TALA MUNGONGO, de Filipe Correia de Sá A valorização e o resgate do(s) passado(s)

Envie este artigo por email

'Tala Mungongo', aprendi ali mesmo onde se situa a cordilheira com esse nome, na província de Malanje, significa em quimbundo "olha os montes" ou "olha o mundo".

TALA MUNGONGO, de Filipe Correia de Sá A valorização e o resgate do(s) passado(s)

 O romance com esse nome de Filipe Correia de Sá, ora reeditado, não se contenta apenas em olhar o mundo ou os montes, mas tenta ver e mostrar muito para além deles.
E essa é a primeira nota digna de registo para quem se debruça sobre o seu conteúdo - a prodigiosa imaginação. A obra chega a ser mesmo uma viagem alucinatória, na sua ânsia de valorizar e resgatar o passado, seja ele desaparecido, roubado, distorcido ou simplesmente esquecido.
Como afirma a personagem 'Cara Podre': "Muitos passados que há por aí não valem nada porque foram comprados. Estão em mãos erradas. (...) O meu passado trago-o dentro de mim. Mas eu sei que nem todo o mundo pode fazer isso, é preciso estar muito bem dentro da verdade dos Passados para o fazer".
Esta fala talvez indicie qual o propósito e a mensagem última do Autor. Quando estamos confrontados com tanta falsificação do passado, com tantas versões que tratam de o suavizar ou exaltar de forma oportunista e interesseira, é justo começar por valorizar aquele que foi por nós vivido com verdade, sem com isso deixar de respeitar também os passados de todos os outros.
Para isso mesmo alerta logo de início o avô da personagem 'Estamos Juntos': "Uma coisa vou repetir - deves sempre guardar bem tudo quanto te deixei, principalmente o Passado que não podes perder. Senão vais sofrer grandes tragédias. Nele não podes inclinar demais o teu coração, como também não o podes afastar demais. Fica só com o teu e deixa o dos outros que a eles pertence, só assim pode existir um que seja de toda a gente".
É isso que a personagem de 'Todo o Mundo' não entende, ele que rouba e acumula passados alheios para, com eles, tentar "reunir todos os poderes do reino". Em vão, porque como 'Estamos Juntos' o irá desenganar mais tarde, "um conjunto de passados que não lhe pertencem nunca lhe darão um poder infinito para com ele dominar eternamente o mundo".
Com base num pretexto simples e original, o de um reino que entra em decadência porque os seus habitantes vão ficando sem os respectivos passados, o Autor introduz-nos num mundo mágico, com personagens com nomes inspirados na gíria local ('Estamos Juntos', 'Cara Podre', 'Todo o Mundo', 'Mboa', 'Makemaka') ou insólitos, como o papagaio mutante chamado 'Ninguém', e com tempestades de vento dignas de um filme-catástrofe de Hollywood.
Mas este é apenas um aspecto de uma atitude visionária quase a roçar o delírio, que Rui Duarte de Carvalho, na introdução à obra, definiu com justeza como "o caudal de uma torrente narrativa que se nutre, sobretudo, de uma repetida, sistemática, implacável e obsessiva revelação da estória, de cada vez possuída pelo ímpeto do seu próprio curso, e sujeita com muita frequência a deter-se, julgo, pela barragem da surpresa dos rumos vários que abria". Aqui a expressão a reter é "os rumos vários que abria", pois o romance sobrepõe, de facto, várias camadas expressivas que suscitam leituras de vários tipos: a textual, a fantástica, a lendária e também a alegórica, porque é difícil não vislumbrar no seu conteúdo referências explícitas a situações concretas do momento histórico em que a obra foi escrita.
Não por acaso, a lenda adaptada no início do livro refere-se concretamente à repentina chegada de uma guerra que trouxe o sofrimento e a morte e obrigou os sobreviventes a refugiarem-se no alto da cordilheira baptizada então de 'Tala Mungongo', de onde o chefe desceu com os seus últimos guerreiros para retomar o combate, para continuar a luta.
Em todas as situações que descrevem a actividade dos inimigos do reino, como justa metáfora de um tempo conturbado, está presente o vento. Vento que, para alguns dos conselheiros do rei, só pode ser obra de um feiticeiro ou de "um ser humano cuja ambição não tem limites", mas que afinal é culpa de 'Todo o Mundo', nome que surge como contraponto ao de 'Ninguém', duo de personagens já presente em obra famosa de Gil Vicente.
Deste modo se insinua que a culpa da grave crise é de todo o mundo, ou seja, de cada um de nós! Isso mesmo confirma o monstruoso 'Todo o Mundo', quando invoca as razões que o levam a combater o rei: "Chegou a minha vez de tomar conta disto e de me vingar de todos aqueles que me fizeram mal. (...) Todos vocês!". Combate inglório, no entanto, pois no final iremos perceber que 'Todo o Mundo' acaba derrotado precisamente porque combateu contra o eco das suas ameaças, contra si mesmo.
