«Vamos descobrir Angola» Um slogan de origem apócrifa

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Para aquilo que interessa à reflexão importa formular uma pergunta acerca do autor responsável pela formulação do lema «Vamos Descobrir Angola » e em que texto tal teria sido feito?

VAMOS DESCOBRIR ANGOLA: Um slogan de origem apócrifa
Viriato da Cruz

Na entrevista concedida a Michel Laban, e respondendo a uma das perguntas sobre este slogan, António Jacinto dizia: «Vamos Descobrir Angola não é criação nossa, é um propósito que nós adoptámos. Porque esse slogan já vem de 1948 – quando Viriato da Cruz e outros, se reuniam em casa do Ilídio Machado e começaram a trabalhar no sentido de uma literatura nova»1. Numa carta a Michel Laban, datada de 11 de Dezembro de 1988, ainda a propósito do slogan, António Jacinto, volta ao assunto:
Uma coisa poderei afirmar: não fui eu que o criei. Mas que existia, e está subjacente a toda a prática e escrita da época […]. Talvez ninguém o tivesse usado em letra de forma antes do Mário de Andrade, na Antologia de 1958.
Mas o slogan estava expresso na nossa correspondência de então (Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário de Andrade, Augusto dos Santos Abranches, António Jacinto e talvez outros). Vamos lá saber agora quem lançou a palavra de ordem? Talvez não tenha sido também o Viriato, que pouco ou nada evocava esse tempo da sua vida. E o mais certo é que nenhum grupo de pessoas se sentou a uma mesa e disse:
Vamos Descobrir Angola» 2.
Antero de Abreu fala de um movimento “Vamos Descobrir Angola”, que presume ter surgido em 1946, com o qual não teve contacto. Por isso diz:
«Ou eu já cá não estava, ou então isso surgiu sem eu saber, à minha revelia».
Em 1948, encontrava-se em Portugal a estudar. Acrescenta no entanto que «através do Neto fui sabendo do que se estava a passar aqui e dos jornais que iam saindo e nos quais eles publicaram poesias minhas […]».3
No seu longo testemunho reunido em entrevista, também concedida a Michel Laban, Mário Pinto de Andrade, que se refere abundantemente ao slogan, afirma: «Portanto, havia um lado ideológico que está presente na maneira como eu me referi ao movimento “Vamos Descobrir Angola”4». E acrescenta ainda, referindo-se ao prefácio da Antologia de Poesia:
[…] é a primeira vez que eu o formulo para dar conteúdo ideológico à agitação que se produziu verdadeiramente […]. Houve, portanto, um lado ideológico, uma certa formulação que ultrapassa um pouco o real. É aí que está a ideologia […]. Fiz assim uma formulação que não correspondia à realidade, mas que correspondia à intenção:
estava na cabeça de Viriato da Cruz. E é isto.
Esta confissão de Mário Pinto de Andrade é feita uma década após as reflexões de Mário António Fernandes de Oliveira. Num texto datado de 1977, Mário António, que esteve de certo modo ligado ao grupo de poetas que publicaram na revista Mensagem, refere que só tomou conhecimento do slogan, «transformado em crisma, através da Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, de Mário Pinto de Andrade, editada por Pierre-Jean Oswald em Paris, em 1958»5. A respeito da autoria do slogan atribuída a Viriato a Cruz, Mário António escreve:
Fui companheiro diário de Viriato até à sua saída de Angola e muitas vezes falámos destes factos [revista Mensagem, o texto de Mário de Alcântara Monteiro que marcando o nome de Viriato da Cruz na nova Literatura Angolana, o Caderno e as antologias de Mário Pinto de Andrade]. Ele tinha uma posição displicente sobre eles, falava em projetos literários que lhe haviam pertencido como se de coisa alheia tratasse. Sobre Vamos Descobrir Angola não reclamava autoria ou participação […]6.
No mencionado texto, Mário António recorda imagens que retinha na memória, dizendo o seguinte: 3 […] no ano de 1945, ano da nossa entrada no Liceu, em Abril, simultânea com o exercício cívico de uma semana de manifestações estudantis: a “malta” em cortejo até ao Consulado da Alemanha, ao lado do Balão […] as nossas lembranças desse ano incluem dois ex-alunos, vestidos «à adulta», com factos azuis: um homem magro, já trabalhando em repartição pública, o que viria a ser o primeiro presidente da República Popular de Angola; e um homem atlético e sorridente, que tinha acabado de sair do liceu e «iria para a Metrópole estudar, o falecido Américo Boavida, morto no campo de guerrilha.»
Há aqui testemunhos complementares de dois companheiros de geração e outro de um membro da geração imediatamente a seguir, por conseguinte, mais novo quanto à idade. António Jacinto não atribui a autoria da formulação a qualquer um deles. Mário Pinto de Andrade confessa a estratégia de manipulação “ideológica” por si ensaiada, mantendo-se a dúvida quanto ao autor do lema ou do slogan.
