VI encontro de escritores da CPLP

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Um mundo de afectividade a explorar para além da crise económica-financeira.

VI encontro de escritores da CPLP
Vereador da Praia, António Sailva, ministro Mário Sousa e Víctor Ramalho, da UCCLA

"Um encontro de escritores, hoje, em Cabo Verde, é um momento de comunhão, harmonia e marca um processo de pensamento evolutivo e dinâmico. É a expressão da vontade de nos universalizarmos e sermos gentes cada vez melhores. Lutámos para libertar a língua. E hoje falamos de uma língua comum, nossa, numa perspectiva salutar de convivência entre os povos”, assim o ministro da Cultura cabo-verdiano, Mário Lúcio Sousa, caracterizou, na sessão de encerramento, o VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, promovido pela UCCLA, de 1 a 3 de Fevereiro, na cidade da Praia. Victor Ramalho, secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), tocou no mesmo diapasão, ao referir que foi o inter-cruzar de culturas que esteve reflectido ali na Praia. “E isso é muito importante, numa altura e num período em que os nossos povos e países sofrem os efeitos da crise. Nenhum deles escapa a esta situação e, portanto, há, para além da crise económico-financeira, um outro mundo que nós temos de explorar em termos de afectividade."

Com a cidade da Praia envolta em bruma seca, o presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, pronunciou, na sessão de encerramento, uma dissertação sobre “Arménio Vieira, o cultor da língua de Camões”, mas nas vestes de poeta, após a prelecção da escritora Ondina Ferreira sobre o vate cabo-verdiano.
O terceiro e último painel do VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP), implementado em conjunto pela Câmara Municipal da Praia e a UCCLA, teve como tema “A poesia e a música”. Cabo Verde é um lugar onde a poesia é música à espera de ser cantada. Na poesia e na literatura em geral, o som está sempre presente e importa até quando se lê em silêncio. A música contribui para divulgar o trabalho dos criadores, como é o caso do cantor angolano Rui Mingas, que compôs Poema da Farra, de Mário António e outros poetas, como disse a poeta Ana Paula Tavares, embora, muitas vezes, quando a música se apropria da poesia rasura, apaga o seu autor. Já o poeta e compositor português, Zeca Medeiros, é de opinião que há um certo desleixo, uma incultura na Comunicação Social que não esclarece as pessoas sobre a autoria das letras de certas canções.
No 6º Encontro de Escritores de Língua Portuguesa – com encontros antes realizados em Brasil, Angola e agora Cabo Verde – evidenciou-se um conjunto de ideias relevantes que, desejavelmente, contribuirão doravante para a consolidação da língua portuguesa como factor de união entre todos os que falam português, pode ler-se no comunicado final saído do conclave e lido pelo escritor timorense Luís Cardoso.
Estiveram representados todos os escritores dos países de língua portuguesa e também da região autónoma de Macau. “Como sempre, Angola (com Paula Tavares e José Luís Mendonça) tem uma representação condigna e de alto reconhecimento em termos das letras”, explicou Victor Ramalho. “São cerca de trinta escritores, representantes dos países e povos da CPLP, e que demonstraram, nestes encontros regulares, uma consciência universalista e tolerante verdadeiramente marcantes”. Victor Ramalho disse que “isso dá-nos conta da singularidade que temos neste mundo global”.
No encontro, assistiu-se a um contínuo diálogo e troca de experiências entre os escritores das literaturas dos diferentes países, bem como a uma partilha activa com a população, sempre em parceria com as Câmaras Municipais da Ribeira Grande de Santiago e da Praia.
Indo ao encontro da preocupação de se estender esta iniciativa a outros públicos, o debate extravasou para a Cidade Velha e para o Tarrafal, em sessões literárias organizadas pelos respectivos municípios.

Estudo da literatura
no currículo escolar
Tendo em atenção que é no ambiente escolar que deve ser feita a difusão dos valores que sedimentam a ligação das raízes dos povos da Comunidade (CPLP), a conferência propôs a introdução nos currículos escolares do estudo das literaturas dos países membros da lusofonia.

Visita à Cidade Velha
Fez-se a afirmação das raízes históricas e do património material quinhentista de Cabo Verde. Plataforma de comércio. E de escravatura. Como dizia o Padre António Vieira, com as mercadorias vão as ideias, trazendo para estas ilhas a cultura católica europeia de transição entre medievalismo e o renascentismo.
António Vieira faz a síntese da cultura cabo-verdiana clássica ao referir-se aos sacerdotes negros da Ribeira Velha, como negros como azeviche mas com retórica superior aos cónegos da Sé Velha de Lisboa.

