Sombras do Passado de Barros Neto

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Escrito no Dundo, em 18 de Outubro de 1977, o livro Sombras do Passado, espraia-se por 191 páginas, organizadas em 4 partes e 50 trechos narrativos (ou capítulos).

Sombras do Passado de Barros Neto
Barros Neto Fotografia: Paulino Damião

Tem um prefácio, que nos mostra, desde logo, o trágico destino do personagem principal, Maria Ka Ndimba.
Começando por analisar a forma como o texto transmite a visão do mundo envolvente, constatamos que Sombras do Passado, de Barros Neto, oscila entre a narrativa de ficção e a narrativa de factos. A função referencial ou informativa do discurso é muito forte, numa opção pela descrição ou explicação do tempo histórico, por parte do narrador, o que nos remete para um romance histórico, com descrição de factos e personagens reais da História Colonial, mas cuja acção central é dominada pelo elemento ficcional, com personagens inventados. O estilo literário apresenta estruturas do modelo clássico dos precursores literatura angolana, nomeadamente Óscar Ribas, pelo tom da língua cuidada, na narrativa e pelo casticismo dos diálogos. Enquadra-se na linha do romance de costumes, à maneira de António de Assis Júnior, pela descrição dos ambientes populares e pelo registo das manifestações culturais tradicionais. Em determinadas passagens, nota-se um primoroso cuidado com a língua digna de um Eça de Queirós. A evocação que se faz da cidade capital, “Luanda, terra maldita, que devoras os filhos, donos da terra, onde escondeste o meu marido!? Por baixo da terra, no fundo do mar ou feito em cinzas para estrume?” faz lembrar um trecho do Novo Testamento.

Passemos então, a dissecação das cinco categorias que enformam a narrativa, a saber: Acção, Espaço, Tempo, Narrador e Personagens.

Quanto à acção deste romance, ela se desenrola em torno de um CONFLITO aberto, uma luta entre forças opostas, as forças do colonialismo dominante em Angola e as forças dos independentistas. O grande conflito é um conflito externo, entre colonizadores e colonizados, mas assiste-se também a alguns conflitos internos ou psicológicos, em que os personagens lutam consigo próprios, em busca de soluções. Trata-se de um conflito social e político, mas também se nos depara um conflito elemental (luta contra os elementos da natureza), e ainda se assiste a um conflito transcendental (porque o principal oponente de Maria Ka Ndimba, o personagem principal, é o próprio destino, como veremos). Há, ao longo de todo o romance, um permanente conflito ideológico e um conflito moral (pois que, devido à beleza de Maria, ela é confrontada com o assédio permanente de vários homens).
Como é que se lê a sucessão e o encadeamento dos acontecimentos, em torno do personagem principal? A narrativa persegue uma sequência linear dos vários acontecimentos, que simplificam a diegese, ou história.
O seu ponto de partida é o próprio nascimento de Maria Ka Ndimba, em 1941, num navio a vapor que circulava no rio Kwanza e num dia de intensa trovoada, atracou no embarcadouro da vila do Dondo. Como podemos ler:
“Naquela manhã quando o barco, vindo do Bom Jesus, atracou no porto fluvial do Dondo, poucas eram as pessoas que se encontravam à beira do rio, à espera dos familiares. Chovia torrencialmente e, embora os poucos relógios de kafucolo marcassem as dez da manhã, a atmosfera, contudo, pintava o ambiente de um colorido crepuscular.
Pé ante pé, os passageiros – na sua maioria kitandeiras que percorriam as Margens a procura de negócios: bagres, nbinji ia tanda , cacussos, abóboras…. - iam chegando às casas, açoitados pela chuva e pela ventania. D. Kabasa, porém, mal o vapor atracara, dava à luz uma menina. Quanto ao nome, a mãe impôs a sua vontade: Maria. Em relação ao apelido, aí o povo foi soberano: Ka Ndimba, ou seja, a esperta, já que – dizia-se – com o seu nascimento, tanto ela como a mãe tinham conseguido escapar das intempéries daquela chuva torrencial.”
O autor introduz logo na primeira parte uma intriga, composta de incidentes que vão formatar a acção ao longo de toda a narrativa. O primeiro incidente é o assédio por parte do Colono Olivares, reguenguês de Monsaraz, que, como os demais, tinha sido apanhado e enviado a Angola, para contribuir para a expansão do «povoamento português».
Maria Ka Ndimba era lavadeira de Olivares. Um dia, este tenta forçá-la a fazer sexo, a lavadeira desfecha-lhe um golpe de garrafa no crânio que o deixa estatelado na sala. Ela foge, mas é apanhada pela PIDE e conotada como terrorista. A partir deste incidente se desenrola toda a curta vida deste mulher, que o próprio colonialismo força a entrar para a clandestinidade.
Como o narrador insiste em referir, “A sua má sina, porém, perseguia-lhe incessantemente. Tudo que arquitectasse, desfazia-se logo em fumo, por vezes mesmo depois de uma arrancada promissora.
Em toda a sua vida só o sofrimento e a perseguição se apresentavam em seu caminho.
Ka Ndimba era filha da desgraça e por onde passasse acabava sempre por deixar réstias de apuros.”
Estas considerações do narrador, explicam o conflito transcendental que Maria enfrentou na vida. Uma luta tenaz contra o próprio destino.

NARRADOR

Antes de prosseguirmos com a análise desta categoria da narrativa (a acção), permitam-nos que façamos um pequeno desvio, para dizer que o narrador desta estória é um narrador heterodiegético, que se situa fora da acção interna do romance, e, na sua ciência, é um narrador omnisciente que tem acesso ao interior das personagens, assim como aos eventos passados e futuros. Faz uma análise das acções, dos comportamentos, dos sentimentos e dos pensamentos das personagens e é mesmo subjectivo, pois debruça-se sobre as situações que está a relatar emitindo opiniões e julgamentos ou elogios, e expressando uma certa pena perante o sofrimento de Maria.
Ora leiamos: “Foi no fofo assento daquele turismo novinho em folha, cheio de música, que Donana ficou completamente admirada com a atitude de Ka Ndimba. Um homem destes, cheio de dinheiro e de poder, com carro e tudo à disposição não ser aceite! É certo que a fama corria em como ele era grande bufo; mas nesta vida estava bem provado que só os “vivos” conseguem um lugarzinho ao sol. Aliás, qual era o indivíduo que, dispondo de tudo e de mais alguma coisa, nunca sugou o sangue ou o suor de outrem?! Todos os que ostentam uma barriga bem cuidada e bocas com sorrisos à pepsodent, são pessoas que conhecem bem a técnica do rato: roer, soprando. Aqueles que sempre pretenderam levar uma vida recta, coerente com os seus princípios, barrando as suas ambições aí onde começam os direitos alheios, caminhar pelos atalhos da existência humana sem empurrões e sem calpestar os demais, jaziam agora estatelados na mais triste miséria, transformados em cloaca de uma sociedade em que só os manhosos conseguem brilhar.”