O que confirma a natureza apócrifa do texto de Mário Pinto de Andrade, tal como o caracterizou Mário António.
Uma coisa é certa, aquela manipulação arquitetada por Mário Pinto de Andrade, traduzindo um verdadeiro discurso performativo, quando escreve o prefácio à Antologia, na qualidade de sujeito participante do ambiente vivido na década de 40, acabou por estar na origem de uma cadeia de falsas representações, encorajando uma certa indolência intelectual e metodológica perante a relevância de determinados aspetos históricos do fenómeno literário angolano. Prova disso é, por exemplo, o ensaio crítico de Salvato Trigo A poética da “Geração da Mensagem” 7que se revela como um estudo precipitado e desprovido de qualquer ossatura quanto aos fundamentos históricos, no que diz respeito àquilo a que chamou Movimento “Vamos descobrir Angola”.Não estou com isso a negar a importância de tal facto fortuito que foi, de resto, uma autêntica consagração. Pelo contrário, julgo que o slogan facilitou, em certa medida, a localização da literatura angolana no espaço e no tempo. Mas o tratamento que lhe é conferido não equaciona a questão nuclear.
Colocado o problema nos termos de se saber se teria o slogan sido ou não formulado por um dos membros daquela geração, reputo indispensável a leitura de textos publicados na época.
E vamos fazer este exercício incidindo exclusivamente sobre a produção ensaística de um dos seus membros. Ora, se levarmos às últimas consequências o reconhecimento do esforço de manipulação reivindicado por Mário Pinto de Andrade chegaremos a conclusões reveladoras. É que a sua estratégia de formulação e reivindicação da paternidade, revela bem a aparente ausência de uma personalidade liderante na geração de 48. Apesar de Viriato da Cruz ter sido aclamado como exímio poeta, considerado «homem pivot»8 e autor moral do lema em apreço, o procedimento deste ensaísta de Mário Pinto de Andrade parece apontar implicitamente em Viriato da Cruz qualidades da personalidade liderante. Limitando-nos às circunstâncias, à estrutura etária dos integrantes, ao nível de formação escolar e ao momento em que se revela essa geração, seríamos, ao invés, tentados a reconhecer o perfil da personalidade liderante naquele jovem, cuja audácia se sublima na construção de um texto que resume o pensamento de todos. Há algo de seminal no texto de Agostinho Neto, relativamente à necessidade de um lema semelhante a “Vamos Descobrir Angola”, quando escrevia:
Acho, porém, que a mezinha apropriada para anular os efeitos perniciosos bastante do eurotropismo seria começar por ‘descobrir’ Angola aos novos, mostrá-la por meio de uma propaganda bem dirigida, para que eles, conhecendo a sua terra, os homens que a habitam, as suas possibilidades e necessidades, saibam o que é necessário fazer-se, para depois querer.
O espetro semântico desta ideia programática, que apresenta uma radical pertinência com a rutura e a inauguração de um novo discurso poético, vem assinalar, ao lado de outros aspetos, o momento genético das expectativas e aspirações da geração.
A partir das palavras de Mário Pinto de Andrade, pode discutir-se a problemática da existência ou não de uma figura que nessa geração tenha assumido ou pudesse ter assumido a função de guia intelectual. Se o guia é aquele que lidera pelos seus posicionamentos e intervenções, façamos então um exercício para definir os seus contornos. Não estou aqui preocupado com a liderança política cujos critérios de aferição são totalmente diferentes daquilo a que chamo neste contexto personalidade liderante da geração literária. Do mesmo modo que, situando-me no plano da análise histórico-literária e por razões de método, não posso confundir o conceito de geração literária com o de geração política, apesar da sua proximidade, pois eles intervêm em campos totalmente diferentes.
Ora, do ponto de vista da categorização etária e geracional Agostinho Neto e Viriato da Cruz apresentavam uma diferença de seis anos. Agostinho Neto nasceu em 1922. Viriato da Cruz nasceu em 1928. Traduzidos os seis anos no plano da escolaridade, teremos um factor susceptível de concorrer para a explicação de uma diversa ordem de questões que se levantam a respeito daquele que poderia ter sido o guia intelectual dessa geração.
Mas a data de nascimento, sendo um indicador, não é aqui relevante.
Há que articular todos aqueles factores conformadores do conceito de geração literária.
É essa necessidade de articularmos na globalidade os elementos que compõem o vasto universo da literatura angolana que justifica a consagração,
cada vez mais, de estudos aprofundados sobre as várias gerações literárias, continuidades e rupturas, e seus respectivos actores.

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