Vidas de areia, de Divaldo Martins

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O romance escrito por Divaldo Martins.

Vidas de areia, de Divaldo Martins
Livro

Com quarenta capítulos e organizado em duas partes, o extenso romance escrito por Divaldo Martins e publicado pela Texto Editores (Luanda) é um livro ambicioso, mas/e conseguido.
São muitas as personagens, os episódios e os locais (Sambizanga, Miramar, Lisboa, Cidade do Cabo) que Divaldo nos vai fazendo conhecer ao longo da obra, cujo tempo cronológico corresponde aos longos anos de guerra civil e aos primeiros tempos de paz.
Para unir e ir mantendo esta diversidade de elementos presentes ao longo da narrativa, Divaldo constrói uma estrutura que nos vai permitir, a nós leitores, nunca perdermos de vista as várias personagens, oferecendo, a cada novo capítulo, a voz de narrador a uma delas, tal como se pode prever no subtítulo da obra.
Outro dos aspetos que auxilia a arquitetura do romance consiste na proximidade e ligações entre as personagens que se vão manifestando ao longo de uma história cujo início fazia crer apenas no enorme afastamento entre elas (como Ngola, Firmina e João) – uma distância não geográfica, mas de classe, que Divaldo explicita através, sobretudo, dos espaços Sambizanga e Miramar e das personagens Divua e Tchissola, que, a dado momento, não só se ligam, mas se confundem, enganando a personagem Tuka e o leitor mais desatento.
É talvez devido a esta densidade do enredo, seus personagens e tempos de narração que Divaldo não procura experimentalismos ou inovações estilísticas (tendência que se tem vindo a manifestar na literatura angolana), guiando o leitor e as personagens numa prosa descritiva e, às vezes, poética.
Esta poeticidade encontrámo-la mormente nos excertos que pretendem homenagear as mães e mulheres angolanas, às quais, no fundo, esta obra é dedicada. Por este motivo e outros, relacionados com a coragem, o descomplexo e o despreconceito do autor, que inclui, no livro, algumas cenas libertas de tabus e pudores, seria interessante executar uma leitura e análise psicanalítica do romance. E isto não apenas pelos seus momentos altamente edipianos (“Às vezes não tens vontade de matar o teu pai?”, p.134), mas, de igual modo, pelo jogo de géneros e sexualidades que o autor vai expondo.
Com este segundo livro, Divaldo junta-se a um grupo de escritores angolanos que, seguindo o realismo histórico das gerações anteriores, nos trazem uma Luanda do tempo da guerra civil, que é, em suma, a Luanda que o autor, nascido em 1977, conheceu. Daí surge a importância de entregar, no início da obra, a voz do narrador a crianças - tal como faz, por exemplo, Ondjaki (escritor da mesma geração) - num motivo literário anterior que remete para A Cidade e a Infância, de Luandino Vieira."

Ana T. Rocha

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