Textos Dispersos de Alda Lara

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Cumpriu-se, há pouco, no passado dia 30 de Janeiro de 2014, mais um ano, o quinquagésimo segundo, sobre a morte de Alda Lara.

 Textos Dispersos de Alda Lara
Túmulo de Alda Lara, cemitério de Benguela Fotografia: Paulino Damião

Nos dias e meses que se seguiram à sua partida para o panteão dos poetasvários títulos de periódicosda época deram destaque à consternação gerada pelo súbito desaparecimento da “poetisadas terradas acácias rubras”, da “declamadora da «Poesia Negra»”, da eloquente conferencista, da médica cujo projectado labor associado ao cerne da sua poesia visavam uma terra onde as “mãos brancas” se estendessem às “mãos negras” e juntas buscassem “Rumo” para “um mundo melhor”. A dor da despedida verteu-se numa torrente de testemunhose elogios que o espaço aqui ensaiado apenas permite aflorar. Essas homenagens mescladas de pesar são tributo de perene saudade patenteado em múltipos registos deimprensa (instrumento precioso para análise dos períodos históricos) durante anos a fio, no decurso dos quais Alda Lara e a sua vida,breve mas fecunda, é por várias formas celebrada.
Segundo esses registos, o seu funeral foi uma inequívoca manifestação de veementepesar. A Emissora Católica de Angola, Rádio Eclésia, logo no dia seguinte ao seu falecimento, prontamente se incumbiu de promover uma romagem ao seu túmulo no cemitério do Dondo. Esta acabou por se realizar a 4 de Março, e a esse acontecimento foiigualmente dado relevo em vários periódicos. Nessa romagem, além de familiares, amigos e cidadãos anónimos, estiveram presentes representantes da Associação dos Naturais de Angola, da Sociedade Cultural, da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, do Centro de Informação e Turismo, enviados especiais da Emissora Oficial, da Emissora Católica, do Rádio Clube, dos jornais O Apostolado,O Comércio, ABC-Diário de Angola e Diário de Luanda.
Em Junho de 1962, o Jornal de Angolaintegra ainda na homenagem que lhe dedica a publicação de alguns dos seus poemas, “Carta Aberta”,“Miserere”, “Deixo-te a paz”, “Testamento” e “Momento”. Assinalamos, a propósito, as palavras de Cochat Osório na encomendação proferida no cemitério do Dondo, transcritas nessa mesma edição do referido jornal:
Mas eu conheço-te Alda Lara; como eu e tu conhecemos todos os que trazem ao Mundo a mensagem do amor e da compreensão; todos os que enfeitam as palavras com foguetes de estrelas e lágrimas que são as imagens dos poetas; todos os que modelam com ritmos as ideias e os conceitos puros para cantar, indiferentes à indiferença, o ideal humano de viver. Viver como destino de homens. Com grandeza.
Mas o que é verdade é que eu sinto que a tua poesia é uma mensagem de pureza, numa altura em que os artistas, por vezes, despem o corpo ocultando a alma no lixo que a integra. Tua poesia limpa afirma que não é preciso o artista dar-se como espectáculo.
Basta impor-se como exemplo.
Também Aires de Almeida Santos, um amigo com quem Alda partilhava o gosto pela poesia e que pertencia à mesma geografia, lhe dirigiu uma sentida carta, transcrita noDiário de Luanda, testemunho de aqui deixamos um pequeno trecho:
Na nossa terra, Amiga, não há goivos para desfolhar quando de nós se apodera a saudade por alguém que não volta mais.
Na nossa terra, Amiga, não há, sequer, lugar para raiva ao destino por nos roubar o destino de termos sempre longe ou perto, quem possa comungar connosco no mesmo credo em que as buganvílias são diademas, as acácias são sonho e o sonho é ainda maior porque foi sonhado na morna languidez das areias quentes da Praia Morena. […] Porque nós em Benguela nos habituamos a fazer nosso o espírito das coisas; porque, mais do que connosco, o espírito de Benguela viveu contigo lá tão longe, não devo perdir-te agora que regresses. É verdade que, por teres partido:
