Tchissola Mosquito reaviva o humanismo através do livro

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Achille Mbembe aponta a queda dos princípios do humanismo como característica principal do século XXI. Diz o filósofo e historiador camaronês. Que as virtudes tradicionais como o cuidado, a compaixão e a generosidade estão condenadas e serão substituídas por uma única e nova virtude, que é a de "ganhar", não importando os meios

Achille Mbembe aponta a queda dos princípios do humanismo como característica principal do século XXI. Diz o filósofo e historiador camaronês. Que as virtudes tradicionais como o cuidado, a compaixão e a generosidade estão condenadas e serão substituídas por uma única e nova virtude, que é a de "ganhar", não importando os meios. Sendo este o novo paradigma a disseminar-se um pouco por todo o planeta, há, no entanto, pessoas a lutar contra a maré depredadora dos valores e virtudes que aproximam os homens. Idealizada desde 2011 e fundada em 2017, a VPA 20/20 é uma associação filantrópica onde a reflexão sobre a indissolubilidade da interdependência entre os agentes sociais gera um compromisso com a promoção do impacto positivo, construtivo e transformador que indivíduos, organizações e iniciativas têm o potencial de exercer na nossa sociedade.
Idealizada por Tchissola Mosquito, VPA 20/20 busca um duplo objectivo de carácter social e ambiental, concedendo apoio à gestão da organização às instituições de solidariedade social, incluindo formação. Uma das acções positivas, que terão grande impacto social num futuro próximo, é a distribuição de literatura a mais de 300 jovens inseridos em clubes de leitura, denominados “Um Livro, um Mundo”.
Em Luanda, estes grupos de leitores estão localizados nos bairros de Mulenvos, Kapalanka, Viana e Luanda Sul. Em Benguela, foram constituídos três grupos, dois no Namibe e um no Lubango. No domingo passado, dia 16 de Dezembro, o jornal Cultura esteve à conversa com o grupo do bairro do Grafanil, em Viana. No encontro, os jovens falaram das suas experiências de leitura de Misoso, de Óscar Ribas, A Chaga, de Castro Soromenho, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, As Férias, de Condessa de Ségur, História do Mundo de Andrew Marr, A Bicha e a Fila, de Manuel Rui e Marco Guimarães. Ligados à Igreja Católica nos bairros onde habitam, estes jovens têm nos espaços sociais da Igreja centros de acolhimento e de troca de experiências da leitura. O escritor José Luís Mendonça foi convidado para esta troca de afectos com base no livro e na leitura. No primeiro encontro, a 17 de Novembro do ano em curso, nos Mulenvos, Mendonça falou da importância da leitura e do valor dos mestres mudos. O escritor também orientou os jovens quanto aos métodos de leitura e a extracção do saber contido nos livros, fundamentalmente a sua riqueza semântica, através do recurso ao dicionário. Na segunda conversa com os jovens, Mendonça repetiu o ensinamento sobre a organização do pensamento, com base nas lições de Tom Werneck e Frank Ullmann, para além da habitual explicação sobre a metodologia de leitura. Uma apreciação geral dos dois grupos, permitiu ao escritor constatar que existe um défice de conhecimento da língua portuguesa entre os estudantes do ensino pré-universitário, por essa razão, incentivou-os a aproveitarem a filantropia da VPA 20/20, para um melhor desempenho social e académico, através da aquisição de competência linguística. Como forma de apoiar o projecto, o escritor fez a oferta e oito obras da sua produção em prosa, nomeadamente O Reno das Casuarinas e Luanda Fica Longe.
Segundo Tchissola, “a expressão 20/20 é tão comum nos Estados Unidos que existe até um programa de televisão com esse nome. O músico Justin Timberlake, lançou um álbum chamado " The 20/20 experience ". Por examinarem um número muito grande de pessoas, os oftalmologistas determinaram o que uma pessoa com visão considerada "normal" deveria ser capaz de ver a uma distância de 6 metros do quadro de teste de visão. Também chamado de Snellen Chart.
Se você tem uma visão 20/20, sua visão é normal”, explica a mentora do projecto. Com a visão 20/20, Tchissola pretende chegar ao ponto alto do conceito de interdependência.
“Só existe um mundo, por isso, as minhas acções positivas ou negativas vão-se reflectir automaticamente no meu próximo”.
“As boas ideias precisam das pessoas certas para que se consigam materializar. A acção será dirigida por pessoas comprometidas com a comunidade com o seu próximo e com o sentido da sua própria existência”, diz Tchissola Mosquito, que leva a cabo este projecto de leitura, e recebe apoios também de artistas plásticos que doaram algumas obras expostas no passado dia 12 de Dezembro, na Galeria Hall de Lima Pimentel, reproduzidas em t-shirts cuja venda permitirá angariar fundos para os projectos comunitários. Joana Taya, Van, Ana Silva, Cristiano Mangovo e Nástio Mosquito são os artistas que cederam a imagem das suas obras a favor desta causa e sem custos. A mentora do projecto explica que o “V” significa “Visão”. “Temos uma visão clara sobre o que é exigido de nós. Acreditamos que existimos para ter um impacto positivo na vida de todos que são servidos por nós.“P” significa “Propósito“. O fio condutor em tudo que fazemos é a nossa missão de transformar vidas. O “A” significa “Acção”. Quando pensamos em acção, falamos em intervir intencionalmente na promoção de iniciativas que tornam o presente a realidade necessária para a concretização do futuro desejado. A expressão “20/20” faz referência ao que se denomina como acuidade visual. Trabalhamos para que o nosso trabalho se aproxime tanto quanto possível da clareza, precisão, e rigor necessários para de facto fazermos a diferença.

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