada por Djina.
Nesse trabalho literário marcado por uma narrativa objectiva e ao mesmo tempo ficcionada, e em que o narrador, a personagem e a autora se socorrem das mesmas categorias pronominais, é importante que não se negligenciem algumas características marcantes do movimento artístico chamado surrealismo, nomeadamente o facto de enfatizar o papel do inconsciente na actividade criativa, remetendo as acções no campo do irreal ou inimaginável.
Explorando até mesmo um certo mistério, como nos sugere com um poema de Alda Lara, na pág. 153:
Noites africanas tenebrosas povoadas de fantasmas e de medos, povoadas das histórias de feiticeiros que as amas secas pretas, contavam aos meninos brancos...
Mesmo tendo ficcionado, ou aparentemente ficcionado, as personagens são bastante reais, como se descreve num dado momento da narrativa, na pág. 201:
Sabia que a tia vinha por somente duas se¬manas e durante essas duas semanas passaria mais tempo a pousar em frente de espelhos que a tentar familiarizar se com a sobrinha que há muito tempo não via.
Quem de nós não conhece alguém assim, como essa tia aqui descrita?
Ou na pág. 222:

A Ana Bete com a sua infância cheia de preconceitos em Lisboa teve que conformar se e converter se na maioria para ser aceite naquela sociedade; como resultado, incons-cientemente, criou preconceitos contra os seus, ao ponto de criticar o rico sotaque angolano que na realidade era o selo daquela nação.

Quem de nós não conhece alguém assim como essa Ana Bete aqui descrita?
Ou ainda, nas pág. 199, 200 e 201:

Era uma arrogância estúpida a daquela princesa de um país onde não existem famílias reais, nem elites legítimas.
Eu estava envergonhada com a atitude da Tia Rosangela; tanto estilo e não passava de uma escrava da ‘modernidade’, escrava de marcas ‘estrangeiras’, escrava de imagens fúteis, escrava de um status imaginário que ela pensava ter; era uma escrava de ideais que eram comple¬tamente banais! Tinha chegado à conclusão que a tia não era mais que uma mulher enfrascada e artificial e o seu comportamento enervou me tanto que estava disposta a desentupir a sua cabeça com palavras e extrair todas as banalidades que tinham sido enfiadas na sua mente ao longo dos anos.

Quem de nós não conhece alguém assim, como a tia Rosangela?
A meu ver, esse realismo levado ao livro, cria uma maior proximidade com o leitor tipo e multiplica-se como argumento para a comunhão entre obra e leitor.
Ao ler, presumi que Djina nos propõe um discurso que procura dialogar com outras leituras da realidade, essa expressão que André Breton chamou de “automatismo psíquico”, que não é mais do que o desenho físico do funcionamento real do nosso pensamento.
O mesmo André Breton refere que o interesse dos surrealistas está concentrado no desejo, no inconsciente e até na ilusão psíquica. Não é à toa que os vanguardistas adeptos do surrealismo constroem seres exageradamente independentes, bastante liberais, com preconceitos, dúvidas, antagonismos próprios e deixam a reflexão por conta do leitor.
É assim em "Surrealismo do Quotidiano". Nele, percebe-se que há a preparação de um cenário macabro propício para ser habitado por espíritos. E se isso ainda é insuficiente, o leitor poderá encontrar na pág. 12:

A ilha de Wight era conhecida como um dos lugares mais assombrados que há nesse país, com um lugar famoso onde passa um trem fantasma e onde, segundo os rumores, se ouvem vozes do passado...

É claro que enquanto leitores avisados, a racionalidade não nos deixa crer na existência de fantasmas. Curiosamente, os surrealistas defendem que a arte deve libertar-se das exigências da lógica e da razão e ir além da consciência quotidiana, procurando expressar o mundo do inconsciente e dos sonhos. Ou seja, o quotidiano deve ser ultrapassado, não havendo possível casamento entre o surrealismo e o quotidiano.
Então, se um casamento assim dá divórcio, como terá Djina conseguido manter por mais de 230 páginas este dicotómico amante de cartaz?
A obra, subdividida em três partes distintas, mas que se completam, nomeadamente Vidas Trocadas, Vidas Transnacionais e Vidas Emaranhadas, apresenta uma viagem incrivelmente real, com retratos e relatos não distantes do dia-a-dia de cada um de nós.
Uma viagem intercalada por capítulos, como se a autora procurasse buscar fôlego para retomar a escrita, digo viagem, interrompida pelo próprio processo de criação.
Uma viagem pelas visitantes que se fazem hóspedes, pelas enigmáticas vizinhas, pelos cuidados nunca suficientes aos filhos, pela escassa comunhão entre vizinhos, pelo romance ou namoro não assumido por alguns, etc.
Há ainda o conflito entre a mulher que deveria acompanhar o marido, mas que encontra aqui uma trave na pessoa da personagem criada por Djina, como se pode observar nas pág. 32-33:

Nas minhas circunstâncias de mulher do século 21, como podia eu sonhar em abandonar a minha carreira, depois de estudar quatro anos e de batalhar para me graduar? Agora que estava a embarcar numa carreira nova (de estudante de literatura com perspectivas de escrever a minha própria novela) ia abandonar tudo para ser dona de casa na Tailândia enquanto Liam fazia a sua carreira?

Com esse discurso revolucionário, a autora, através da sua protagonista, apresenta uma intervenção em voga no mundo feminista.
Como acima dissemos, essa viagem na narrativa tem como protagonista uma moderna personagem feminina:
dona de casa liberal, esposa liberal e mãe liberal, com profissão liberal e pensamento liberal. Mas, e acima de tudo, uma mulher de fibra.
Há uma passagem na pág. 198 que ilustra isso:

– Eu vim para cá porque quis, não fui enviada como se fosse um pacote ou outro objecto e despreocupe se que estou bastante satisfeita com o papel que decidi...