VOLTANDO À ACÇÃO
Voltando à acção, temos perante os olhos um texto narrativo com vários incidentes, que envolvem outros personagens, cuja ligação com a acção central, é o facto de todos eles estarem irmanados na mesma luta contra o colonialismo. É o caso dos mais velhos de Luanda que constituem o Grupo Seis. Como é que chegamos a Luanda? Chegamos a Luanda, na viagem que Maria Ka Ndimba fez, de comboio, com a amiga da mãe, a velha Malonga. É que, depois de presa no Dondo, o administrador Zagaló constatou que Maria não era nada terrorista e descobriu a careca do patrão ferido na cabeça. Então, vendo o petisco natural que era Maria Ka Ndimba, solta-a da prisão, na condição de esta servir na sua casa como empregada e aprender as letras para um dia ser uma bessangana. Só que, em casa de Zagaló já trabalhava o cozinheiro Salvador, ou Kota Maji, que era um clandestino, ex-militar da Tropa Indígena regressado um dia da Índia. Solteiro maior, resolve desposar Maria, destroçando assim as ambições de Zagaló, colono, e de um abastado senhor do kimbo, Nga Fuxi, que também queria Maria. Zagaló, pressionado pelo chefe da PIDE, o Costinha, desencadeia uma perseguição contra Salvador (Maji) e, num dia de rusga intensa, este é preso e recambiado para as cadeias de Luanda. Como se lê: “um novo fermento, o descobrimento do direito dos povos africanos à liberdade e dignidade, invadira o cérebro de todos, mormente daqueles que, nas escolas coloniais ou nas bancadas missionárias, tinham acabado por adquirir algumas luzes no papagueio do “a,b,c,d…”.
Na sanzala, as mulheres metiam conversa:
“- A conversa que a mana Ka Ndimba alevantou, quanto ao filho da mana Muturi – interveio Mabunda, controlando com olhar fogoso o grupo postado em semi-círculo – é a seguinte: na semana que acabou, mana Muturi tinha recebido o filho dele que ´stava a ´studar na missão de S. Paulo. Quando chegou em casa, em vez de ficar mbora calado, não senhor. Começou a falar nas pessoas que aviões tinham parado em Luanda com muitos brancos outros vestidos, outros mesmo nú-nú, que fugiram do Congo. Disse que ver, assim, os colonos belgas, dava mesmo muita pena! Disse também que o nosso presidente Mulumba-Wa’Zaboba, vai vir também aqui in Angola fazer a guerra porque a guerra da “mipendência”, que começou lá, também vai chegar aqui e a gente vai ficar mbora dono da nossa terra; tua ndo biluka kia mindele! A gente também vai ter já boa vida!
- Mana Dikota, - interpelou-a Ka Ndimba que, toda curiosa, seguia o fio da conversa - mas então com a guerra aqui e tudo o mais, a gente também vai morrer ou quê!?
- Não mana. As pessoas não vale a pena terem só medo; alguns que têm azar podem mesmo morrer mas outros não; a “mipendência” não mata ninguém porque é boa coisa. Tua ndo diota o mubika ia kaputu eh! – vamos enterrar o jugo da opressão colonial!...”
É assim que viajamos de comboio com Maria para Luanda. Mas, antes de deixarmos a vila às margens do Kwanza, assistimos ao desenvolvimento industrial e energético do Dondo, onde se constrói a barragem de Ka Mbambe e algumas fábricas. O Dondo florescia numa “corda-bamba da «nova civilização» que se impunha com todo o vigor e onde o dinheiro era a chave-de-volta. (...) O Kwanza, qual elefante mortalmente ferido, jazia agora inofensivo, sob o capricho do caçador. Encurralado num beco estreito, despejava brutalmente todo o enorme potencial das suas pesadas águas sobre um plano inclinado na raiz do qual possantes máquinas geradoras esperavam pachorrentamente a altura de começar a bailaricar para produzirem a tão almejada corrente eléctrica que iria movimentar um sem número de indústrias, ligeiras e pesadas, que por sua vez iriam abarrotar os bolsos dos grandes senhores do capital que hoje, naquele dez de Junho, sorriam, espalhando aqui e acolá palavras de entusiasmo com palmadinhas de bons negócios à vista. Eram esses os senhores do capital (...).
Luxo de roupas, luxo de perfumes, luxo de luzes, luxo de comida e também de bebidas, luxo de bocas com pedaços de dentes doirados com bochechas e olhos de homens e mulheres supernutridos, com gestos de embriaguês luxuosa de gente que tudo valia porque muito tinha.”
Em Luanda, Maria Ka Ndimba vai à procura do seu marido, sem êxito. Depara-se com o famigerado Poeira, da PIDE e este era implacável com as “esposas dos terroristas”. Nunca mais viu o marido, entretanto transferido para S. Nicolau. E de Luanda., também o narrador omnisciente nos dá conta das tentativas de Salazar, então Primeiro Ministro de Portugal, de travar o avanço da luta independentista. Assistimos à chegada do Batalhão de Caçadores Especiais, marchas da Mocidade Portuguesa, rusgas e confrontos armados no musseque. Assistimos à acção dos grupos clandestinos, distribuição de panfletos. Era já o prelúdio da libertação definitiva de Angola.
Em Luanda, surge-nos neste filme um personagem sombrio, o Titino, bufo da PIDE, e mulherengo de alto coturno. Maria volta a correr perigo. A conselho da amiga em casa de quem vivia, a Donana, Maria Ka Ndimba regressa ao Dondo,.
Posta no Dondo, a PIDE redescobre-lhe os passos. É então que leva uma vida atribulada, de fuga em fuga, pondo a vida de quem a apoiava em grande perigo de morte, chegando o cão Vale quem Tem a morrer de tiro, na tentativa de defendê-la. A última fuga é para Ka Ndanji. Nesta sanzala, cria, com a prima e o marido que a haviam acolhido, um grupo de revolucionários clandestinos. A PIDE cheira o perigo destes infiltrados. Após quase um ano escondida na acção revolucionária para honrar a memória do marido desaparecido, o cerco se aperta (havia muitos informadores entre a população) e ela resolve por fim à vida, atirando-se dum penhasco pelo rio Kwanza adentro. Assim termina a vida deste heroína do povo angolano, de seu nome Maria Ka Ndimba.

