Sojourner Truth

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No aniversário da sua morte, a 26 de Novembro de 1883 recordamos Sojourner Truth, a primeira ex-escrava americana a vencer uma causa em tribunal

Sojourner Truth, a primeira ex-escrava americana a vencer uma causa em tribunal

Que futuro se poderia esperar para uma mulher negra nascida escrava numa nação controlada por homens brancos livres? Abolicionista, evangelista e feminista, Sojourner Truth foi a primeira negra a vencer uma causa contra um branco, quando moveu uma acção em tribunal para que lhe fosse devolvido o seu filho, Peter, que tinha sido vendido ilegalmente. Truth cresceu sem ir à escola, e não sabia ler nem escrever ­ quem teria imaginado que viria a tornar-se uma das maiores oradoras da América, ou que produziria (ditando a uma vizinha) uma das autobiografias mais inspiradoras do Séc. XIX?

Biografia de Sojourner Truth
Isabella Van Wagenen (Sojourner Truth) nasceu escrava em Hurley, Nova Iorque, em 1797. Sendo uma das 13 crianças que os pais tiveram, Truth nunca conheceu os irmãos e as irmãs porque estes foram rapidamente vendidos como escravos.
O seu dono, o Sr. Dumond, arranjoulhe o casamento com um escravo chamado Thomas. Desse casamento nasceram 5 filhos, mas o seu dono vendeu alguns deles.

Foi libertada segundo a Lei Anti-Esclavagista de Nova Iorque, em 1827, porém ainda seriam necessários 35 anos para que a escravatura fosse abolida em todo o país. Viveu durante algum tempo com uma família Quaker que lhe deu a única educação que recebeu na vida. Foram eles que também a ajudaram a recuperar um dos seus filhos.

Começou a defender, sem rodeios nem papas na língua, os direitos das mulheres e os direitos dos negros. Em 1843, mudou o nome para Sojourner Truth. Por toda a parte onde falava, deixava uma impressão duradoura. Era fisicamente robusta, media mais de um metro e oitenta e possuía uma voz poderosa, de trovão.

Apoiou de forma activa as tropas Negras durante a Guerra Civil e ajudou a fazer com que o governo desse terras a esses soldados. Continuou a viajar e a pregar por todo o Nordeste e Centrooeste, deslocando-se da sua casa em Battle Creek, no Michigan, onde morreu aos 84 anos, em 1883.

Eu não sou uma mulher?

Em 1851, na Convenção dos Direitos da Mulher em Akron, no Ohio, Sojourner Truth fez o seu famoso discurso "Eu não sou uma mulher?" (O movimento dos direitos das mulheres cresceu, em larga medida, a partir do movimento anti-esclavagista.) Não existe nenhuma gravação formal do seu discurso, mas Frances Gage, abolicionista e presidente da Convenção, relatou as suas palavras. Discute-se sobre a exatidão desse relato, porque Gage só procedeu ao seu registo em 1863, e este difere um pouco dos artigos dos jornais de 1851. Contudo, é o relato de Gage que perdura e não restam dúvidas de que, sejam quais tenham sido as palavras exactas, "Eu não sou uma mulher?" teve um enorme impacto na Convenção e tornou-se uma expressão clássica dos direitos das mulheres.

O Relato Clássico
No segundo dia da Convenção dos Direitos das Mulheres estavam presentes vários ministros, que não se coibiram de expressar a sua opinião acerca da superioridade do homem em relação às mulheres. Um deles proclamou o "intelecto superior", outro falou da "masculinidade de Cristo", e outro ainda referiu-se ao "pecado da nossa primeira mãe."

De repente, Sojourner Truth levantou-se do seu lugar no canto da igreja. "Pelo amor de Deus, senhora Gage, não a deixe falar!", cochichou meia dúzia de mulheres em tom audível, temendo que a sua causa fosse misturada com o Abolicionismo.

Sojourner dirigiu-se ao pódio e lentamente tirou da cabeça o boné para a proteger do sol. A sua estrutura de um metro e oitenta elevou-se sobre a audiência. E ela começou a falar na sua voz profunda e retumbante: "Bem, filhas, onde há tanto barulho, deve haver alguma coisa fora dos eixos, penso que entre os Negros do Sul e as mulheres do Norte ­ todos a falar de direitos ­ muito em breve o homem branco estará em apuros. Mas afinal, o que vem a ser toda esta conversa?"
Sojourner apontou para um dos ministros. "Aquele homem ali afirma que as mulheres precisam de ser ajudadas a entrar para as carruagens, e a atravessar as valas, e a arranjar os melhores lugares em toda a parte. A mim ninguém me ajuda a conseguir um bom lugar. E eu não sou uma mulher?"

