"Viver e morrer em Angola " O livro triste de Paulino Soma

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Arlindo Isabel, editor, Paulino Soma, ao centro, Luís Fernando, apresentador, e Teresa Mateus, do Camões.tif

Arlindo Isabel ( editor), Paulino Soma (ao centro), Luís Fernando (apresentador) e Teresa Mateus do Camões Fotografia: Jornal Cultura

Viver e Morrer em Angola é um livro triste sobre um tema igualmente triste: a guerra! Quando iniciei a leitura deste livro, na última semana, a primeira grande pergunta foi sobre o tempo enquanto razão para a narrativa, a sua contextualização e até pertinência. E só foi ao chegar à última página que a minha pergunta ficou respondida.

Este livro com trezentas e sessenta e quatro páginas nos serve a guerra e os seus horrores numa bandeja como possivelmente não a tínhamos visto antes. E isso sabendo que muitos outros autores angolanos o elegeram também, sendo, para mim, particularmente recomendável por exemplo, Aníbal Simões no seu “Entre a Morte e a Luz”, editado em 2002.
O que tem de diferente a obra Viver e Morrer em Angola de Paulino Soma é, sem dúvida, o modo como se mostra a violência da guerra que esventrou Angola, o sofrimento dos homens que a fizeram de armas na mão mas, essencialmente, a vulnerabilidade das populações indefesas. Digamos que o modo tão pateticamente selvagem como “o capim” sofreu nesta contenda “de leões”, recorrendo à célebre alegoria da sabedoria bantu.
Se o quisermos reduzir a uma linha de síntese, a tal pergunta clássica sobre o que é que o livro conta afinal, diremos que o livro relata o sofrimento das gentes de Caconda, município da província da Huíla de onde é natural o autor, nos sobe-e-desces de uma guerra com vencedores precários e heróis um tempo, mas que passadas semanas, meses ou anos, estão transformados em derrotados também eles.
A trágica experiência das populações de Caconda é personificada essencialmente pelo destino da família de tio Ngoma e tia Katumbo, os pais do soldado Jamba, que combatia pelas FAPLA e tinha como nome de guerra “Enyenya”; pais também de Catarina, ingénua rapariga do campo que um dia chega ao Lubango mas que, devido ao fim de uma paz que durou pouco, se vê impossibilitada de regressar a Caconda e é obrigada a todo o tipo de expedientes na grande cidade para poder sobreviver: vende fuba-limpa no mercado municipal, os fiscais levam-lhe a mercadoria sob o pretexto de não pagar a taxa devida; mais tarde descobre o amor e a traição, fica sozinha e é encorajada por uma amiga – Rosária – a avançar para o caminho da prostituição; é o épico amor atrapalhado pela guerra da fidelíssima Florença pelo soldado Jamba, que não o aceita porque enquanto anda em batalhas não quer o risco de mais uma possível viúva para engrossar o grande exército delas; um amor para lá do provável, que a despeito das reticências do soldado Jamba tem uma janela de sorte com a concretização do nascimento de um filho, Zezinho, que nunca chegará entretanto a ver o pai Jamba que morre na guerra mas a informação sempre foi ocultada à família, o que provoca uma dolorosa procura de mãe, filho e irmã do soldado desaparecido, e que culmina com a trágica morte da esperançosa Florença em escaramuças citadinas em pleno Lubango, com um tiro na região abdominal…
Mas muito para lá das histórias paralelas que vivem as muitas personagens que povoam esta obra, acho que o que marca verdadeiramente a leitura e a nossa aproximação ao conteúdo do livro é o constante recurso à brutalidade da guerra, à violência sem fim e que não tem elemento a poupar na atribuição de responsabilidades às forças em presença. O autor é contundente na descrição e na crítica com factos das acções bárbaras cometidas pelos guerrilheiros da Unita, que identifica sem subterfúgios como as FALA; e é igualmente muito frontal na crítica aos excessos dos soldados que combatem pelo lado governamental, as FAPLA no começo da guerra – década de 80 – e as FAA, depois de constituídas em 1991.
Esta será com certeza outra das particularidades notáveis deste livro e que determinará certamente que seja muito procurado por todos, porque esteve muito longe, em todo o processo da sua criação, a tentação maniqueísta de separar a causa entre «bons» e «maus». O livro foi concebido, nitidamente, para ir mais longe, não encalhar numa espécie de tribunal de simpatias, condenando uns e absolvendo outros.