Mas aí surge uma outra questão:
Quem fala assim? O narrador, a autora ou a personagem?
Tanto pode ser a autora, que se escuda no narrador, ou a autora a esconderse por trás da personagem. Em ambos os contextos, podemos encontrar diálogos intensos entre a autora, o narrador, e a personagem no ponto de vista psicológico e no da mensagem que é transmitida ao leitor. Aliás, num excerto da pág. 114, a autora baralha a fronteira de responsabilidade entre os três:

Era sempre bom encontrar alguém que compartilhasse algo contigo. Como era de prever, entramos numa viagem literária e falamos sobre livros, novelistas, enredos, personagens; penetráva ¬mos na mente uma da outra, scaneávamos os nossos gostos.

Quem fala assim? O narrador, a autora ou a personagem?
Não estará a autora a enviar um recado aos seus potenciais leitores sobre o que espera de nós, escudando-se na asserção da sua querida personagem?
Digo querida porque comparando a biografia da autora ao perfil da protagonista do livro, se fica com a nítida impressão de se tratar de uma autobiografia ficcionada. Dito doutro modo, pode parecer que a personagem foi utilizada como a voz da autora perante o mundo.
Aliás, não é sempre que a autora e a personagem comungam em tantas similitudes. Sobre isso, apreciemos ainda mais um outro excerto da obra, napág. 222:

A minha ambição intelectual fez com que des¬leixasse um pouco as minhas raízes culturais. Sentia que desconhecia muito acerca do lugar de onde vinha. Se o problema da Dona Margarida era que ela não enfrentava o seu futuro o meu era que eu não encarava o meu passado e passava a ser uma estrangeira no meu próprio corpo.

É possível que entre os presentes, que lidam com a Doutora Dina Sebastiana de Sousa e Santos, possa haver alguém que encontre um pouco dela nesse excerto. Ou num outro.
Por exemplo, não será curioso o carinho que Djina e Jasmin, ambas mães e cidadães transculturais, nutrem pela literatura, pelo prazer em criar novas vidas, como se poderá observar na pág. 171:

Enrolei me num mundo de investigação para criar os meus novos personagens. O bom do mundo criativo é que para criar caracteres de ficção só tem que se olhar para os lados; a vida era a maior inspiração e a meu ver, o dia a dia, tinha protagonistas, heróis e heroínas cujas vidas podiam ser transportadas para a ficção e transportadas para qualquer parte do mundo e postos nas situações que o escritor bem quisesse e entendesse.

Quem fala assim? O narrador, a autora ou a personagem?
Essa inconfidência na exposição do inconsciente é comum na narrativa surrealista, quando o autor, ou narrador, exibe o seu excedente de visão sobre as personagens.
Embora no seu texto A morte do autor, publicada em 1967, Roland Barthes nos tenha sugerido que a alegoria mais ou menos transparente da ficção seja sempre, afinal, a voz de uma só e mesma pessoa, do autor que nos entrega a sua "confidência", a vanguarda surrealista contribuiu para desmistificar a imagem do autor.
Essas impressões não são, nem devem ser, estanques, pois o leitor é por natureza um unificador dos traços identitários de uma obra para a atribuir sentido. Aliás, a ditadura do leitor provoca a destituição integral do Autor.
E o autor passa a ser um mero leitor.
E se em algum momento a autora pretendia dizer algo ao leitor por meio da personagem, a mensagem ficou reflectida num outro excerto que partilho aqui, retirado da pág. 181:

Beliscava me por vezes porque queria separar a ficção da realidade, queria que milagrosamente os horrores ficassem presos nas páginas dos meus livros e de lá nunca saíssem. A vida era para ser apreciada com alegria, ninguém merece sofrer, muito menos fazer os outros sofrer, mas a realidade muitas vezes consegue ser mais cruel que a ficção.

Já na recta final, novamente interrogo: Por que razão julgo que devem ler "Surrealismo do Quotidiano"?
Com efeito, na escrita moderna, tudo está por deslindar, pois nada está ainda definitivamente inventado. O inventor é o leitor. O inventor é um ser insatisfeito por natureza. Incompleto e imperfeito.
E é com esse leitor, incorrigivelmente curioso e insatisfeito que deixo a responsabilidade de descodificar ou decifrar a relação entre a casa da protagonista, uma viúva de um soldado, o fantasma, a alma dispersa e o livro que a moderna mulher um dia decidiu escrever.
Como disse no início, é este estimulante desafio de sobrevivência a um quotidiano que deixo aos potenciais leitores aqui presentes. Aos que lerem, poderão observar como se recupera o fôlego em quotidianos como o de Luanda dos engarrafamentos intermináveis.
Quem ler o livro, editado pela Chá de Caxinde, com a sua própria estratégia de leitura, destituindo Djina do posto de mãe criadora de Jasmin, estará em condições de deslindar muitos outros novelos.
Antecipadamente, desejo boa leitura.

Sobre a autora
Djina, pseudónimo literário de Dina Sebastiana de Sousa e Santos, é professora de Sociologia num Colégio no sul da Inglaterra. Teve uma infância transcultural – estudou em escolas de diferentes na¬cionalidades: cubana, angolana, portu¬guesa e várias inglesas.
Licenciou¬-se em estudos espanhóis e portugue¬ses, fez mestrados em Marketing e Transnacionalismo.
Doutorou-se em Antropologia. Leccionou História e Política Latino-Americana na Univer¬sidade de Southampton.
No presente é mãe, orgulhosa, de um filho euro-afro-caribenho.

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