Um convite à leitura de Uanhega Xitu

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Os grandes artistas jamais conhecerão todos os que são contagiados e transformados pela sua obra.

Um convite à leitura de Uanhega Xitu
Um convite à leitura de Uanhega Xitu

 O escritor Uanhega Xitu é disto um exemplo paradigmático. Tomei contacto com sua obra, ainda na infância - década de noventa, motivado por uma entrevista que concedeu à Luís Kanjimbo no programa que a “nova televisão” se encarregou de aniquilar: o leituras. Este programa foi responsável pela minha iniciação e socialização literária onde Agostinho Mendes de Carvalho - Uanhega Xitu o único poeta que se escreve o U, o poeta de kimbudu, como ele mesmo dizia, ocupa um lugar de destaque.
Não tive oportunidade de ler todos os seus livros. Daqueles que pude, posso dizer que encantei-me com o amor de “Manana”, chorei enfeitiçado por “Kahitu”, pasmei-me com os recados em “Cultos especiais”. Mas, foram o “Discursos do Mestre Tamoda” e o “Ministro” que me fizeram rir e reflectir. São estes dois últimos que mais me marcaram. O primeiro foi responsável pela grande popularidade que o autor granjeou, quando saiu ao público, pela primeira vez, em 1973. O segundo publicado sete anos mais tarde, em 1980 rapidamente passou a ser referência nacional e alvo de várias reedições.
Em “Discursos do Mestre Tamoda” o autor recria o ambiente da Angola colonial dos anos 1940, particularmente da sua terra natal, Icolo e Bengo onde a trama decorre. Servindo-se da sátira soberbamente articulada na sua linguagem e fluida o autor denuncia as incongruência resultantes da assimilação de valores do colonizador pelos autóctones. Tamoda encarna o típico assimilado que procura, pelo exibição de sinais de domínio da língua e dos modos da classe dominante, ascender de classe numa sociedade dividida racial e culturalmente. Uanhenga Xitu remete-se para o universo das contradições cidade-campo ao mesmo tempo que elucida como a língua – a mais poderosa arma do colonizador – pode ser mobilizada contra ele.
Em o “Ministro” o autor mistura realidade e ficção para, por meio das suas vivências e relatos ouvidos, ambientar cenas da Angola independente mono-partidária. Trata-se de um romance que beira ao autobiográfico e põe a nu o homem do povo, confrontado com esquemas das bichas na loja do povo e o estatuto de governante. Em ambas é notável a performance da linguagem recriada, ora para violentá-la com o fim de a subjugar e libertar o autóctone, ora para captar ao pé das sensações os dilemas e contrastes de uma sociedade que se construía em bases socialistas.
Vale a pena ler Uanhega Xitu, especialmente, estas duas obras cuja pertinência está plasmada na actualidade dos temas que encerram. Há melhor forma de o homenagear e imortalizar o criador do “homem de ndunda”?
Mbangula Katúmua

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