Testemunho de uma guerra
Não apenas levamos para casa um testemunho de uma guerra que, por muito cruel que tenha sido, é uma realidade da História, como também somos brindados com um extraordinário desempenho de escrita, surpreendendo a capacidade que o autor mostra de construir diálogos, de dar-nos a plástica dos episódios e até a densidade dos medos que acorrentam quem neles está envolvido.
Logo no princípio, por exemplo, na página 18, há um relato absolutamente genial de um momento típico da guerra nas pequenas localidades, onde os quartéis, os destacamentos e todo o tipo de agrupações de tropas estavam praticamente misturados com a população. Tinha havido um ataque perto de Caconda, as FALA haviam investido contra as FAPLA e o resultado foram as quase sempre inevitáveis baixas, entre mortos e feridos. Os habitantes foram então até ao quartel, para terem notícias sobre os seus familiares, os seus amigos, os seus conhecidos. Vou ler-vos a descrição ipsis verbis: «No bairro Primeiro de Maio, muitas pessoas sofriam da mesma ansiedade, porque muitos dos seus filhos, familiares ou parentes eram militares. O sol subia cada vez mais alto e, de repente, havia choros e sorrisos em diferentes lugares do município. Grande era a alegria dos familiares cujos filhos haviam voltado dos campos de combate. Tristeza imensurável era para aqueles que, através de um parente, tinham tomado conhecimento de que seus familiares não haviam voltado, ou, tendo voltado, alguns tinham vindo com os olhos abertos, outros com os olhos fechados, mas todos esses já não pestanejavam» - fim de citação. Verdadeiramente brutal este trecho, puro rasgo de realismo fantástico à moda dos mestres latino-americanos.
Ao longo do livro, deliciamo-nos em muitos outros momentos com magníficos rasgos que denotam uma superior capacidade de construção frásica do autor, aliada a uma estrutura de pensamento filosófico que constantemente deixa lições, apela a reflexões.
Por exemplo:
“ – Neste país há muitos mortos e muitas vidas mortas!
“Os rostos alegres e os tristes repentinamente entreolhavam-se e, aqueles alegres, tornavam-se tristes também;”
“Menino, menino, os meus olhos, agora cansados, já viram muitas coisas, e das coisas que viram que trazem o bem das pessoas, a guerra não está lá, não está não; Mas das coisas mais assassinas, e mais malditas, e mais ingratas que eu já vi, das coisas que fazem mesmo crescer a miséria e a fome e a dor, das coisas que despejam o sangue das pessoas, que não respeitam a vida, a primeira mesmo é a guerra. Por isso, é melhor pensar bem antes de ires lá, na guerra. A guerra tem garras que tiram sangue.”
A banalização da morte e a insensibilidade de que uma guerra se cobre são estados de espírito que também vale a pena que os apreciemos, no modo frio e franco como o escritor Paulino Soma os descreve. É uma conversa entre o sargento Mingo e o soldado Enyenya, nome de guerra de Jamba, ambos pertencentes às forças governamentais:
“- Hum, e como é que aprendeste a conviver com esta realidade tão cruel, sargento?!
- Fazendo a quitota com todo o meu corpo, com todo o meu coração, com toda a minha força, com toda a minha alma e com todo o meu amor. Eu adoro o gatilho, mô mano, e isso não me faz dizer que a nossa realidade seja bué malaiki como tu dizes.
- Adoras o sangue também?
- Tu continuas a ser um tropa de merda, meu. Porra! Um dia bates a cassuleta só porque não quiseste bondar. Na quitota é tudo ou nada. Eu sou um nganzado, Enyenya. Tu me sabes. Não poupo o meu inimigo quando tenho a oportunidade de o bondar. Mato os gajos a rir. Quando vejo os gajos a sangrar e a caírem no chão, me cuya feio!
- És um assassino de primeira, sargento!
- E tu pensas que te nego? Nem pensar; eu sou mesmo um assassino. No princípio também fui santinho, mas não tão santinho como tu. Quando vi os meus cambas a serem mortos como cães, eu preferi me tornar num cão danado, mô mano, com muita raiva para tudo o que é do lado do meu inimigo. Deixa-me te dizer um bizno que te servirá de conselho: a maior parte dos meus colegas que eram santinhos, assim como tu, não duraram muito! Baicaram! A quitota não é para santinhos, é para diabinhos! E se tu estás na quitota, para viveres mais tempo, precisas de te tornar num diabo, num grande diabo para levar aqueles kwatchas no Inferno.
- E quando, em vez do inimigo, morre um civil, um homem, uma mulher ou uma criança, ficas bem?
- Não no momento em que vejo a cena. Mas depois de dar as costas, mando tudo para o sítio mais escondido da minha consciência e, aos poucos, vou esquecendo. Então continuo com a minha missão de militar. Epa, a nossa intenção não é mesmo matar civis porreiros mas, às vezes, os nossos bagos, sem querer, vão dar neles. Ó meu, o que é que eu tenho a ver com isso?! Aliás, também já salvei civis. Também, sem querer, é claro, já bondei alguns. Mas, spera aí, Enyenya, tu tás a querer dizer-me que nunca bondaste nessas poucas missões em que estiveste? Eu mesmo já te vi a bondar os kwatchas.
- Já matei, sim. Mas confirmo que matei só adversários. Civis… não sei ainda. Talvez naquelas rajadas. Eu sentiria muito remorso se matasse um civil inocente (…).
- Pois mantém a tua laive mais taime para quitotares mais. Se assim for, ainda vais galar muitas mortes por aí; a minha, a dos outros kambas, quem sabe. Vais saber então que bondar, na quitota, nem sempre é uma opção, mas é, isso sim, uma obrigação; às vezes até uma necessidade. Mas não tem makas. Chegará o dia em que bondarás sem remorso”, fim de citação.

