Ruy Duarte de Carvalho: Vou lá visitar pastoras

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A mulheres Kuvale não está totalmente pré-definida.

Ruy Duarte de Carvalho: Vou lá visitar pastoras
Bebé kuvale Fotografia: Eric Lafforgue

Ruy Duarte de Carvalho nasceu em 1941, na cidade portuguesa de Santarém. Naturalizado angolano na década de 1980, passou parte da infância em Moçâmedes, na província do Namibe, tendo regressado à terra natal para frequentar o curso de regente agrícola, que concluiu em 1960. A sua profissão permitiu que percorresse as grandes regiões angolanas, adquirindo conhecimentos das práticas agro-pastoris tradicionais, também chamadas de subsistência. Doutorado em Antropologia Social e Etnologia na École des Hautes Études de Sciences Sociales, de Paris, Ruy Duarte de Carvalho publicou, já em 1999, a obra Vou lá visitar pastores: exploração epistolar de um percurso angolano em território Kuvale (1992-1997).
O livro retrata as viagens do antropólogo, durante vários anos, pelo território da etnia pastoril Kuvale, uma vasta área que se estende para Sul, passando além do meridiano de Namibe (a antiga Moçâmedes) até às margens do rio Kunene. O dispositivo adotado pelo escritor é engenhosamente ficcional: consiste na suposta transcrição de uma coleção de cassetes nas quais o narrador relata as suas anotações de campanha, pressupondo um interlocutor virtual num amigo jornalista que se atrasou na visita ao território. A penetração de Ruy Duarte de Carvalho nas terras, gentes, e costumes Kuvale, torna-se na própria matéria do livro, levando-nos a compreender a essência singular destes pastores nómadas e das paisagens que habitam.
Assim, o espaço do deserto do Namibe é descrito como local produtivo, economicamente viável nas formas de ocupação efetuadas pelos Kuvale - também chamados “Mucubais”, designação externa ao grupo, decorrente do tempo do colonialismo. De acordo com Ruy Duarte de Carvalho, a sociedade Kuvale é uma das mais antigas a sobreviver aos períodos colonial e pós-colonial com o mesmo sistema cultural. O que é mostrado ao leitor é o deslocamento dessa população, a sua complexidade social e o isolamento a que foi relegada.
O nosso olhar, porém, centra-se no lugar das mulheres, no seu desempenho e na sua colocação social dentro da comunidade Kuvale. Em Vou lá visitar pastores Ruy Duarte de Carvalho preocupa-se com a questão feminina nos capítulos “Bumbo – onde o assunto é casar…” e “Lute – e se fala é de mulheres”. O autor admite que o seu ponto de vista é marcadamente masculino, uma vez que nunca inquiriu diretamente junto das mulheres. Ainda assim, no primeiro capítulo a que fazemos referência, apresenta-se o caso de um indivíduo Kuvale, de nome Batupo, que se prepara para o seu terceiro casamento. Relativamente aos matrimónios, o antropólogo observa que, entre os Kuvale, aumentaram de forma significativa devido à fuga constante das mulheres aos maridos, já não respeitando as ordens dos pais e dos tios, preferindo deslocarem-se por conta própria às cidades para efetuar comércio.
Neste caso, se o homem se sentir abandonado e começar a dormir com as mulheres dos outros, terá que dispor de animais suficientes para pagar a respetiva multa de infidelidade exigida pela comunidade. De maneira inevitável, os bois representam o pivô de todos os acontecimentos que afetam estes pastores, o mesmo se passando em relação às mulheres Kuvale. Ilustrando o facto, Ruy Duarte de Carvalho alonga-se sobre o casamento de Batupo com a sua primeira mulher, demonstrando a importância da circulação de gado no contexto das alianças e separações matrimoniais.
Aqui ficamos a saber que a primeira mulher de Batupo, para poder voltar a casar, divorciou-se de um outro Kuvale. Por isso, Batupo já tinha pago uma multa em bois por dormir previamente com ela, conferindo esta circunstância um estatuto à relação que mantinham. Por outro lado, e de acordo com Ruy Duarte de Carvalho, nos Kuvale um divórcio raramente se encontra associado a questões de ciúme. A maioria das vezes são as próprias mulheres que desejam revelar as situações extraconjugais, porque o ciúme, ou a denúncia por parte do homem, é mal visto. Como diz o Kuvale Batupo “não há muito ciúme porque as pessoas te fazem pouco, te perguntam você pensa que mulher é quê, você anda a desprezar os teus bois só para acompanhar essa mulher, você deve mas é aguentar a sua riqueza porque a mulher hoje está contigo, amanhã vai embora com o teu ahumbene (pessoa da mesma faixa etária), e se abandonas os teus bois só a chorar e a acompanhar essa mulher amanhã, vais ver, também não tens mais bois” (CARVALHO:237).