«...Além/ Para lá do Casseque/ Até o sol está vermelho/ de tanto chorar também».
Ernesto Lara (Filho) recorre igualmente ao registo epistolar para com ela, já no “assento étereo” onde subiu, comunicar. Valemo-nos aqui da transcrição de um excerto de uma carta inserta no jornal O Intransigente, a 25 de Abril de 1962:
A morte da Alda talvez tenha sido pressentida por mim. Este desânimo não se podia explicar de outra maneira e vinha caminhando comigo desde Janeiro, quando comecei, inexplicavelmente, a abandonar tudo – o trabalho, os jornais, o estudo. Era como que uma abulia, estava letárgico, morto, liquidado! Eis que senão quando, de chofre, surge a notícia da morte da Alda. E embora seja difícil de te explicar, morrendo, ela me deu vida. Levantei-me de rosto encharcado pelas lágrimas e cheio de amargura, volto às longas caminhadas, sòzinho, pela vida fora, com ELA no coração, desfraldada como uma bandeira drapejando ao vento, o seu exemplo encorajando-me, a sua voz soando-me clara aos ouvidos, empurrando-me para os longos espaços onde nós os poetas costumamos andar sozinhos…Fiquei muito só, perdi quase tudo o que tinha, a minha fortuna era a Aldita, a minha Companheira de todas as horas, a pessoa que nunca me negou mérito, a Mulher que sempre fez de minha Mãe, nas longas ausências da verdadeira. [...] Ela deixou-me ainda assim, grandes Fortunas, grandes riquezas. Fico com os seus poemas onde ela continua integral, vibrante e inteira como uma acácia rubra de um dos jardins de Benguela. Ficou nos quatro filhos e no marido. Nos velhos robles carcomidos pelo desgosto que devem ser os meus Pais. Ficou na vida que me deu, no insuflar da coragem que, morrendo, me deixou…
[…] Não fui só eu que perdi. Perdemos todos, Angola especialmente. O mausoléu tosco, mas sincero, que os operários de Cambambe construíram para ela durante uma noite, é um símbolo, fica como um símbolo. Ficou plantada sob uma acácia rubra, queres maior ironia do destino do que esta de haver no cemitério do Dondo uma acácia quase escolhida pela Providência a cuja sombra ela está agora sepultada?
Noentrecruzamento de quanto aqui se evoca e se acrescenta, deixamosem epílogo as palavras da singela carta redigida pela própria Alda Lara a uma amiga a quem tinha falecido a mãe. Recolhemos esse testemunho doABC-Diário de Angola, em edição de 14 de Fevereiro de 1962, na homenagem que essa publicação então lhe dedica e a que já fizemos alusão em anteriores edições deste jornal. Quis alguém ou o destino que da missiva de conforto escrita a essa amiga, na qual Alda se refere aos desígnios da eternidade, fosse extraído oepitáfio que está cravado na lápide do seu próprio túmulo,agora no cemitério de Benguela onde finalmente repousa, como nos mostram asfotos juntas a esta evocação gentilmente cedidas pela nossa amiga e também benguelense Teresa Neves: “A eternidade é qualquer coisa a que não podemos fugir. Tudo em nós, interior e exteriormente, clama por uma perpetuação. Então a eternidade é uma resposta.”

Carta de Alda Lara a uma amiga
Minha Querida:
Nas nossas longas conversas falámos de tudo menos da Dor e do Sofrimento. No entanto, talvez devêssemos tê-lo feito.
Mas eu sei porque não. É que ambos estão “integrados” EM NÓS. Não vale a pena, portanto, falar deles. Esperamo-los a toda a hora.
Sei, pois, que estás “preparada” e que nada te poderei dizer que tu não saibas já. Encara pois tudo isso com dor, sim, mas sem temor. Partimos, como chegámos. Sem sabermos como, nem porquê, nem quando. Um ciclo da naturalidade, apenas.
Assim deveríamos pensar. E pensamos. Mas o “sentir” é que é mais difícil. Não é verdade?
Por isso a eternidade é qualquer coisa a que não podemos fugir. Tudo em nós, interior e exteriormente, clama por uma perpetuação. Então a eternidade é uma resposta. E que talvez tu, um dia, possas vir a compreender.
Tua amiga Alda

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