Três poemas em prosa de João Melo

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Autocrítica

Eufóricos perante as esplendorosas reverberações do nosso próprio reflexo no espelho sujo da história, não sentimos a humanidade drenando-se sob as veias pulsantes de entusiasmo, ambição e inveja, nem mesmo quando sucumbimos de prazer agnóstico e inútil.

O mundo fragmenta-se em mil pedaços incompreensíveis, renovando fantasmas antigos, que se locomovem à velocidade digital, mas para nós são apenas fogos de artifício distantes. A vida mistura-se com os crimes que cometemos em nome do poder e da liberdade.

Nada, contudo, nos desvia do nosso destino. Freneticamente, continuamos a fabricar os artefactos que, pensamos nós, nos trarão a eterna felicidade: em breve seremos canibalizados, sem sabê-lo, pelas nossas prodigiosas invenções.

Confiamos em Deus como se ele fosse um cartão de crédito. À noite, continuamos a ser capazes de amar-nos de modo único, inaudito e indigno.

João Melo nasceu em 1955, em Luanda. É jornalista, escritor, publicitário, professor universitário e deputado. Publicou 13 livros de poesia, cinco de contos e um ensaio. É membro fundador da União de Escritores Angolanos, de que já foi secretário geral e presidente da Comissão Diretiva. Publicado em Angola, Portugal, Itália e Brasil. Os poemas que publicamos a seguir estão inéditos em livro. Um deles, “Autocrítica”, foi publicado na revista de estudos culturais “Teia Literária” (Jundiaí, SP, Brasil, 2011).

In memoria

Ao Aguiar

O tempo, vil e traiçoeiro, arvorou-se em mensageiro da morte e não, como ilusoriamente o críamos, em portador de brilhantes promessas, sempre ao alcance das nossas bocas insensatas e florescentes...

O mundo, com os seus prodígios, leis e atavios, jamais te satisfez. Quiseste enfrentá-lo como um quixote impolutamente escatológico, imune a temores, conselhos, ecos e reverberações. Talvez soubesses, desde o aviso inicial que em ti ressoou ainda na placenta da tua mãe, que apenas poderias conquistar batalhas breves e ruidosas.

Travaste-as, pois, com o ardor de quem conhece desde sempre a cruel inutilidade de alterar a perversa engrenagem da história. Indiferente ao juízo daqueles que, burlescamente, creem na fantasmagórica possibilidade de derrotar o tempo no seu próprio terreno, sentias-te revigorado após cada batalha vã.

Porém, de tanto lutar contigo mesmo, acabaste por perder todas as forças. Então, quando sentiste que serias incapaz de vencer a tua derradeira batalha, partiste simplesmente, com a dignidade de um absurdo cavaleiro solitário, incapaz de redimir-se com o mundo vazio, tolo e pretensioso.

Em nós deixaste apenas esse travo melancólico, triste e incompreensível, de não saber como lembrar-te...

Nova canção de amor

Para Stella

Há muito que não canto o nosso amor.

Será que ele é maior do que qualquer canto? Será que o nosso amor é tanto, que dispensa metáforas, rimas inusitadas, criadoras imagens? Que loa, cântico ou ode, intensa e visceral, pode exaltar o suave rumor que alimenta desde sempre o nosso amor, em toda a sua plenitude?

Que promessa, que jura, que atitude serão dignos desse amor imenso e manso, em cujo doce balanço há muito navegamos, conduzidos pelo tranquilo motor dos dias?

Que sons, que ruídos extrair do tempo, furtar ao mundo, para compor um canto furibundo e incontestável ao nosso amor?

Será que ele suplanta a dor do tempo e da poesia? O nosso amor é uma canção eterna no coração do dia...

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