TERTÚLIA SUNGUILANDO

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Ora, para libertarmos os espíritos, tínhamos de ressuscitar as nossas culturas ancestrais, bantus.

Palco Fotografia: Jornal Cultura

Na nossa Cultura quando um ente querido nos deixa, depois de ele subir para as estrelas, sentimo-nos na obrigação de fazer-lhe uma festa para homenageá-lo de uma forma que ele gostasse de estar, que se divertisse caso estivesse em presença física.
O nosso ente querido gostava de conversa, de música, de interagir com os mais queridos e mais próximos, familiares, amigos, vizinhos, colegas e empregados.
No tempo colonial por altura dos Arreais dos Santos Populares, Santo António, o Lisboeta, cuja festa se realiza na noite de 12 para 13 de Junho, depois o São João, Santo Nortenho, com festividades na noite de 23 para 24 de Junho, e por ultimo o São Pedro, festejado no Sul de Portugal a 29 de Junho, em Luanda também se festejava.
A festa era densa e atingia o auge no São João. Na Vila Alice, (hoje Bairro NelitoSoares) no desembocar da Rua Almeida Garret, no Largo do Bocage, os jovens faziam uma fogueira ladeada por um pneu de camião, e à volta dela convivíamos, pequenos, grandes e graúdos, gentes de várias idades. Enquanto os mais velhos contavam missossos, estórias, sabus, ditados, anedotas, adivinhas e outros saberes, os mais novos atiçavam-se uns aos outros o saltar da fogueira, dizendo:
- Quem não saltar mãe dele é mbica ( escrava).
O nosso ente querido saltava a fogueira e nos intervalos cantava e encantava com as musicas que cujas letras sabia na integra e o ritmo estava-lhe no sangue.
Como ele era o ouvinte mais próximo do avôJosé Bastos, que tocava acordeão para o bairro todo, para além de música, sabia aquelas estórias do antigamente que ouvia diariamente. Eram estórias com vida e vida com alegria.
Em tempos recentes quando o nosso ente querido vinha ao nosso quintal, as folhas das árvores voavam, os arbustos exibiam as suas flores, os pássaros chilreavam,cantavam e assobiavam, o Sol e a Lua iluminavam-nos. Era um festim para todos.
O nosso quintal perdeu a vida este ano, mas não perdeu a alma.Para acalentá-la precisávamos de tirar a kijila, a privação de nos divertirmos, dar-lhe alimento espiritual, comida e bebida.
Decidimos fazer uma tertúlia sunguilando em sua memória, com aqueles que se quiseram a nós unir, em espirito, em pitéu e em palheto. Desta vez não houve vinho abafado nem maluvo, mas houve sumo de mucúa e vinho suficiente para nos encharcarmos sem que ele chegasse ao fim.
Não havia nenhuma árvore frondosa, mulembeira, imbondeiro, nem fogueira, como era habitual noutro tempo. Tínhamos o quintal e um jangoonde montamos o palco preenchido de artefactos tradicionais, kindas do Lubango com frutas diversas, do Namibe com vagens da nossa acácia rubra, do Bengocom vagens de moringa, de café e frutos de imbondeiro as múcuas da Barra do Kwanza.
Para varrermos as cinzas, tínhamos vassouras de matebae os Kiesos. Para que os espíritos bons ficassem em nós exibimos chapéus de matebeira. Para que os feitiços se libertassem, estava presente uma sanga, um cântaro. Para que os pássaros continuassem a cantar tínhamos ninhos. E como a noite se adivinhava longa ao pé do luandoe da esteira, onde iríamos pôr a conversa no chão, estavam umas kibakas, bancos, de Porto Amboim.
Brilharam nas esteiras que faziam de palco, amadores, armadores, poetas com obra publicada, declamadores espontâneos, contadores de estórias verídicas e ficcionadas, cantadores de musica, tocadores de viola, e duas boas vozes de Fado.
O progresso deu-nos outros hábitos de convívio, a Internet, Facebook, WhatsApp, Messenger, Skype, Viber, telefone, a Televisão, o contacto das pessoas através da imagem de um monitor e auscultadores. Retirando-nos o entretenimento face a face, e com ele foram afundadas as chamadas Literaturas da Noite, aquelas que só desenvolvem depois do poente e que são libertadas sem serem programadas,vêm do âmago.
Ora, para libertarmos os espíritos, tínhamos de ressuscitar as nossas culturas ancestrais, bantus ou não, num encontro lúdico onde pudéssemos seroar, sunguilar, iluminados pelo luar, arrefecidos pelo serenar do Cacimbo e dar asas à nossa imaginação de contadores de missossos, de contos, de poemas de canções, de provérbios de adivinhas, enfim mostrar a nossa criatividade comunicando e sentindo o cheiro do outro.
Gente diferente de profissão diversa mas com o mesmo ânimo. A jurista declamou Agostinho Neto “ Adeus à hora da largada”, a advogada contou estórias, as professoras cantaram fado, a jornalista artista declamou um poema, o deputado declamou poemas seus já editados, e com montanhas de talento, todos fizeram jus ao seu dote artístico.
O dono da casa contou uma estória com receita para retirar espinha de peixe encravada na garganta, a menina da Kumbira, regedoria com nove libatas (aldeias), brotou da sua nebulosa floresta e contou um missosso da sua terra,a Conda, Província do Kwanza-sul, em que ficámos a saber que, na sua terra, quando se falece e não se pede logo a certidão de óbito, altera-se a data da morte, porque a morte também tem prazo.
Como estamos em Julho, eu declamei o poema “Três por Quatro “, do meu confrade e amigo Caranguejo, brasileiro de nacionalidade, Mário Alves de Oliveira, com uma extensa obra de investigação publicada no Brasil, sobre o poeta português Casimiro de Abreu, entre outras. Sendo que, no tempo colonial,também publicou em Angola, na cidade do Lobito.

TRÊS POR QUATRO

Eu sou assim como se fosse feito
de estopa, de cortiça, de isopor:
no coração de látex, anódino,
transitam mal as emoções, a dor.

Os olhos dizem, só não contam tudo
do muito que retenho disfarçado.
Do signo de câncer, caranguejo,
vou lento e defensivo: pelo lado.

Às vezes rompo a crosta, vou à tona,
deixo escapar o sentimento exangue.
Os astros não perdoam: sou de Julho,
cada gota de amor me custa sangue.

(Mário Alves de Oliveira)

Como estamos em tempo seco, o Sol nasceu mais tarde, e para agradecer a sua graça, já depois do caldo e das 5 horas da manhã eu fui até Benguela, terra onde nasceu a poetisa Alda Lara e declamei o seu poema:

TESTAMENTO

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E aquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meus vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…

Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora…
com passos feitos de Lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

O nosso ente querido, José Carlos, meu irmão de sangue e alma, não dispôs testamentariamente, mas deixou como legado o renascimento do Sunguilamento.

Luanda, 14 de Julho de 2017

SANDRA POULSON

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