Neste particular, é digna de nota a decisão de 'Cara Podre', que nesse combate coloca os interesses colectivos acima dos individuais, ao afirmar: "Nunca estive ao serviço de reis e nunca me passou pela cabeça defender causas que não conheço, nem partilho. Mas, neste caso, em que está em perigo todo o reino, as nossas tradições, o nosso futuro, estou disposto a ir em frente, até esclarecer tudo. Ou, pelo menos, para ajudar".
Na obra também se faz referência a uma atitude egocêntrica que se generalizou em grande parte por causa da própria guerra. Ao decidir oferecer uma recompensa a quem trouxesse informações que ajudassem a descobrir o que estava a acontecer, o rei conclui lucidamente que "oferecer recompensas em tempo de crise, para as pessoas revelarem coisas que ajudem a saber o que não se sabe, pode despertar uma verdadeira paixão pelas alvíssaras, mais do que pela verdade mesma das coisas".
Como seria de esperar a situação agrava-se e, como narra o Autor, "o soberano andava verdadeiramente preocupado com o estado de espírito que aqueles seus súbditos revelavam, em que já não havia respeito por ninguém, a começar por cada um por si mesmo. Como uma moléstia, que o vento transporta no bojo dos seus transmissores, estendia-se pelo reino o ambiente próprio de uma sociedade desavinda, onde todo o mundo só era bom para todo o mundo, porque era bom para si, o que seria bastante razoável, não fosse o caso de, na maior parte das vezes, a bondade para si não ser senão a máscara da mais implacável perversidade".
O papel do género também é realçado de forma subtil no romance. O desaparecimento dos passados só começa a ter o esboço de uma solução quando a rainha 'Mboa', a que transmite mensagens ao rei através de sonhos, e as outras mulheres do reino acabam por ser ouvidas. São elas que sugerem que o rei autorize que qualquer cidadão se candidate à mão da princesa 'Makemaka' e ao lugar de futuro governante, desde que para tal apresente o seu respectivo passado.
Esse estratagema vai obrigar a que por todo o reino muitas pessoas tratem de resgatar os seus respectivos passados, pois, como dissera a rainha ao rei, "com este desafio dar-lhe-ás um incentivo e nascerá neles a vontade de lutar à luz do dia para devolver ao reino a força que perdeu". De facto, como o rei concorda, "só quem possui o seu passado, domina a sua vida". Esta ideia de que a força do reino reside na valorização e resgate do passado dos seus habitantes é central em todo o romance e revela que o seu Autor tem perfeita noção de que a verdade histórica assenta na diversidade e confronto de opiniões e no respeito pelos direitos de cada um à sua própria memória e individualidade.
Como afirma o rei: "Era um direito sagrado cada um ter o seu passado. Desde sempre os seus ancestrais, através de leis sábias e justas, tinham procurado proteger cada um no seu direito de o possuir e guardá-lo, prevenindo-os dos perigos resultantes de um tratamento inadequado".
No entanto, como o rei acaba por reconhecer, ele próprio não tinha tratado devidamente o seu passado, pois, se o tivesse feito, "saberia que algures estavam enclausuradas forças esquecidas que, mais tarde ou mais cedo, viriam à tona para retomar o seu lugar, relembrar a sua existência e, provavelmente descontroladas, tentarem assumir um lugar, qualquer um, menos o seu. (...) E que as coisas do passado existem independentemente de quem as cria. Mesmo no escuro subterrâneo ignorado por todos". Numa antecipação em mais de dez anos de soluções que, em termos que julgamos poder comparar, puseram fim ao longo conflito armado vivido em Angola, 'Estamos Juntos', por um poder que lhe é conferido pelo rei, restitui a dignidade a 'Todo o Mundo', o adversário vencido, pondo-o a exercer precisamente as funções de guardião dos passados que antes ele pretendia utilizar em proveito próprio.
"É bom que não esqueçamos - diz o rei - que esse lado diferente, se for bem tratado, com justiça, com respeito, com atenção, ocupará apenas o lugar que lhe compete. Caso contrário, inflará, inchará como uma ferida gangrenada e conspurcará todo o corpo".
Se concluirmos que o próprio Filipe Correia de Sá se identifica aqui com o rei, o recado está perfeitamente dado neste seu primeiro e até aqui único romance, publicado pela primeira vez em Luanda, em 1993, reeditado dois anos depois em Cabo Verde, romance que o já citado Rui Duarte de Carvalho, grande amigo do autor, caracteriza como "uma experiência de dilatação visionária, inédita entre nós".
José Mena Abrantes

Luanda, 23/4/2014

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos