Transculturação e Atlântico na obra de Manuel Rui

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Pelo Sul se faz caminho

Transculturação e Atlântico na obra de Manuel Rui
Manuel Rui Monteiro Fotografia: Paulino Damião

Com Pelo Sul se faz Caminho: Angola, Transculturação e Atlântico na obra de Manuel Rui pretendi estudar, no âmbito dos estudos pós-coloniais, o percurso transcultural que Angola vem realizando, na representação do autor. E, juntamente com as origens étnico-culturais africanas, reconhecer que o Atlântico Sul é o espaço geográfico do percurso da construção da angolanidade.
Com base nesta angolanidade polifónica e sul-atlântica passei à investigação da questão primordial que é a de saber se é possível induzir a existência e a identificação de um “pensamento sulano”, detectado na obra do escritor? Atrevo-me a afirmar que sim.
Este englobaria os povos do hemisfério Sul onde Angola e África, Brasil e América Latina, América Central e Caraíbas, arquipélagos atlânticos e também as duas nações ibéricas Portugal e Espanha, criaram e desenvolveram a porosidade de mil zonas de contacto e interinfluência cultural.
Estes contributos culturais nas geografias do Atlântico Sul terão criado um modo de ser que partilha muitas características identitárias: trata-se de culturas colonizadas e ou subalternas, periféricas, heterogéneas e abertas, muitas delas colectivistas e solidárias, com múltiplas formas de expressão das emotividades, de cariz geralmente tradicional e afectivo, em que o “sentimento restaura as formas de vida e sustenta a existência” (Barboza Filho, 2009:136), ao mesmo tempo que o desenraizamento étnico cria o hábito do viajante e peregrino e/ou o do revoltismo do escravo.

De que Sul trata,
então, Manuel Rui?

A posição geográfica de Angola, do Brasil e América Latina é no Hemisfério Sul. A da América Central, Caraíbas, Sul dos Estados Unidos bem como dos vários arquipélagos atlânticos e da Península Ibérica, embora no espaço convencional do Hemisfério Norte, é assumida como pertencente, metaforicamente, ao Sul.
Os investigadores de ciências humanas são unânimes: na sequência dos “descobrimentos” e “conquistas” dos navegadores portugueses e espanhóis desde os séculos XV/XVI, estabeleceram-se entre a Europa, por um lado, e a África e América, por outro lado, novos paradigmas de relações socioeconómicas e político-culturais.
Nascia, então, o colonialismo atlântico eurocêntrico e a expansão global. O equatoriano Aníbal Quijano refere que acabara de ser criado “um novo universo de relações de dominação sob hegemonia eurocêntrica” (Quijano, 2009:73-74)
Este universo de relações respondia aos desafios e necessidades socio-económico-filosóficas duma Europa que deixara para trás o feudalismo e ingressava na modernidade.
Nessa “primeira modernidade” dos séculos XVI e XVII induzia-se, já, o colonialismo triangular que Portugal e Espanha puseram em prática em África e na América Latina: este tornava interdependentes três continentes através do Atlântico e tinha como bases a escravatura e o racismo.
Mais de 13 milhões de africanos desembarcaram na América (Alencastro, 2012: 69-70) entre os séculos XVI e XIX, transportados nos navios negreiros de armadores ibéricos, norte-europeus, brasileiros e antilhanos.
Surgiu, entretanto, uma “segunda modernidade”, à qual se costuma dar o epíteto único de “modernidade”.
Isso sucedeu quando o iluminismo despertou na Europa com os pensadores apostando numa racionalidade depurada e tendencialmente afastada da natureza que era necessário dominar e transformar para fazer nascer o Estado liberal e a separação de poderes [lembro Hobbes, Locke, Montesquieu] e uma metafísica das luzes [Kant, Hegel] que justificasse, paradoxalmente, os direitos humanos e o racismo como ferramenta ideológica do “eurocentrismo”.
Estes considerandos conduziram a uma visão economicista do capitalismo. O colonialismo tornou-se mais utilitário e científico e baseava na discriminação étnico-racial, ou “metafísica da diferença” (Mbembe, 2001), o puro eurocentrismo político-económico.
E surgem dois Atlânticos: o já referido Atlântico Sul de colonização ibérica e o Atlântico Norte de colonização propriamente “eurocêntrica”.
O Norte da Europa passou, entretanto, a chamar “periféricas”, semi-modernas, as colonizações de Espanha e Portugal, pois enredavam a prática colonial em considerações de carácter formal étnico/religioso e emocional, enquanto exerciam a ocupação metropolitana dos novos territórios.
Aqui, embora praticassem um violento esclavagismo e racismo (este exercia-se numa dilatada escala entre a cor da pele mais escura e a pureza do sangue), iniciaram uma inevitável miscigenação étnico-cultural entre paradigmas culturais euro-afro-americanos.
Estas questões iam contra o puritanismo ético-protestante que inspirava um capitalismo rigoroso na parte Norte do continente americano. Aqui (embora na América do Sul sucedesse algo muito parecido), a ocupação territorial levou a cabo uma razia étnica e cultural relativamente aos ameríndios autóctones (um primeiro holocausto da modernidade), seguindo o paradigma racista e metafísico das luzes que os referiam como inferiores.
Foi rápida a implantação dos modelos “eurocêntricos” nas colónias do Norte, copiando os modelos metropolitanos do Estado e seus mitos de progresso, europeização e de “igualdade” reservados apenas para os imigrantes euro-descendentes.
As culturas ibéricas, entretanto, mesmo que diferenciadas entre a portuguesa e a espanhola, católicas, emotivas e visionárias contrastavam, pois, com as culturas predominantemente calvinistas, luteranas ou anglicanas dos colonialismos da Europa central. [mais calculistas, mercantilistas e iluministas, como ordenava a cartilha da modernidade económica, na obra A Riqueza das Nações (1776) de Adam Smith.]
Os resultados destas heterogéneas narrativas coloniais reportam-nos consequências históricas distintas.
Desde logo, há que considerar que em geografias tão extensas e diferenciadas, situadas em tempos igualmente distintos (Pizarro, 1994:65-67; Mignolo, 2011:21), as identidades dos pontos de partida e os respectivos imaginários se viram confrontados com as diferenças de muitos “outros” imaginários, à chegada, e elaborados, também, durante as viagens. As transculturações sucessivas incluíam incomensuráveis desníveis e complexidades sociológicas, linguísticas, culturais, simbólicas e temporais, que todos esses agentes passaram a trocar uns com os outros, abrindo caminho para uma extraordinária diversidade de culturas atlânticas, agora mestiçadas.
Nestes “caminhos do Sul” Angola ganha uma primordial importância. A obra do escritor Manuel Rui é disso mesmo a representação.
Depois de um percurso literário que começou em 1967, [para o ano o cinquentenário] pela poesia ou prosa, pelo conto ou romance, a trajectória de Manuel Rui passou pelo anticolonialismo antes da independência, e depois dela, pela afirmação nacionalista e patriótica em prol da nação libertada.
Seguiu-se, em Quem me dera ser Onda (1982) aquilo que virá a ser o traço marcante de uma análise reflexiva e crítica ao processo histórico-cultural angolano e às suas contradições, recorrendo à ironia e ao humor (Pizarro, 1994) como instrumentais importantes.

Três obras exemplares

Escolhi três obras exemplares: Rioseco (1997), Travessia por Imagem (2011) e A Trança (2013) para a criação de um observatório/registo das transculturações atlânticas que nelas se denotam.
Na primeira, Manuel Rui, em plena guerra civil angolana, imagina a Ilha do Mussulo [ele nunca menciona Mussulo, mas são evidentes as marcas diegéticas] como um espaço de utopia onde as etnias e culturas que performatizam a angolanidade se exprimem, se contactam, se mestiçam. Dá relevo à sabedoria ancestral e coloca no romance também diversos personagens de outras culturas para ali imigradas, incluindo a portuguesa ou a cabo-verdiana.
As contradições sociais e os comportamentos são escalpelizados com ironia e a partir da visão inteligentíssima de Noíto, a mulher umbunda do planalto. Esta protagonista encontra-se despida dos resquícios de “colonialidade” e personifica em si o depósito e a reserva duma angolanidade que, entretanto, se apresentava confusa e quase perdida, por efeito das guerras e do colonialismo.
Na segunda obra, Travessia por Imagem, o autor vai perseguir, no que foram os territórios da “diáspora esclavagista” angolana, ou seja, na América Latina e Antilhana, os laços epistemológicos comuns, para ali transportados pelos antepassados. Chama-lhes as “subtis, aparentemente submersas, partículas culturais afins” (Rui, 2011: 411) e entrelaçam-se em hibridações constantes, com as epistemologias ameríndias e ibéricas.
O romance desenrola-se entre Angola e Cuba e Cuba e Angola. A narrativa, relativamente a Rioseco atlantiza-se, tem habaneras, tango, rum e açúcar e reúne diferentes personagens oriundos do mundo afro-ibero-americano: cubanos, brasileiros, espanhóis, argentinos, chilenos, mexicanos, húngaros (uma excepção) e uruguaios. Mais tarde, no fim da obra, irão juntar-se-lhes portugueses, açorianos, navarros, catalães e bascos.
É neste mundo pós-colonial ibérico que Manuel Rui expande o interesse ficcional e ele sabe muito bem denotar as tais “partículas afins” que, apesar do implacável comércio e indústria esclavagista, conseguiram implementar inúmeras marcas tripartidas de hibridações, manifestas nas línguas, músicas, danças, religiões, arquitecturas, gastronomias e outros muitos modos de estar e sentir.
Surgem, igualmente, novos processos metodológicos da escrita no Sul. Um dos mais notórios e eficientes é o tratamento aplicado à Língua Portuguesa [na América hispânica sucedeu com a Língua Castelhana o mesmo fenómeno], inscrevendo nela as marcas da oralidade que afastam o texto do cânone metropolitano e o revestem de localismos (Padilha, 2005), alterações sintácticas e prosódicas, entre outras, uma característica que atravessa a sua bibliografia e que é comum as sociedades ex colonizadas e orais praticarem como forma de afirmação identitária, como apontam Rama (2004), Cardoso (2008), Pizarro (1994) e muitos outros.
Na terceira obra, a Trança, Manuel Rui leva a cabo um mergulho na tradição africana, quando faz regressar a Angola a bela Maria, uma mulata loira de olhos verdes que ali vai assistir ao “nascimento do seu avô”. Com uma linguagem simbólica, percorre os mitos e os ritmos de vida africanos que irão inspirar Maria que, entretanto, se transforma em Citula, boa feiticeira africana que volta à Europa recarregada pela energia positiva do misticismo africano.
Através dos três romances observa-se a clara descolonialidade dos personagens principais (Noíto, Zito e Maria, respectivamente) que chocam contra a colonialidade, o neocolonialismo ou o patrimonialismo de muitos personagens tidos por “inconsequentes”, e que contribuem para a desagregação da sociedade através da prática dum “colonialismo interno”.
Tudo isto em geografias distintas e em tempos e cosmologias diversas.

Conclusão

Termino destacando a performatividade da hibridação ou a evidência da “mistura das misturas” no Atlântico Sul.
A permanência da “colonialidade”, do neocolonialismo ou do colonialismo interno bem como do neoliberalismo em tantos países ex-colonizados e ex-colonizadores torna mais premente a “descolonização” duma epistemologia teimosamente “eurocêntrica” e do Norte, na origem e destino do conhecimento, da justiça e igualdade reais.
“Pelo Sul se faz Caminho” é um roteiro do Sul, propositor do resgate de suas epistemologias contra-hegemónicas.
Ganha, então, especial interesse, ressaltar a permanência, seis séculos após as “descobertas”, das línguas portuguesas e castelhana nesta muito extensa área geográfica que a obra recente de Manuel Rui percorre.
As duas línguas representam hoje um crescendo acentuado de valor económico-cultural e geoestratégico de 414 milhões de falantes de espanhol e 261 falantes de português, com o total de 675 milhões (in Observatório da Língua Portuguesa, consulta em 12.04.2016), para além de, nos dois últimos séculos elas terem sido “instauradoras da nação e disciplinadoras de sociedades multilingues e multiétnicas” (Pizarro, 2006), na América no século XIX e em África no século XX.
O potencial cultural e afectivo comum e histórico confere-lhe uma proximidade epistemológica no pensar, ver, agir e sentir que distingue o Atlântico Sul e o Sul, segundo interpreto em Manuel Rui, como o espaço e o caminho que tem vindo a ser feito para uma nova contra-hegemonia, descolonizada e livre.
Aqui no Sul todos nos sentimos bem, o que as “subtis, aparentemente submersas, partículas culturais afins” não desmentem.
LUÍS MASCARENHAS GAIVÃO

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