Textos Dispersos de Alda Lara

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Iniciamos este apontamento como uma breve reflexão sobre a intencionalidade do discurso e, consequentemente, em torno dos conceitos de "texto" e "contexto".

Diário de Luanda de 05-03-1962, p.3

O alargamento da concepção destas noções, bem como a sua expansão metafórica, parecem resultar de um outro entendimento da linguagem como comunicação, sobretudo a partir das teorias de Roman Jakobson a quem Haroldo Campos chamou "o poeta da linguística".

Muito se tem discutido sobre o assunto, mas parece aceitável que a noção de "contexto" apareça não só ligada à semântica como à pragmática, permitindo o estabelecimento de uma relação entre contexto e conteúdo e fazendo depender a interpretação de um enunciado de um contexto prévio, percebido através das asserções que ele possibilita.

Ou seja, seguindo a linha de pensamento de Robert Stalnaker (1999), o discurso é entendido como um processo interactivo dinâmico no qual os actos discursivos interferem na situação na qual se concretizam e a situação intervém, ela própria, no modo como esses actos são entendidos.

Paralelamente e para atendermos à especificidade das tipologias discursivas, de acordo com actuais critérios de categorização, recorremos ao definido na entrada do vocábulo "diário", na Biblos, Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, assinada por Clara Crabbée Rocha, que tem dedicado estudos a este género autobiográfico.

Segundo esta especialista, "o diário distingue-se de outros géneros que enformam conteúdos intismistas em virtude das suas características técnico-compositivas, com consequências ao nível da narração, da constituição da imagem do eu, da temporalidade do discurso e até do estilo". Resultante de uma escrita fragmentária, temporalmente datada, assim "o eu se vai constituindo por acrescento e sobreposição [...] disperso ao sabor dos dias e dos momentos".

Do ponto de vista do conteúdo, as notações podem ser de índole diversa na medida em que a escrita diarística faz o registo de múltiplas experiências existenciais do sujeito propagadas como ecos de alegrias ou tristezas, de angústias ou anseios, de desempenhos pessoais ou profissionais, de descobertas, de amores ou amizades, de leituras, vivências que moldam uma personalidade e dão sentido à vida.

Neste domínio, posição coincidente é sustentada pelo diarista Marcello Duarte Mathias segundo o qual "o diário é uma forma aberta e fecunda [...] que tudo contém e tudo é susceptível de conter", e ainda, na perspectiva do mesmo autor, "é a memória a construir-se", assumindo-se, deste modo, o eu diarístico como uma construção da memória e da escrita.

Pelo seu carácter especulativo este tipo de registo, marcadamente expressivo, problematiza vivências, visões do mundo e de si e facilita a conjugação da exterioridade com os cenários mais intrínsecos de cada sujeito.

O jogo realidade/ficção que esta genologia encerra permite abrir caminhos para a compreensão do jogo de construção e desconstrução do eu. Através de modelos reveladores de que o conceito de autenticidade se inscreve num código capaz de interrogar, problematizar e jogar com o mundo interior, o leitor interage com uma escrita que, pouco a pouco, se consciencializa do seu valor de construção de veracidade, favorecendo assim uma reflexão sobre o próprio conceito de verdade e contribuindo, deste modo, para a interacção com uma diversidade de mundividências, elemento facilitador da capacidade de questionamento de cada sujeito e do mundo que o rodeia.

O eu aqui apresentado aos leitores, para que o construam através do que lhes é revelado em breves notas acrescidas ao testemunho fragmentado de um Diário, é o de Alda Lara. Poeta angolana, Alda formou-se em Medicina, em Coimbra, no dia 9 de Novembro de 1959.

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