Exposição da Casa
dos Estudantes do Império
Inaugurada no Centro Cultural de Portugal na Cidade da Praia, a exposição sobre a afirmação de um desejo de independência do conjunto das colónias portuguesas através de uma elite intelectual que, de Agostinho Neto a Amílcar Cabral, de Rui Mingas a Pedro Pires, rapidamente se afirmará como a primeira grande elite política histórica dos novos países, gerando a independência e a construção de novos Estados.
Entre a casa do Império e a realidade actual, a língua portuguesa é o grande elo de união.
Literatura e a Diáspora
A Diáspora constitui o fenómeno histórico da Lusofonia, do séc. XVI até hoje. Sem a realidade histórica da diáspora e a sua actualidade, dividida em 8 países independentes, não existiria Lusofonia. Neste sentido, enquanto que para outros povos e no passado a diáspora pode ter um sentido depreciativo, na Lusofonia a diáspora possui um sentido positivo, núcleo difusor da vivência literariamente criativa da língua portuguesa em todo o mundo, como se prova na obra de Guimarães Rosa, de Mia Couto ou de Eugénio Tavares.

Novos Escritores de Cabo Verde
O debate centrou-se em torno de um conjunto de preocupações dos novos escritores cabo-verdianos, divididos entre o aprofundamento das antigas técnicas de impressão do livro e a sua difícil difusão comercial pelas ilhas do arquipélago, e a adesão às novas tecnologias da comunicação digital. Segundo os jovens autores, as novas tecnologias não alterariam o ritmo, o lirismo e o dramatismo próprios da literatura.

Literatura e Insularidade
Vinculada ao isolamento e à solidão, a ilha foi literariamente concebida como “cais de partida e de chegada”. Embora realidade penosa, a ilha evidencia-se como inspiradora de motivos e estilos literários. Como partida é sinónimo de aventura, de busca. Como chegada, é sinónimo de raízes.
Entre a partida e a chegada, ergue-se a saudade.
A insularidade torna-se, assim, raiz e centro de uma universalidade.

Poesia e Música
Cabo Verde é um lugar onde toda a poesia é música à espera de ser cantada. E de uma forma muito singular, junta a canção de revolta com a canção de festa. Na poesia e na literatura em geral, o som está sempre presente e importa até quando se lê em silêncio.

Novos Prémios
Este 6º Encontro foi oportunidade escolhida para a apresentação de dois novos prémios:
1. Prémio Literário UCCLA “Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa”.
2. Prémio Cabo-Verdiano de Literatura do BCA.
E foi também oportunidade para a apresentação do mais recente volume da colecção Literatura e Lusofonia, editada pela UCCLA.

A palavra dos escritores
Goretti Pina, escritora santomense, acredita que falta divulgação dos jovens escritores. Por isso, disse, os prémios são sempre bem-vindos, porque é sempre uma oportunidade para os autores desconhecidos. “Eu própria já ganhei prémios literários que tiveram extrema importância para mim, pois de outra forma seria mais difícil a minha aparição.”
João de Melo, escritor português dos Açores, detectou semelhanças e pontos de aproximação, pois “é o mesmo drama do isolamento, o mesmo problema da insularidade, o mesmo instinto de fuga para o exterior, ao encontro da liberdade económica”, entre Cabo Verde e os Açores, países que considerou “de fortíssima emigração” que “entra na linha do despovoamento”. Verificou também uma “complementaridade literária”, sobretudo na poesia: “a poética cabo-verdiana podia ser açoriana e vice-versa”.
O português José Fanha, sempre bonacheirão, do alto dos seus suspensórios, considerou que “a poesia portuguesa foi sempre a espinha dorsal da cultura portuguesa, desde há 800 anos. É a poesia que passa para os novos países de língua portuguesa e que vai constituir o factor identitário, é através da poesia que nasce a identidade cultural do Brasil no século XVIII, de Angola, Moçambique, Cabo Verde, no século XX.” Yao Jing Ming, de Pequim, disse que o encontro foi uma experiência muito positiva e rica. “Bebi muito conhecimento, troquei experiências, e este encontro alargou a minha visão para o acto de escrever, sobretudo em língua portuguesa”, língua que se fala cada vez menos em Macau.

Dona Beba,
segunda mãe de Luandino
Na nossa visita ao Tarrafal, com os seus vestígios de dor e sofrimento coloniais, deparámos, inesperadamente, com uma senhora de 105 anos, que foi a segunda mãe de Luandino Vieira: Dona Beba (Eulália Cândida Fernandes). “Quando o Luandino Vieira esteve aqui preso, a esposa e o filho vieram, mas não tinha cá nenhum restaurante, nem hotel, ficaram aqui na minha casa. Depois que foram embora, eu passei a mandar uns bolinhos, umas poesias, fomos muito amigos. Como ele não podia sair da prisão, eu ia lá, por altura da Páscoa e do Natal, dava-lhes um lanchinho para os presos de Angola, os presos de Portugal, todos os presos... Conheci também o António Cardoso e um outro escritor que morreu há pouco tempo, o Mendes de Carvalho”.

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