VALORIZAÇÃO LINGUÍSTICA
Temos aqui uma acção fechada, resolvida até ao pormenor, no espaço geográfico de Angola, concentrada na vila do Dondo e na cidade de Luanda. Há a descrição do espaço social vigente, com classes sociais estratificadas, onde ser cipaio das forças coloniais era uma forma de safar na vida e a apresentação do espaço cultural, com a valorização da tradição etno-musical e linguística do povo angolano e dos seus interlocutores coloniais (aqui satirizados por falarem mal o próprio português), como se pode ver nestas passagens:
“ Qui há, ó homim, cum esses arrapios da manhã? Boxê é a xirena das genti in dia di festa ou que?!” – interveio o polícia do bate-papo com o maçarico Sobral. Entretanto aproximou-se o “nosso primeiro cabo” e, num gesto de repugnância, recebeu o papel que bailaricava nas mãos do homem detido.
-“Turra!” Seu “turra” descarado! “Turra!”… - repetia o cabo, todo ele verde, sentindo o seu trabalho de uma noite inteira em claro ir-se água abaixo, por um mísero panfleto.
- “Turra, turra!” Seu “turra” de merda!... – continuava, fora de si, espumando raiva, remoendo os dentes.
“Xeu cão da mierda! Intão a genti a butar xola no alcatrão toda a noute, chem tapar ólio e tu, pacóbio, a turbar-nos o xerbicho!?” – interpelou-lhe, furioso, o cacimbado “PM”, Duarte.
“ Não, sô guarda. Faz só favor! Eu vou contar toda verdade!”
“Berdadi, berdadi; xabeis lá bois o qui xão berdadis?! O que boches xão é uma cambada de “turras” com cabechas de macaco. Filho duma mula! Hás-de mos pagar caro tão xanta oujadinha!”
“ Sô guarda, juro mesmo cum Deus! Não sou eu que fiz mbora os papéis; incontrei a itexi na Venida. Ai Nossa Senhora! Perdão!” – exprimiu, dolorido, “Xupa”. A resposta foi uma chuvada de casse-têtes, rasgando-lhe o corpo semi-sonolento.”
E nesta outra passagem:
- Mas então, mano Xico, como é que eles vão prender as mulheres ou famílias dos presos? Eles têm lá alguma culpa disso tudo!?
-Mana - interveio o cipaio, forjando nos seus lábios um largo sorriso para responder com uma frase que ouvira tanto da boca do administrador que acabara por aprendê-la até de cor: - a guerra é guerra e por causa de uns todos pagam! – e prosseguiu, por conta própria: “as mulheres e mais outras pissoas qui vai visitar os presos começam a pôr papeles nas cuesas dos presos e começam falar muintas cuesas porobidas que os turas acostumam fazer. O sô administrador antão viu isto e ficou mbora fodido; agora não é mais cumo dantes. As mulheres daqueles presos que é mesmo tura de verdade já não intregam mais cuesas nos presos e mesmo cada vez vão também ser apanhado proque o mais velho disse que custumam a se meter nas makas que falam é lelução”.
Portanto, através mesmo dos diálogos, descortinamos o tempo histórico do romance que narra uma aventura enquadrada num determinado período da História de Angola e da África.

DA PERSONAGEM PRINCIPAL
Maria Ka Ndimba surge-nos como uma personagem modelada ou ­redonda. Maria é uma mulher dinâmica, capaz de alterar o seu comportamento, de acordo com as circunstâncias. Ela evolui psicologicamente ao longo da acção e apresenta uma grande vida interior, surpreendendo o leitor pela sua coragem em preferir por fim à vida, do que entregar-se à prisão da PIDE.
“Ka Ndimba era o anjo, era a paz na sanzala. Muitos homens gostavam dela mas ninguém tinha coragem de lhe falar directamente para se amantizarem porque tinha muita força nos olhos: parecia filha de feiticeiro. Uma pessoa não podia lhe ver muito na cara dela, ficava mesmo tonta, tão linda era ela e tão esperta! (...)
Ka Ndimba, sim! ? mulher de coragem. Parte a cabeça do colono quando é necessário, apanha tareia do colono quando é necessário, entra na prisão do colono quando é necessário, sai da prisão do colono quando é necessário. Sim; ela é mulher de sofrimento mas também de muita coragem! Como é que as pessoas neste mundo podem mesmo ser assim?! – concluíam, admiradas.”

