Kudilonga: A Faculdade, garantia de uma vida melhor?

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Pelo andar da carruagem, a menina do bairrinho pobre seria a primeira da família a entrar na Faculdade que, vista do liceu, lhe aparecia quase irreal. Continuava a estudar afincadamente, a ter notas excelentes que a levavam a dispensar o stress dos exames.

Alunas do antigo Liceu D.Guiomar de Lencastre

O Exame de admissão aos liceus bastara-lhe e desde essa altura nunca mais foi a nenhum outro exame, graças às suas notas de quadro de honra. O destino parecia-lhe claramente traçado, escrito em linhas retas, pelo punho firme e sacrifícios consentidos pela mãe e a irmã mais velha.

Esta começou a trabalhar aos 18 anos e estudava à noite para proporcionar à caçula a possibilidade de entrar na Faculdade o mais depressa possível. A vida seria bem melhor com uma "doutora" na família, sentimento por todos partilhado.

Habituada a batalhar, a menina do bairrinho pobre imaginava-se já nos bancos da Faculdade inteiramente entregue ao estudo das suas disciplinas preferidas, línguas e pedagogia, exatamente o que faria dela uma boa professora, pensava ela. Jurara transmitir aos seus alunos tudo o que não lhe haviam ensinado.

Queria poupar-lhes as humilhações que sofrera, incutir-lhes o gosto pela aprendizagem, pelo saber. Acreditava que era possível! Mais uma vez a vida encarregou-se de lhe ensinar que os destinos não são traçados com esquadro e régua. A dinâmica das sociedades e a evolução dos povos assim os determinam.

O eterno problema da educação que recebera, fora do contexto, das realidades, pregava-lhe uma nova partida! Os dois últimos anos do liceu e sobretudo o ano de aptidão à Faculdade foram perturbados por acontecimentos políticos importantes que estremeceram o país ­ e que ela não entendia ­ assim como pelas contradições que ressentia entre a educação que recebera e o mundo que agora se lhe desenhava, agitado, bem longe do futuro radioso que a Faculdade era suposta oferecer-lhe.

Era jovem, trabalhadora e não fugia às responsabilidades. Com outros jovens da sua idade dos bairrinhos pobres como o seu, ciente de que a instrução que possuía a separara de outras aspirações mais nobres, entregou-se de peito aberto a causas que lhe pareciam justas e colocou os seus parcos conhecimentos académicos ao serviço dos que não os tinham.

A ida à Faculdade continuava a animá-la bem lá fundo do âmago mas teria de optar por outras vias, mais pragmáticas, antes de lá chegar. Associações, brigadas de limpeza, reuniões, debates, comícios, manifestações, em tudo participava atenta, alerta, tentando absorver em pouco tempo o que nunca lhe fora dado a conhecer antes.

A educação familiar, rigorosa e baseada no exemplo, socorreu-a várias vezes impedindo-a de cair em extremos. Teve sempre, desde criança, a perfeita noção das coisas. Esse pragmatismo ensinou-a a desconfiar dos bem falantes que apregoavam doutrinas sem terem dado provas de coragem.

Ora, a menina do bairrinho pobre, agora adolescente, já travara duras batalhas sobretudo contra si mesma e os tabus da sua educação. Lutar contra a injustiça, timidez, complexos de superioridade e de inferioridade, racismo, descriminação, vaidade, sabichice, petulância, avareza, desonestidade foram alguns dos seus combates.

Não tinha lições para dar a ninguém mas também não devia recebê-las de qualquer um. Arregaçou as mangas e começou a trabalhar.

A Faculdade, que entretanto fechara as suas portas por causa da forte instabilidade que se vivia no país, tornou-se num sonho adiado. Paris, 04 de Janeiro de 2012

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