Ngoma e sua filha
Prestem agora atenção ao relato de um ataque contra Caconda, quando guerrilheiros das FALA surpreendem um velho e sua filha menor, e todas as sevícias que se dão no ambiente febril de uma guerra.
“Catarina queria chorar nesse exacto momento. Mas com um «psiu!», o pai conseguiu impedi-la. Ela teve de obedecer, sabia que a situação era má. Os tropas aproximavam-se cada vez mais com as armas bem apontadas para o sítio. O tio Ngoma, como sempre fazia, começou a orar, a pedir que o seu Suku fizesse algum milagre para eles naquela situação, mas orava com o pensamento, a boca cerrada. Um dos guerreiros, impaciente, continuou a gritar:
- Eu vou te enfiar um tiro na cabeça! Mãos ao ar, mãos ao ar e vocês não obedecem, porra?!
Já estavam perto, tão perto que os corpos do tio Ngoma e sua filha apareciam sobrepostos:
- Estes já morreram ou estão a se fazer alguma coisa?! – disse um deles.
- Tu não vês que esta é só uma criança?! – defendeu um dos guerreiros.
O tio Ngoma queria fazer-se de morto sobre o corpo da filha, mas esta enxergou, no escuro, dois canos das armas a aproximarem-se e, desta vez, sem pensar, gritou chorando e mostrando apenas com os olhos o que via.
- Papá, estão aí!
Um dos canos da arma já estava sobre a sua cabeça, bem no occipital, enquanto os outros o colocavam um pouco distanciados.
- Levanta, mais-velho – ordenou ainda um deles.
O tio Ngoma não teve outro remédio. Embora tarde, obedeceu então. Obedeceu sem largar a filha. Mas deram-lhe com uma coronhada no ombro direito e teve de a largar nesse momento. Catarina chorava pesarosamente.
- O gajo é mafioso! – disse o chefe dos dois. – Vamos depois ver o que fazer com eles. Por enquanto, ajudam-nos a levar as mochilas até à vila de Caconda.
Duas mochilas de munições e provisões alimentícias foram entregues ao Tio Ngoma, para as levar. Catarina teve de carregar três grandes obuses sobre as costas. Devia ser insuportável o peso.”

Um livro duro
Este é um livro difícil, um livro duro, um relato com momentos de perder o fôlego e o discernimento pelo choque. Mas a guerra é exactamente isto o que aqui se descreve.
Regresso à pergunta do começo, sobre o que penso a respeito da ideia de um livro com esta temática chegar às nossas mãos quinze anos depois do calar das armas. Pois a minha resposta é franca, curta e directa: este livro é mais do que oportuno, pertinente, necessário. Porque deambulam ainda por aí os líricos que parecem não saber que os angolanos, todos indistintamente, já tivemos a nossa dose cavalar do inferno que é sempre uma guerra.
É um livro para recuperar memórias no sentido de se impedir que tropecemos de novo na mesma pedra; é um livro para dizer aos idealistas de umas certas primaveras que este é um país necessitado avidamente de paz para construir presente e futuro.
Este é um livro com voz e espaço num ano que é de eleições onde, na África imprudente que faz os nossos dias, está sempre latente o fantasma da convulsão, da paz que se periga, do sossego que se fragiliza.

LUÍS FERNANDO

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