A lógica das multas pagas em gado a partir destas situações estende-se aos casos de violência conjugal ou aos direitos sobre os filhos de casais em conflito, desentendimentos que, como podemos ler no capítulo, fazem correr muito boi. No final de “Bumbo – onde o assunto é casar…”, Ruy Duarte de Carvalho reconhece que a fluidez destas práticas sociais, envolvendo a questão feminina relacionada com o pagamento de multas, é tão intrincada e vasta que um observador externo nunca poderá dar inteira conta do seu processo.
O assunto da condição feminina Kuvale é aprofundado no capítulo “Lute – e se fala é de mulheres”, onde o autor salienta que, entre os Mucubais, a opinião das mulheres se manifesta em todas as circunstâncias, levando o antropólogo a concluir que a situação das mulheres Kuvale é de franca vantagem relativamente a outras mulheres situadas em contextos urbanos ou peri-urbanos. Em África e não só, o domínio e abuso masculino, muitas vezes assente no tribalismo, é seguramente mais marcante, despoletando casos de maltratos, descriminação, mutilações, ou recurso à prostituição.
Entre os Kuvale, à mulher está imputada uma função produtiva, o que não acontece em todas as sociedades pastoris, nas quais, frequentemente, lhes cabe o papel exclusivo de procriadoras. Todavia, além da reprodução biológica, a mulher ocupa uma posição chave na sociedade Kuvale, levando Ruy Duarte de Carvalho a declarar que “as mulheres daqui estão plenamente conscientes disso e não precisam de receber lições de ninguém acerca das estratégias que lhes convém ou compete desenvolver nesse contexto. E quando as condições tendem a alterar-se, como vai acontecendo, elas sabem também resituar-se em relação a elas” (CARVALHO: 250).
Não obstante, autor reconhece que, por certo, haverá lugar a queixas coletivas da parte das mulheres, podendo verificar-se uma razão feminina contra uma razão masculina. Mas, segundo Carvalho, essa razão é expressa relativamente ao que as pastoras entendem como o quadro das suas colocações normalizadas e culturais: “É neste quadro que elas situarão as suas razões e, talvez mais importante que isso, poderão encarar a margem de livre arbítrio das suas opções e lançar mão dos instrumentos que a sociedade lhes faculta para afirmar e defender a sua liberdade e a sua dignidade de pessoas e de mulheres. Imagino mais imediatamente aqui queixas de mulher contra o domínio de outras mulheres do que contra o domínio institucionalizado e mediatizado dos homens” (CARVALHO: 250).
Neste âmbito, as mulheres Kuvale questionam a sua identidade tanto no interior da comunidade como no relacionamento com o dito “mundo civilizado”. Elas tentam redesenhar padrões de comportamento no sentido da subversão das expetativas que lhes são atribuídas através do domínio masculino. Exemplo disso, reportando-se acerca da ligação das mulheres Kuvale à prática da agricultura, Ruy Duarte de Carvalho observa que esta continua a ser considerada implícita ao seu desempenho social. Porém, o antropólogo denota que as mulheres de idade ativa investem-se, por conta própria, noutras indústrias, nomeadamente a fabricação e comércio de bebidas alcoólicas, o que abre caminho à posse de gado e à intervenção nos grandes circuitos socioeconómicos.
Assim, algumas delas quebram a norma, impondo-se como “reputadas mulheres ricas, com gado espalhado por mãos de tios, irmãos, sobrinhos e mwingonas (filhos a quem se dispensou bois para ajudar no princípio da vida)” (CARVALHO:257). Com efeito, estas mulheres Kuvale escapam à prática agrícola que lhes é destinada, deslocando-se ao Namibe e ao Lubango a pretexto de vender óleo de mupeke, regressando cheias de panos para si e para os filhos, aliviando a sua dependência em relação aos maridos.
Por fim, a leitura de Vou lá visitar pastores torna óbvio que a condição das mulheres Kuvale não está totalmente pré-definida ou estabilizada, revelando uma inquietação identitária em busca permanente. Desta forma, o texto de Ruy Duarte de Carvalho participa da necessidade de se pensar as identidades que constituem o Estado-Nação angolano. Através deste livro - eivado de uma prosa poética que o autor costumava descrever como exercício de «meia-ficção-erudito-poético viajeira» -, tomamos consciência que compreender a identidade Kuvale é compreender a sua inserção na história da construção de Angola.
Paulo Branco Lima

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