A escola e seus valores discordantes

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No bairrinho pobre ia-se pouco à escola. Não é que não houvesse escolas, sobretudo primárias, só que, aos meninos do bairro, a escola aparecia-lhes inacessível e fonte de frustrações caladas. Por muito erudita que fosse, a escola não sabia falar a língua da casa, da família, do bairro, da terra...

Kudilonga

Para que lhe servia então tanta sabedoria se afinal tantas outras culturas desconhecia?! Os avós, pais e outros mais velhos que partilhavam o universo da criança desconheciam ou pouco dominavam a linguagem da escola que, por sua vez, não se limitava a formar o intelecto mas pretendia também esvaziar a alma dos que a frequentavam. Não era a escola da vida onde se aprendia como funcionam as coisas e os seres, numa dialética e num conversar que conta as estórias da vida, a ligação entre o homem e o seu meio. Era uma escola cheia de si, de costas voltadas à vivência dos meninos. Tudo ela fazia para ignorar seus saberes empíricos, incutindo no aprendizado a ambição de uma ascensão social desprovida da vontade de pertencer à sua casa, ao seu bairro...

Por isso, a meninada tanta dificuldade tinha em acompanhar programas e ensinamentos que a escola lhe impunha, às vezes de palmatória na mão, a ilustre e temida menina de cinco olhos! A discordância dos valores que a escola transmitia opunha-se às realidades vividas e ressentidas pelos meninos. A dificuldade de acesso à escola era uma estória antiga que vinha já dos avós, pais e outros mais velhos.

Aos bisavós e outros antepassados, a escola não conseguira deitar mão. Contudo, pagaram caro seu analfabetismo no novo mundo que lhes fora imposto, um mundo de escritas e regras restritas, imbuídas de valores alheios à cultura familiar que os mais velhos persistiam em transmitir a seus descendentes. Os pais entenderam que só a linguagem da escola, às vezes adquirida em detrimento de valores ancestrais, permitiria aos filhos uma identidade, que não era sua, porém, portadora de bem estar material. E aí não hesitaram, primeiro os meninos, mais tarde as meninas, para a escola mandavam os filhos, a bem ou a mal. E de lá saía ameninada com a 4ª classe feita e uma profissão nas mãos, para grande orgulho dos pais.

Alfaiates, pedreiros, mecânicos, carpinteiros, serralheiros, eletricistas, soldadores, costureiras, cozinheiras, donas de casa exemplares, esposas fiéis e mães dedicadas, esquecidas de si, meninos e meninas tornaram-se excelentes chefes de família e defensores da mesma escola para seus filhos. Abnegados, os pais contraíam dívidas sobretudo no início das aulas: compra de material, pagamento de propinas, maxim bombo, batas e outras armas exigidas pela escola e para a qual trabalhavam até à exaustão.

Os filhos, compreensivos e reconhecidos, sabiam que não deviam desiludi-los. Por isso estudavam, sérios, repetindo frases e conceitos que nem sempre entendiam, recitando rios que nunca viram, montanhas que nunca visitaram, terras e capitais que não imaginavam sequer conhecer um dia. Muitos meninos, na sua ingenuidade e despreocupação, inconscientemente lutavam para manterem sua liberdade antes de se conformarem e entrarem na linha ditada pela escola. Havia, claro, crianças obedientes e perspicazes a quem não era preciso ensinar a lição. Pouco expansivas, tímidas e retraídas, como muitas crianças dotadas e sensíveis, viviam isoladas, amarradas aos livros.

Contudo, muitos meninos havia que se ficavam pelo caminho, sem orientação, sem profissão, sem objetivos, limitados, resignados, com “metas nos olhos”, contrariamente ao que dizia o poeta. Esse desperdício escolar, na origem de certos desacertos coma vida adulta, não era avaliado nem era problema da escola. Só os êxitos e os bons alunos eram louvados. E a escola podia contar com os pais!

Os pais dos bons alunos eram respeitados pela família e amigos. Tinham sabido instruir os filhos, cumprido seu dever. De cabeça baixa, caminhavam as mães dos meninos que a escola não conseguira domar. Era por todos sabido que criança mal-educada, com maus resultados escolares, era culpa da mãe que não soubera cumprir sua missão. No campo, a escola redobrava as dificuldades, apresentava-se longínqua, inacessível. O caminho era longo e árduo para as crianças que deveriam percorrer quilómetros se quisessem frequentá-la. Ter a 4ª classe era uma grande façanha e os seus detentores eram poços de saber nos quais se apoiava a comunidade. Todavia, a escola primária tornou-se insuficiente e a 4ª classe já não garantia a ascensão social. A entrada no liceu era a próxima meta ditada pelos pais, temida pelos filhos e para atingi-la o exame de admissão aos liceus era decisivo.

Entretanto, enquanto aguardava o exame, a criança da saboreava despreocupadamente a gasosa a os bolinhos que as mães preparavam com carinho para festejar essa etapa crucial, o fim da escola primária, e o início de uma nova batalha, a entrada no Liceu.

Paris, 12 de novembro de 2011

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