Trilogia Poética de Agostinho Neto editada em França

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O livro "Poésie Complète de Agostinho Neto" foi apresentado no passado dia 19 de Setembro, em Paris, numa iniciativa da Embaixada de Angola em França, no âmbito das comemorações do Dia do Herói Nacional.

Trilogia Poética de Agostinho Neto editada em França
Trilogia Poética de Agostinho Neto editada em França

Na presença do escritor e embaixador congolês Henri Lopes, de embaixadores africanos acreditados em França, diplomatas e artistas angolanos e intelectuais, o Embaixador de Angola em França, Miguel da Costa, inaugurou o acto afirmando que “falar do percurso do Dr. Agostinho Neto e do seu engajamento é, na verdade, invocar um monumento histórico, um homem com grande sabedoria que tem uma tripla dimensão: em primeiro lugar é um médico de formação; um homem político, um patriota profundamente conhecedor da realidade do seu país. Em seguida, um homem de letras e cultura, que associou o combate político à identidade e à emancipação cultural”. De acordo com o diplomata angolano, a Embaixada de Angola em França pretende, deste modo, dar um contributo para a divulgação da literatura angolana, especialmente do poeta Agostinho Neto, que é um dos expoentes literários em Angola. "Procuramos com esta tradução contornar o handicap da língua francesa e que o trabalho dos nossos criadores esteja acessível não apenas aos franceses, mas neste caso, ao universo da francofonia".
A edição francesa da obra poética completa de Agostinho Neto, traduzida pelos professores Jean-Michel Massa e Annick Moreau, foi lançada com o apoio da Fundação Dr. António Agostinho Neto.
O livro, que sai com a chancela das edições Alexandrines, reúne pela primeira vez em língua francesa a trilogia poética "Sagrada Esperança", "Renúncia impossível" e "Amanhecer". Esta é a segunda vez que o livro "Sagrada Esperança" é publicado em francês em Paris.
Em representação da FAAN, Irene Neto agradeceu o gesto, no sentido de que contribui para a disseminação da obra e lembrou os transtornos para se chegar à versão original de Renúncia Impossível que considerou ser “um poema fantástico e que se revelou um dos mais contundentes pois traduz uma posição de consciencialização do homem africano em relação à opressão colonial e a civilização ocidental”.
Na cerimónia de lançamento houve ainda espaço para a declamação de alguns poemas em português e francês, bem como a intervenção de Rui Miranda e seu trio que procederam à adaptação musical de alguns poemas de Agostinho Neto como "Quitandeira" e "Havemos de Voltar".

Conferência
Para as comemorações do dia do Herói Nacional, a Embaixada de Angola em França albergou uma conferência sobre a poesia do poeta Agostinho Neto que contou com a presença da Dra. Irene Alexandra Neto, em representação da Fundação Agostinho Neto (FAAN) e que foi animada por Ana Rocha, especialista da obra poética de Agostinho Neto, o escritor José Luís Mendonça, que desenvolveu o tema "Agostinho Neto e a cidadania poética do homem negro", assim como o professor catedrático italiano Giuseppe Grilli, Director da Cátedra Agostinho Neto na Universidade Roma 3, cuja intervenção incidiu sobre "A essência do pensamento do Presidente Agostinho Neto segundo os seus poemas".
Para o professor italiano Giuseppe Grilli, “Àquela geração, chamada Geração de ’50 e que nasceu no período obscuro do fascismo português e dos tristes anos que seguiram a segunda grande guerra na península ibérica, deve-se a consolidação dum grande ponto de referência cultural europeu e mundial, não apenas africano. (..)
o que sempre se manteve vivo ao longo de toda a produção poética de Agostinho Neto é também outro aspecto que acho interessante nomear aqui, num contexto tão “europeo” como Paris, que é a sua grande solidariedade com a cultura não só lusitana, como tamém ibérica e portanto mais geralmente ocidental; isto tudo, porém, sempre sem cair no fácil risco de banalizar os conteúdos no sentido do folclorismo, como pode ser o recurso a estereótipos como a saudade e o primitivismo”.
José Luís Mendonça afirmou que “Na poesia de Neto, o panorama é composto de “crianças nuas das sanzalas do mato/ os garotos sem escola/ ... os contratados a queimar vidas nos cafezais/ os homens negros ignorantes/ que devem respeitar o branco/ e temer o rico/ ... bairros de pretos/ além onde não chega a luz eléctrica/ ... com fome/ com sede/ com vergonha/ ... com medo dos homens” (Adeus à hora da Largada)
De acordo com René Depestre, “Os fatos sociais disfarçados em fatos raciais inseriram nos antagonismos de classe graves conflitos de identidade cujos nefastos efeitos, décadas após a abolição da escravatura, actuam ainda, em graus diferentes, na vida dos descendentes de escravos das nossas sociedades.”
Porém, esse “mito semiológico que hierarquizou e regulou o valor dos homens a partir da sua cor” é desfeito na narrativa épica de Neto.
O homem negro volta a assumir plenamente o seu lugar na civitas, e nos versos do Poeta, adquire a dignidade de pessoa humana “pelo direito/ de viver pensando viver agindo/ livremente humanamente.” (Dois Anos de Distância). E quando o Poeta diz “simplesmente/ que o colosso de certeza na humanidade do Universo/ é inapagável/ como o brilho das estrelas” entoa o paradigma poético de ressurreição da natureza humana (nem negra, nem branca)”, concluiu José Luís Mendonça.

Vida e obra de Agostinho Neto celebradas em Budapeste

O Dia do Herói Nacional foi celebrado em Budapeste, Hungria, com uma série de conferências acerca da Vida e Obra do Fundador da Nação Angolana.
As celebrações tiveram lugar no dia 17 (Quarta-feira), durante todo o dia, no Salão Nobre da Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd (ELTE) da Hungria, tendo sido marcadas com discursos de abertura da Embaixadora de Angola naquele país da Europa do Leste, Drª Lizeth Pena, do Decano da Faculdade de Letras da Universidade da Hungria, Tamás Dezsó, do Senhor Sándor Balogh, presidente da Associação África-Hungria (AHU) e da Senhora Edit Kiss, da Secção África Austral da Casa do Comércio Húngaro (MNKH).
Membros do corpo diplomático acreditado na Hungria, com destaque para os embaixadores do Brasil e de Portugal, e membros da comunidade angolana radicada na Hungria, funcionários da Missão Diplomática de Angola em Budapeste e estudantes do Departamento de Português da Faculdade de Letras da Universidade Eotvós Lorand da Hungria participaram das celebrações.
O percurso do Presidente Agostinho Neto foi abordado em dois painéis, designadamente: “Vida e Obra de Agostinho Neto” e “Agostinho Neto: o Poeta”.
No primeiro Painel foram feitas três comunicações, sendo duas por Arlindo Isabel, docente da Faculdade de Ciências Sociais e director do Gabinete de Informação e Documentação da Universidade Agostinho Neto, sobre “Agostinho Neto: Estudante, Médico e Político” e “Agostinho Neto: O Revolucionário e Primeiro Presidente de Angola Independente”.
O professor Doutor Gábor Búr, director do Departamento de História Contemporânea da Faculdade de Letras da ELTE apresentou uma comunicação intitulada “O Perfil de Agostinho Neto entre os Dirigentes Africanos do Século XX”, enquanto que, no II Painel, a Drª Éva Tóth, tradutora do livro Sagrada Esperança de Agostinho Neto para a língua húngara, abordou o tema “Agostinho Neto: o literato”.
Arlindo Isabel destacou o perfil de Agostinho Neto como estudante exemplar, político e revolucionário dotado de uma grande sensibilidade humana e de estadista preocupado com a verdadeira independência do seu país e pela dignificação do homem angolano, através da sua emancipação social, política e económica. Recordou as palavras de ordem “Na Namíbia, África do Sul e no Zimbabwe, está a continuação da nossa luta”, que expressa a sua dimensão revolucionária internacionalista, “O mais importante é resolver os problemas do povo”, que mostra a sua preocupação pela dignidade do homem angolano, que passa pela conquista da paz e pela educação e instrução da população e pelo trabalho árduo em prol do desenvolvimento do país. Agostinho Neto rejeita todas as formas de neocolonialismo e chama a atenção à África, quando, em Cartum, na 15ª Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da então Organização da Unidade Africa (OUA), constata: “África Parece um corpo inerte onde cada abutre vem debicar o seu pedaço”.
Além das palestras, o programa incluiu ainda a leitura de poemas de Agostinho Neto, extraídos das obras Sagrada Esperança e A Renúncia Impossível, por parte de estudantes e leitores do Departamento de Língua Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade Eotvos Lorand da Hungria e funcionários da Embaixada de Angola em Budapeste, uma exposição de livros de autores angolanos, editados pela Maymba Editora, livros e DVD’s de Discursos de e sobre Agostinho Neto, uma oferta da Fundação Dr. Agostinho Neto, e uma exposição de retratos de Agostinho Neto, pintados pelo artista plástico angolano Moisés Kwanza, residente na Alemanha, e ainda uma exposição de capas de livros existentes na Biblioteca Central da Universidade da Hungria, sob o título “Angola nos espólios da Biblioteca da Universidade ELTE”, cuja apresentação coube à curadora e directora da referida biblioteca, Drª Katalin Kalóczi.

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