O exame de admissão ao liceu Laços lacinhos e laçarotes

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Todos os pais aspiravam esse momento mágico, a passagem do exame de admissão aos liceus! Os filhos já não, temiam-no e tremiam só de pensar que deveriam passá-lo, que o dito exame substituir aos ritos de puberdade das sociedades tradicionais da terra. Para os habitantes do bairrinho da periferia, o desembaraçar-se do mais pequeno vestígio da cultura ancestral, constituía uma batalha sem tréguas a que se dedicavam com afinco, como bons alunos que eram.

Todos os pais aspiravam esse momento mágico, a passagem do exame de admissão aos liceus! Os filhos já não, temiam-no e tremiam só de pensar que deveriam passá-lo, que o dito exame substituir aos ritos de puberdade das sociedades tradicionais da terra.

Para os habitantes do bairrinho da periferia, o desembaraçar-se do mais pequeno vestígio da cultura ancestral, constituía uma batalha sem tréguas a que se dedicavam com afinco, como bons alunos que eram.

Ultrapassar as barreiras do analfabetismo, conquistar o direito, às vezes consentido, às vezes alienado, de pisar nos mesmos passeios dos meninos dos bairros do asfalto e quem sabe até, comum pouco de sorte, frequentar os bailes dos meninos da" alta sociedade", esposando assim outros ritos, hábitos e costumes...tais eram os sonhos dos meninos e meninas do bairrinho pobre.

Os pais, sem esforço, convenciam-nos de que o tão almejado exame era a chave da porta do sucesso que se abria aos mais dotados, aos" resistentes" da escola primária! Terminada a 4ª classe, não se falava noutra coisa.

Explicadores, quanto mais severos ou castradores melhor, compra de roupa, de material, escolha do estabelecimento secundário, todas as conversas dos moradores do bairrinho, temor escalados dos adultos, queixas sussurradas dos meninos exaustos pelo estudo aturados e pressão de que eram alvo, tudo andava à volta da passagem do exame.

O exame de admissão aos liceus era um elemento de seleção, por consequência, elitista, cujos alicerces assentavam no "aprender de cor" e num relativo défice de criatividade do aprendizado.

Opunha-se assim a uma pedagogia participativa, ativa, centrada no aluno e para o aluno a quem, aliás, não se exigia forçosamente capacidade de análise, de crítica ou de autocrítica mas sim a "performance" de restituir fidedignamente os ensinamentos de seus mestres, detentores da verdade.

Assim se formava a nova elite, invejada pela menina do bairrinho pobre. Contudo, a seleção dos "melhores" filhos da Nação, não se ficava por aí . A dificuldade do exame de admissão era proporcional à qualidade do liceu ambicionado.

Aos melhores alunos, os do quadro de honra, estava praticamente assegurado o acesso aos dois liceus de prestigio da capital: o liceu feminino, para as meninas bem-educadas; o liceu masculino para os bons alunos e alunas destinados a abraçar carreiras universitárias: médicos, advogados, engenheiros essencialmente.

Para os outros meninos, a Nação reservava a Escola Industrial para a formação de técnicos médios ou superiores: eletricistas, soldadores, serralheiros... já a Escola Comercial dedicava-se à formação de técnicos na área comercial: contabilistas, dactilógrafas, secretárias... Praticava-se assim insensatamente uma seleção que desvirtuava o ensino profissional, indispensável porém, e que não honrava o ensino geral.

Os mais habilidosos, dotados de engenho e arte, se quisessem frequentar um estabelecimento de renome, viam-se obrigados a optar por um ensino geral dos liceus antes de integrar em a Faculdade, caso lá chegassem. Ora este ensino académico, senão fosse completado por uma formação superior na universidade, revelava-se de pouca utilidade e no mercado de trabalho.

O corpo docente e os crentes no Ensino todo poderoso e transformador de vida melhor, perpetuavam-no. Eram os próprios alunos de cada estabelecimento que se encarregavam de defender os valores de suas respetivas escolas.

Estava fora de questão, por exemplo , que uma menina do Liceu Feminino, a quem se incutiam escrupulosamente os princípios fundamentais da religião e da moral, se ligasse de amizade a uma aluna da Escola Comercial ou da Escola Industrial que, para mal dos seus pecados, partilhava a aprendizagem com rapazes, sendo por conseguinte catalogada de "rapariga leviana".