Sojourner impôs-se em toda a sua altura. "Olhem para mim! Olhem para o meu braço." Puxou a roupa, deixou o braço direito à mostra e contraiu os poderosos músculos. "Eu lavrei a terra, eu plantei e armazenei as colheitas em celeiros. E não havia homem que conseguisse fazer melhor. E eu não sou uma mulher?"
"Era capaz de trabalhar tanto, e de comer tanto como um homem ­ quando conseguia essa quantidade ­ e de aguentar as chicotadas, também! E não sou uma mulher? Trouxe filhos ao mundo e vi a maior parte deles serem vendidos como escravos, e quando chorava, desbragada, a dor de uma mãe, ninguém me ouvia senão Jesus. E eu não sou uma mulher?"
As mulheres presentes começaram a aplaudir estrondosamente.
Depois Sojourner apontou para outro ministro. "Ele fala sobre essa coisa na cabeça. Como é que lhe chamam?"
"Intelecto," murmurou uma mulher ali perto.
"É isso mesmo, querida. O que é que o intelecto tem a ver com os direitos das mulheres ou os direitos dos negros? Se a minha caneca não comporta senão meio litro e a vossa leva um litro, vocês não seriam cruéis se não me deixassem encher a minha pequena meia medida?"
"Aquele homem baixo que ali está vestido de preto! Diz ele que as mulheres não podem ter tantos direitos como os homens. Porque Cristo não foi uma mulher." Truth continuou, com os braços esticados, os olhos incendiados.
"De onde veio o seu Cristo?" "De onde veio o seu Cristo?", vociferou de novo. "De Deus e de uma Mulher! O homem não teve nada a ver com isso!"
Nessa altura a igreja em peso irrompeu em aplausos ensurdecedores.
"Se a primeira mulher que Deus criou foi suficientemente forte para, sozinha, virar o mundo de pernas para o ar, estas mulheres juntas deverão ser capazes de lhe dar outra vez a volta e colocá-lo novamente direito. E agora que elas estão a pedir para fazer isso, é melhor que os homens o permitam."

Memorial
•    Sojourner Truth foi uma famosa escrava afro-americana, abolicionista, e activista dos direitos das mulheres.
•    Foi baptizada como Isabella Baumfree, mas alterou o nome para Sojourner Truth em 1843, quando tinha cerca de 46 anos.
•    Truth nasceu escrava em Nova Iorque, por volta de 1797.
•    Os seus pais, os doze irmãos e os seus cinco filhos também nasceram escravos. • Ao longo da vida, Truth foi comprada e vendida quatro vezes. Era açoitada e foi violada quando era uma jovem escrava. • Em 1826 fugiu do seu dono com a filha bebé. Deixou para trás os outros quatro filhos.
•    Uma família Quaker ajudou-a. Deixaram-na viver com eles na companhia da filha.
•    Truth obteve a liberdade quando o Acto de Emancipação do Estado de Nova Iorque foi aprovado em 1827.
•    Converteu-se ao Cristianismo e viajou pelo país para ajudar nas causas abolicionistas e promover os direitos das mulheres.
•    Em 1851, na Convenção dos Direitos das Mulheres de Ohio, em Akron, no Ohio, Truth fez o seu famoso discurso "Eu não sou uma mulher?".
•    Falou para muitas audiências sobre a escravatura, a reforma do sistema prisional, a pena de morte e os direitos das mulheres.
•    Truth fez mais do que limitar-se a falar; também recrutou soldados afroamericanos para o Exército da União durante a Guerra Civil, tentou obter concessões de terras para antigos escravos e tentou votar numa eleição presidencial.
•    Sojourner Truth morreu a 26 de Novembro de 1883, em Battle Creek, no Michigan.

Factos relativos a Sojourner Truth
1. Sojourner Truth media cerca de um metro e oitenta.
2. Durante um discurso em 1858, quando alguém a acusou de ser um homem, abriu a blusa para provar que não era.
3. Truth encontrou-se com os Presidentes Abraham Lincoln e Ulysses S. Grant.
4. Em 1986, o Serviço Postal dos Estados Unidos emitiu um selo em sua honra.
5. A NASA baptizou um rover robótico com o seu nome.

"Se a primeira mulher que Deus criou foi suficientemente forte para, sozinha, virar o mundo de pernas para o ar, estas mulheres juntas deverão ser capazes de lhe dar outra vez a volta e colocá-lo novamente direito. E agora que elas estão a pedir para fazer isso, é melhor que os homens o permtam." Sojourner Truth

Engenho espacial da NASA com o nome da heroína

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