Conversas com Ximinya: Era no tempo do antigamente

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O bairro era pobre, à beira do asfalto, entre a cidade e a periferia. As casas, alinhadinhas na estrada de terra batida, cor de ocre, resistiam à poeira e ao Sol. As famílias eram rigorosas, às vezes preconceituosas. Os pais, operários na sua maioria, funcionários raramente, impunham respeito e a miudagem, filhos e amigos dos filhos, temia-os. Aliás, as mães sabiam disso e enchiam-lhes os ouvidos com queixas e lamúrias logo ao chegarem à casa após um árduo dia de trabalho.

Só lhes restava mesmo pegar no cinto de fivela para castigar os mais atrevidos. As mães trabalhavam imenso em casa e para a casa, sempre com um olho na criançada que, à primeira falta de vigilância, se escapulia e se perdia em brincadeiras proibidas: jogar ao ringue sem chapéu na rua pouco frequentada por carros - poucos os tinham naquela altura - ; andar descalço no areal quente ; soltar a carapinha revolta, prisioneira nas tranças apertadinhas das meninas educadas e bem penteadas... Só que pagavam caro as escapadelas libertinas.

E era por essa razão que tanto gostavam de desafiar o interdito, escapar, às vezes, levar uma sova, quase sempre! Naquela vida feita de esforços consentidos, cedo se aprendia que não ia ser fácil sobreviver sem trabalho e esforço. A escola, apresentava-se altiva, distante, fria, alheia às realidades que viviam os miúdos no dia-a-dia. No entanto, era a única porta de salvação. Avançar para dias melhores, ser ator da sua própria vida ou ficar à beira da estrada, ao sabor da vida. Muitos ficaram e ainda lá estão hoje, ultrapassados pelo tempo que não espera, acarinhados, porém, pela família que não a deixa cair na depressão sempre à espreita.

Os moradores do bairrinho, velhos, adultos e canucos, todos se orgulham por lá terem vivido ou de lá terem saído. Com os anos que se empurram, se acumulam, os homens e mulheres em que se tornaram sabem que a pobreza aparente do bairrinho, o rigor insuportável da infância e da adolescência, foram o alicerce de suas personalidades, constituíram uma riqueza à qual recorreram para caminharem direitos por estradas sinuosas e bem diferentes das do seu bairro.

Aperceberam-se de que a força, coragem, entusiasmo com que derrubaram barreiras erguidas no caminho da vida provinham dessa infância regrada em que cada um tinha seu papel, suas obrigações e às vezes, poucas é verdade, alguns direitos.

Pena foi não terem sabido contar essa vivência aos filhos, na ânsia constante que tinham em querer proporcionar-lhes o que nunca tiveram. Afinal esqueceram-se do essencial: que, sem trabalho, esforço e abnegação, a vida é uma palavra vã!

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