O liceu e as questões de identidade

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A menina bem comportada do bairrinho pobre obtivera uma excelente nota no seu exame de admissão aos liceus e foi, sem surpresa, que se matriculou no liceu feminino, considerado um dos melhores liceus da capital. Não cabia em si de contente pois realizara o seu sonho e o de sua mãe que a mostrava como exemplo aos irmãos, primos e resto da miudagem da sua família numerosa.

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Em troca, as crianças, postas a nu nas suas fragilidades, manifestavam-lhe, à socapa, invejas e maldades dissimuladas, que só os miúdos na sua crueldade inocente sabem imaginar. Isolada no seu sonho, determinada, a menina prosseguia sua meta, consciente dos sacrifícios e renúncias a que teria de se submeter.

A educação cuidada e austera dada pela mãe não a alertara contra as mas intenções, abusos, injustiças e perversidades do mundo dos adultos. Pouco importava. Na sua ingenuidade, a menina compreendera que só podia contar com as suas próprias forças, pois os adultos não podiam ajudá-la agora que ela se preparava para entrar num mundo desconhecido no qual eles nunca haviam penetrado.

Os obstáculos eram imensos. Por um lado, o liceu com as suas realidades, novidades e desafios onde, privada dos seus amiguinhos de infância, enfrentaria novas colegas, novas professoras, um meio exclusivamente feminino.

Por outro lado, a família, barulhenta, turbulenta como sempre, deixando-lhe pouco tempo e privacidade para se dedicar inteiramente aos estudos como gostaria.

No quarto que partilhava com todas as meninas da família, irmãs, primas e afilhadas da mãe, escondia os haveres escolares que adquirira a custo após varias insistências junto da mãe – o pai havia deixado a família, para seu grande alívio.

Os miúdos que despachavam os deveres ou que tinham um exame importante sabiam que encontrariam na sua pasta os tesouros de que necessitavam. Pouco respeitosos dos bens de outrem, usavam-nos e extraviavam-nos, deixando a menina angustiada.

A verdade é que a sua vida era ritmada pela atividade escolar por não querer deixar aos professores a mínima ocasião para a humilharem como faziam frequentemente com as colegas mais pobres da turma.

Só que não se pode antecipar todos os problemas e contratempos. É a capacidade que cada um possui para os ultrapassar, quando não os puder evitar, que determina o seu carácter, sua perseverança e adaptação face às adversidades. Mas isso a menina não sabia, na sua ânsia de vencer. Por isso, os desafios martirizavam-na em vez de contribuírem para a formação harmoniosa do seu ser.

Experiências dolorosas vividas na turma não contribuíam para a aliviarem desse peso e maturidade precoces, insuportáveis para uma menina de apenas 11 anos. Ainda se lembrava de um triste episódio ocorrido numa aula de português com uma colega moradora num bairro pobre.

A professora propusera aos alunos uma redação em que cada um descrevesse as sensações que ressentia perante o seu prato preferido. Descrever sensações já era complicado, abordar a gastronomia da terra parecia-lhe simplesmente impossível. Mas como exprimir sentimentos perante pratos desconhecidos, sabores ignorados? A colega decidiu mentir e escolheu, com o prato preferido, “bifes com batas fritas e ovos estrelados” – “foi o meu almoço hoje mesmo” – acrescentara ela.

Nesse dia, por ironia do destino ou azar dela, a pobrezinha sentiu-se mal e vomitou na turma. As colegas maldosas gritavam excitadas entre risos “Então com este bife com batas fritas e estás a vomitar amarelo, da cor do óleo de palma?”. A menina sentira invadir-lhe uma grande tristeza e não sabia se a colega desmaiara pelo almoço que lhe caíra mal ou se pela humilhação que sofrera.

Lembrava-se também da velha professora de latim e de língua portuguesa, exigente e rigorosa, que fazia um sermão às colegas portuguesas cada vez que uma aluna angolana tivesse a nota mais alta da turma em português ou em latim.

A menina do bairrinho pobre tirava várias vezes a melhor nota da turma e via com tristeza seu prazer estragado pela observação discriminatória da professora! O paradoxo é que, em vez de a dissuadir tais atitudes incorretas e antipedagógicas, reforçavam a sua vontade de vencer, infelizmente em detrimento do seu equilíbrio emocional.

Um dia, após um almoço em família, uma das suas amigas de infância justificava junto do pai a má nota que lhe dera a professora de português, pelo facto de ela ser preta, dizia a amiga. O pai, um homem sábio e ponderado, perguntou-lhe: “ E tu , minha filha, sabendo que a professora te daria uma nota “de pretos”, será que estudaste como preta que és“? A menina do bairrinho pobre nunca conseguiu entender o que lhe quisera explicar, com essa frase, o tio mais velho.

No entanto, percebeu e constatou-o mais tarde em experiências vividas, que para ser avaliada a seu justo valor tinha de ser a melhor, em tudo, sempre que fosse possível. Reteve a lição e aplicou-a ao longo da vida. Mais tarde, verificou que o mais importante não era ser a melhor de todos – não era possível e a vida não é uma competição – devia, sim, dar sempre o melhor de si, que já é um objetivo mais ao seu alcance.

A passagem pelo liceu foi formadora apesar das frustrações sem conta. Ensinara-lhe a humildade, a solidariedade, a escolher o campo da justiça mesmo que para tal fosse necessário comprometer o seu bem-estar e conforto imediatos.

Quantas vezes em discussões acesas que opunham o grupo das alunas portuguesas ao das angolanas, em minoria no liceu da elite feminina, ela teria preferido ficar quietinha, passar despercebida! Porém, aprendeu a ganhar coragem, assumir as suas opções e andar de cabeça levantada. Não se metia em confusões, mas tomava posição - com dificuldade, diga-se a verdade – sempre que estivesse em causa a dignidade das meninas de muitos bairros pobres como o dela. A menina do bairrinho pobre servia de exemplo para outras meninas.

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