"Wambu Kalunga em elegia" Denominador do Huambo na pena de Pichel de Lukoko

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Cem anos depois da paz colonial, forjada pela submissão dos povos autóctones do Planalto Central de Angola, o país conquistava, pelo calar das armas, a paz da reconciliação na independência, a 4 de Abril de 2002.

Pichel de Lukoko

Doze anos passados, o 4 de Abril foi a ocasião escolhida por Pichel de Lukoko, etnólogo, historiador e pesquisador da tradição oral, para apresentar a público o retrato literário do rei cuja autoridade perdurou pelas embalas e sobados que hoje integram a província do Huambo e à qual legou o seu nome para a posteridade. A obra "Wambu Kalunga em Elegia" era assim apresentada às centenas de jovens e cidadãos presentes no Pavilhão Multiusos Osvaldo Serra Van-Dúnem, na cidade do Huambo, no quadro das comemorações do Dia da Paz, um acto organizado pela direcção provincial da Cultura e pela Editora Australivros, em parceria com a Brigada Jovem de Literatura do Huambo que levou ao palco uma mão cheia de poetas.

A obra

Venceslau Cassessa, historiador, fez, de seguida, a apresentação da obra. Esta, disse Cassessa, integra três pensamentos fundamentais:
1. O Huambo e as suas gentes que, em 1902, travaram uma grande guerra contra a ocupação colonial. O desnível do material bélico, a favor dos portugueses, ditou a derrota dos nativos que, apesar de vencidos, nunca foram convencidos.
2. Wambu Kalunga foi um personagem muito importante na região do Planalto Central. A sintética narrativa situa a sua acção no século XVII, quando o caçador Wambu Kalunga saiu das terras do Sumbe e aportou ao planalto do Moko. Ali desposou a filha do soba local, adquirindo assim também o título de soba, com a responsabilidade da administração do local que viria a dar nome à cidade. Wambu era um governante impenitente, "cruel para os seus sobas de atumbu atito, com manifestos apetites canibalescos". Foi morto pelos seus acompanhantes no dia em que se dirigiu ao Etambu (tabernáculo tradicional) para exumar o cadáver do primo que julgava morto e retirar-lhe as ossadas do crâneo.
3. A parte final do livro integra uma elegia, com versos de triste memória, escritos pelo autor para elevação da figura do soma Kalunga. Apesar de ser uma figura tétrica, este é um lamento aos antepassados para que concedam um lugar na glória de Deus a Wambo Kalunga.

Um reparo a fazer, desde já, é a irregular composição gráfica da obra, com páginas alternando o tipo e corpo de letra.
Paulo Santos, da Australivros, a editora da obra, mencionou, de seguida, " um problema a partilhar: a má preparação, o pouco conhecimento que as nossas crianças possuem. Escritores, não escritores, alunos, professores, estamos todos a escrever e a falar mal a língua portuguesa. E não estamos a fazer muito esforço para melhorar", esclareceu o editor de várias obras na sua maioria escritas pela nova geração.
"O livro do mais velho pio Chiwale tem muito mérito. Vem colocar um pilar muito importante no conhecimento do que é Angola.

Porque é que o Huambo se chama Huambo. A história dos reinos da região do Centro de Angola. São matérias que precisam de ser escritas pelos mais velhos, para que não desapareça este conhecimento", concluiu Santos, com esta máxima dirigida aos jovens presentes: "é preciso ler, antes de escrever."

Alegre colheita

O autor da obra disse, a abrir, um provérbio: "quem semeia com dor, colhe com alegria. Completei um ciclo. Veni, vidi, vinci (cheguei, vi e venci). Venci por causa da Australivros, da direcção da Cultura e de todos os presentes. Com o desejo de que a realidade do nosso povo seja conhecida. A partir de Olusapo até às lendas e narrativas, canções, tudo tem de ser escrito", apelou o escritor, naquele fim de tarde de chuva planáltica.

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