Tais preconceitos, baseados na descriminação social por serem os mais pobres que frequentavam as escolas profissionalizantes, eram aprovados pelos pais e defendidos por cada aluno dos estabelecimentos bem reputados não se misturavam alhos com bugalhos defendiam" as boas famílias"! Não admirava então que o exame de admissão constituísse uma etapa fundamental e determinante na vida dos habitantes do bairrinho pobre.

Os que fossem selecionados pelos prestigiosos liceus eram por todos invejados. Em vésperas do exame, após longas revisões de regras gramaticais, operações aritméticas, resolução de problemas bicudos, fechavam-se os livros.

As mães, solícitas, proporcionavam aos filhos uma noite tranquila, jantar equilibrado, chazinho de lorde laranjeira, calmia absoluta, pasta arrumadinha, caneta de tinta permanente, tinteiro e mata-borrão, batas branquíssimas passadinhas a ferro, aguardavam penduradas no cabide o grande dia. Quanto aos meninos, pouco dormiam, angustiados pela responsabilidade que pesava sobre os seus frágeis ombros.

Mesmo assim, as mães conseguiam estará pé antes deles. O banho era esmerado, interminável, o corpo esfregado vigorosamente, sovacos, joelhos e cotovelos minuciosamente inspecionados, unhas cortadas rentinho.

Para os meninos, cabelo à escovinha; para as meninas, cabelo esticado e abrilhantado com trancinhas e puxinhos enfeitados nas pontas por lacinhos e laçarotes. Bem lá no fundo, a miudagem sentia-se orgulhosa por ser o centro das atenções da família nesse dia que iria mudar suas vidas para sempre.

Acompanhados pelas mães ­ os pais já tinham saído para o trabalho­lá ia a criançada, compenetrada e séria. À porta da escola primária, os examinadores começavam a chamada interminável dos nomes que , nesse dia, pareciam compridérrimos. Até que soava o nome esperado e lá entravam os meninos em fila para as enormes salas de exame, austeras, impessoais.

Dadas as indicações da praxe por professores severos e de poucos sorrisos, os bons alunos atacavam os exercícios com frenesim enquanto os mais fracos olhavam distraidamente para a folha da prova vendo, atrapalhados, passar o tempo veloz.

Ao martírio da prova escrita, para quem não tivesse tido a sorte ou o mérito de obter uma nota elevada que o dispensasse, seguia-se a prova oral com as suas arbitrariedades e subjetividades de cada examinador.

Uma avaliação é sempre subjetiva e, se uma única prova, como o exame de admissão aos liceus, tem por objetivo verificar o saber num ano acumulado, essa avaliação é ainda mais injusta pois limita-se a considerar uma competência, para não dizer capacidade de resistência, num momento determinado e psicologicamente conturbado para o aluno, como já constatámos.

Voltando ao exame, não dá nem para imaginar em que estados se encontravam os meninos do bairrinho pobre, nos sapatos apertados, congestionados por soquetes que mantinham presos seus pés habituados à liberdade do areal das ruas! Porém, aguentavam, valentes. Geralmente ao fim do dia, saíam os resultados.

Uma lancinante dor de barriga impedia os meninos de avançar em direção à pauta. Os nomes das listas longas, cuidadosamente preenchidas por uma caligrafia certinha, bailavam perante os seus olhos cansados. O dia fora longo e extenuante! Gritos de alegria dos aprovados misturavam-se a choros convulsivos e aflitos dos reprovados.

Vencidas estas primeiras emoções, começava a batalha das notas, o quadro de honra obrigatório para manter o abono de família, um subsídio de que beneficiavam os chefes de família empregados da função pública.

Para os eleitos era uma felicidade só , muitos elogios aos alunos e aos pais, beijinhos e abraços, recompensas de toda a família, orgulhosa e reconhecida.

Para os reprovados, as reprimendas, a desilusão, o ruir de muitos sonhos. O exame de admissão aos liceus era responsável por um certo desperdício de talentos, falta de bom senso comum e desconhecimento das regras elementares de pedagogia.

Paris, 02 de Janeiro de 2012

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