A RESOLUÇÃO DO CONFLITO
“Neste clima de lutas e perseguições, Ka Ndimba achou-se encurralada. Avaliou a situação e verificou que só lhe restavam duas vias a seguir: deixar-se aprisionar ou ela, como dona da própria vida e do próprio destino, pôr voluntariamente termo à sua existência.
(..) O sol avançava triunfante sobre o horizonte quando Ka Ndimba, num passo seguro, pôs-se a caminho, uma grande trouxa à cabeça e demais imbambas pessoais nas mãos, como se estivesse a efectuar uma viagem, sem regresso. Cabeça erguida e senhora das suas faculdades, caminhava, tranquilamente.
(...) As crianças já tinham sido pisadas no peito e nas costas pelas vavòs, para afugentarem delas a mulumba , e dentro em breve enfiariam os seus calções para regressarem às casas. Foi quando Ka Ndimba, mergulhada nos seus panos, lançou-se ao rio, num abraço imortal, ultrapassando a ­barreira da opressão com o grito de liberdade nos lábios e no coração.”

CONCLUSÃO
A primeira grande lição histórica que se extrai desta obra é a ampliação que ela faz do conceito e da imagem do HERÓI NACIONAL. Maria Ka Ndimba representa a desmitificação do conceito de Herói. A ampliação estende-se à franja menos reconhecida da sociedade, a Mulher. E é aqui a Mulher camponesa, analfabeta, sem noção de filiação partidária. Trata-se do herói anónimo, que ficou sem rosto e sem nome nas páginas da História da Luta de libertação.
A segunda grande lição entronca no estudo da História Comparada. Há no romance incidentes, como aquele da tentativa de violação por parte de Olivares, que hoje ainda são protagonizados no nosso país, num momento em que o colono já não está connosco. A mulher sempre foi o elo mais fraco da cadeia social. Por isso, há que reflectir hoje em dia sobre o que é próprio da dominação colonial e o que é próprio da essência predadora do próprio ser humano e procurar, através da análise de obras como esta, libertar e ajudar a libertar o homem angolano de certos estereótipos em relação à mulher. A Mulher Angolana, neste país independente, ainda é oprimida. Não já por uma força política dominadora, mas devido à própria mentalidade machista e amoral de muitos homens angolanos. Há violações de mulheres nos quimbos, com a conivência de certos sobas. Há violações de meninas familiares de esposas nos lares de Luanda. Há violações de mulheres um pouco por toda a parte. Há táxis de vidros fumados que raptam e matam mulheres nos musseques. Viola-se até meninas de 3 anos de idade. E para conseguir emprego, certas mulheres são assediadas sexualmente, como todos sabemos.
Por isso, o título da minha comunicação destaca bem essa má sina que persegue a Mulher angolana e Africana em geral. A terceira e última conclusão é-nos inspirada pela História Comparada. Este livro serve de espelho da nossa própria consciência social agora independentes. A leitura da literatura anti-colonial à luz da realidade contemporânea e liberal, provoca no leitor um misto de emoção e perplexidade. A emoção resulta da revisitação da consciência libertária dos colonizados, mesmo sabendo que, no momento, estavam a lutar contra um inimigo todo-poderoso. A perplexidade advém de, na nossa qualidade de leitores desta de Barros Neto, podermos dialogar com o colonialismo e meditarmos sinceramente no que nos estamos a tornar hoje em dia. Será que nos tornamos naquela “gente do Dondo, que tudo valia porque muito tinha”? Onde está, depois de tanta luta, o novo homem angolano?
DOMINGOS FERNANDES DE BARROS NETO nasceu no Cazengo, Kwanza-Norte, em 1945. Viveu a infância no Dondo, e, ainda criança, parte para Luanda onde conclui o ensino primário e, de seguida, o liceal, nos Seminários Capuchinho e Diocesano. Em Itália cursa filosofia. Já em Angola e após a independência, conclui o curso de direito, na Universidade Agostinho Neto.
Foi professor do ensino secundário em Angola (Luanda, Bailundo, Huambo Saurimo e Dundo) e trabalhou na Embaixada de Itália, em Luanda, como tradutor, assistente comercial e adjunto da área de cooperação universitária italo-angolana.
Actualmente dedica-se à advocacia e a actividades de sistematização literária, tanto estrangeira como angolana. Publicou uma obra poética intitulada ULUNGU e um livro de reflexões, ensaios e crónicas com o nome de SINFONIAS.

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